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Ficha · Secretagogo de GH (GHS) de primeira geração — hexapeptídeo sintético da família GHRP (Growth Hormone Releasing Peptide), agonista do receptor de secretagogo de GH (GHS-R) e do receptor CD36

Hexarelina

Secretagogo de GH (GHS) de primeira geração da Mediolanum (Itália). Hexapeptídeo derivado de GHRP-6 com atividade adicional sobre receptor CD36 — base mecanística para literatura italiana de cardioproteção dos anos 1990-2000 (Locatelli, Rossoni, Bisi, Broglio). Sem registro ANVISA, FDA ou EMA. Banida WADA S2.2.

InvestigacionalEvidência preliminar
PorAmanda MatsudaPublicado24 de maio de 2026

Peptídeo encaixa em receptor · sinal celular

Quick answer

Hexarelina é secretagogo de GH (GHS) de primeira geração da família GHRP (Growth Hormone Releasing Peptide), hexapeptídeo sintético desenvolvido nos anos 1990 pela Mediolanum Farmaceutici (Itália) como derivado estrutural de GHRP-6 com modificações de aminoácidos (D-2-methyl-Trp na posição 2, D-Phe na posição 5) para resistência à degradação enzimática. Sequência: His-D-2-methyl-Trp-Ala-Trp-D-Phe-Lys-NH2. O mecanismo primário é agonismo do receptor de secretagogo de GH (GHS-R) em somatotrofos hipofisários, estimulando secreção pulsátil de GH endógeno; mecanismo secundário é agonismo do receptor CD36 em cardiomiócitos — base para a literatura italiana de cardioproteção dos anos 1990-2000 (Rossoni 1998 PMID 9700988, Bisi 1999 PMID 10342360, Bodart 1999 PMID 10532947, Broglio 2002 PMID 12144941). Em maio/2026, hexarelina não tem registro ANVISA, FDA nem EMA como medicamento — programa clínico nunca avançou a fase 3 pivotal. É banida pela WADA na Section S2.2 em e fora de competição. Manipulação magistral não é endossada pela ANVISA.

O que é

Hexarelina é hexapeptídeo sintético da família GHRP (Growth Hormone Releasing Peptide) — classe farmacológica de secretagogos de GH (GHSs) cuja primeira geração foi desenvolvida nos anos 1980-1990 antes da caracterização do ligante endógeno do receptor que esses peptídeos ativavam. A descoberta dos GHRPs foi essencialmente "ao contrário" da farmacologia clássica: peptídeos sintéticos com atividade liberadora de GH foram caracterizados primeiro, e o receptor (GHS-R, growth hormone secretagogue receptor) foi clonado em 1996 (Howard et al., Science) — apenas em 1999 Kojima e Kangawa identificaram a grelina como o ligante endógeno do GHS-R.

A linhagem é específica:

  • GHRP-6 (Bowers et al., 1980s) — primeiro GHRP caracterizado, hexapeptídeo de referência.
  • GHRP-2 (Pralmorelin) — derivado de GHRP-6 com potência aumentada.
  • Hexarelina (Deghenghi et al., Mediolanum Farmaceutici, anos 1990) — derivado estrutural de GHRP-6 com modificações de aminoácidos para resistência à degradação enzimática (D-2-methyl-Trp na posição 2, D-Phe na posição 5).
  • Ipamorelina (Novo Nordisk, anos 1990) — GHS de segunda geração com perfil mais seletivo (menor ativação de eixo HHA e prolactina).
  • MK-677 (Ibutamoren) (Merck, anos 1990-2000) — GHS de via oral, biodisponibilidade oral significativa.

Hexarelina ocupa posição histórica como GHS de primeira geração com perfil farmacológico amplo — estimulação de GH com ativação concomitante de eixo HHA (cortisol, ACTH) e elevação transitória de prolactina, perfil que ipamorelina e MK-677 buscaram refinar nas gerações subsequentes.

A produção e o programa clínico foram conduzidos pela Mediolanum Farmaceutici (Itália), em colaboração com grupos acadêmicos italianos das Universidades de Milão (Locatelli, Rossoni, Müller) e Torino (Ghigo, Broglio, Muccioli). A produção em escala industrial existiu apenas em contexto de pesquisa — não há produto comercial registrado.

Mecanismo

O mecanismo de hexarelina opera por duas vias farmacológicas paralelas — agonismo de GHS-R (com consequência hipofisária e hipotalâmica) e agonismo de CD36 (com consequência cardíaca direta).

Via 1 — agonismo de GHS-R (Growth Hormone Secretagogue Receptor). GHS-R é receptor acoplado a proteína Gq expresso em somatotrofos da hipófise anterior, no hipotálamo (núcleos arqueado e ventromedial) e em tecidos periféricos. A ativação em somatotrofos estimula liberação de GH armazenado por mobilização de cálcio intracelular via fosfolipase C e IP3. O efeito é amplificação da pulsatilidade endógena de GH — pulsos endógenos hipotalâmicos via GHRH são potencializados pela ação de hexarelina via GHS-R, com sinergismo descrito em literatura.

Diferentemente do GHRH (que age via receptor GHRH-R, distinto do GHS-R), os GHRPs ativam GHS-R independentemente da pulsatilidade GHRH endógena. Hexarelina pode estimular liberação de GH mesmo em ausência de pulso GHRH — útil em diagnóstico de reserva hipofisária em literatura endocrinológica italiana dos anos 1990.

A ativação adicional de GHS-R hipotalâmico estimula concomitantemente o eixo HHA (hipotalâmico-hipofisário-adrenal), produzindo elevação aguda de cortisol e ACTH — efeito descrito em Bisi 1999 (PMID 10342360) em humanos saudáveis. Esse perfil é menos seletivo que o de ipamorelina (GHS de segunda geração desenhada para minimizar ativação do HHA).

Via 2 — agonismo de CD36 (receptor scavenger cardíaco). Bodart e colegas (Circ Res 1999, PMID 10532947) identificaram receptor cardíaco específico para hexarelina e GHRPs distinto do GHS-R hipofisário — posteriormente caracterizado como CD36, receptor scavenger expresso em cardiomiócitos, macrófagos e adipócitos. A ativação de CD36 por hexarelina em cardiomiócitos é hipótese mecanística central para os efeitos cardiovasculares diretos descritos em literatura italiana pré-clínica (cardioproteção em isquemia/reperfusão, aumento de débito cardíaco, ação independente do eixo GH).

Essa segunda via diferencia hexarelina de análogos de GHRH puros como CJC-1295, sermorelina e tesamorelina — que ativam apenas GHRH-R hipofisário e não têm via cardíaca direta documentada.

Administração. Em ensaios clínicos italianos foram testadas formas subcutânea, intranasal (em doses de 1,5-2 mg) e intravenosa (em doses de 1,5-2 μg/kg). A magnitude do estímulo de GH é dose-dependente. Meia-vida é curta — administração precisa ser repetida para manter exposição clínica sustentada.

O que os estudos mostram

A base de evidência publicada para hexarelina é dominada por literatura italiana dos anos 1990-2000 dos grupos Locatelli/Müller (Università di Milano), Rossoni (Università di Milano farmacologia), e Ghigo/Broglio/Muccioli (Università di Torino), em colaboração com a Mediolanum Farmaceutici. Os ensaios humanos têm tamanhos amostrais pequenos e o programa nunca avançou a fase 3 pivotal em qualquer indicação.

1. Estudo pré-clínico seminal de cardioproteção — Rossoni et al. 1998 (J Cardiovasc Pharmacol, PMID 9700988). Modelo Langendorff de isquemia/reperfusão em corações isolados de ratos machos senescentes (24 meses). Controle (saline) recuperou apenas 37% de LVDP basal pós-reperfusão. Hexarelina IV 80 μg/kg 2x/dia por 21 dias in vivo recuperou quase completamente (90% de LVDP basal). GH recombinante teve proteção parcial. Esse estudo estabelece o paradigma de cardioproteção independente de GH — base para a hipótese mecanística da via CD36 caracterizada subsequentemente.

2. Identificação molecular do receptor cardíaco — Bodart et al. 1999 (Circ Res, PMID 10532947). Estudo de farmacologia molecular que identifica receptor cardíaco específico para hexarelina e GHRPs, distinto do GHS-R hipofisário. Cardiomiócitos e vasculatura coronariana expressam o receptor — posteriormente caracterizado como CD36. Base molecular para os efeitos cardíacos diretos observados em literatura italiana subsequente.

3. Estudo humano seminal de efeitos cardiovasculares agudos — Bisi et al. 1999 (J Endocrinol Invest, PMID 10342360). 7 voluntários masculinos saudáveis submetidos a angiocardiografia radioisotópica após administração IV de rhGH ou hexarelina. Resultados: ambos elevaram GH em magnitude semelhante. Aldosterona e catecolaminas não mudaram. Hexarelina (mas não rhGH) elevou significativamente cortisol — efeito sobre eixo HHA via GHS-R. LVEF, MBP e HR não foram alterados por rhGH. Conclusão dos autores: hexarelina e rhGH têm efeitos cardiovasculares distintos apesar de elevação equivalente de GH — sugerindo via direta de hexarelina sobre o coração, hipótese para a literatura cardiovascular subsequente.

4. Estudo em pacientes com doença coronariana — Broglio et al. 2002 (Eur J Pharmacol, PMID 12144941). Hexarelina IV aguda durante cirurgia de revascularização miocárdica (CABG) em pacientes com doença coronariana melhorou desempenho cardíaco — aumento de débito cardíaco, redução de resistência vascular sistêmica, sem alteração significativa de frequência cardíaca ou pressão arterial. Pequena amostra, ensaio agudo, gerador de hipótese para investigação subsequente — que não se materializou em RCT pivotal.

5. Outros estudos italianos cardiovasculares pré-clínicos. A literatura italiana dos anos 1990-2000 inclui múltiplos estudos pré-clínicos adicionais — De Gennaro Colonna, Locatelli, Müller, Rossoni e Ghigo publicaram extensivamente sobre cardioproteção, ação em cardiomiócitos isolados e modelos de infarto do miocárdio em roedores. O corpo de evidência pré-clínica é robusto e direcional. A translação para RCT humano pivotal nunca ocorreu.

6. Estudos em indicações endocrinológicas. Ensaios de hexarelina em diagnóstico de reserva hipofisária e em deficiência de GH em crianças e adultos foram conduzidos pelo grupo italiano. Programa não progrediu a fase 3 pivotal e a indicação endocrinológica foi descontinuada — análogos de GHRH (sermorelina, tesamorelina) tomaram esse espaço regulatório, com tesamorelina recebendo registro FDA para lipodistrofia em HIV.

O que ainda não foi caracterizado em literatura indexada. RCT fase 3 pivotal em qualquer indicação (cardiovascular ou endocrinológica). Eficácia em desfechos pivotais (mortalidade cardiovascular, hospitalização por insuficiência cardíaca, infarto). Segurança long-term (>12 meses) em uso continuado. Comparação direta head-to-head com ipamorelina, MK-677 ou tesamorelina em populações clínicas.

Efeitos adversos

A literatura humana publicada para hexarelina — restrita a ensaios fase 1 e 2 italianos dos anos 1990-2000 com tamanhos amostrais frequentemente <20 sujeitos — descreve perfil de tolerabilidade aceitável em curto prazo, com efeitos hormonais conhecidos do mecanismo.

Ativação do eixo HHA (cortisol/ACTH). Elevação aguda de cortisol e ACTH após administração de hexarelina, descrita em Bisi 1999 (PMID 10342360) e em literatura subsequente. Efeito via GHS-R hipotalâmico. Em uso continuado, implicação clínica não está caracterizada — risco teórico de supressão adrenal por uso prolongado ou de efeitos cushingoides em doses altas.

Aumento transitório de prolactina. Descrito em literatura italiana — implicação clínica em uso continuado não está caracterizada. Em uso prolongado, risco teórico de galactorreia, ginecomastia ou alterações menstruais (não documentados em literatura indexada com magnitude relevante por ausência de ensaios long-term).

Hiperglicemia transitória. Efeito antiinsulínico do GH endógeno estimulado. Em uso continuado, risco teórico de resistência à insulina e alteração do metabolismo glicídico — perfil compartilhado por toda a classe GHS.

Eventos locais de injeção. Eritema, dor leve no sítio subcutâneo. Para forma intranasal, irritação local nasal.

Eventos cardiovasculares. Em ensaios agudos humanos (Bisi 1999, Broglio 2002), hexarelina IV produziu alterações cardiovasculares — aumento de débito cardíaco, redução de resistência vascular sistêmica em pacientes com doença coronariana. Esses efeitos foram interpretados em literatura italiana como benéficos no contexto cardiovascular. Em uso clínico geral, o significado em populações sem indicação cardiovascular específica não está estabelecido.

Cefaleia, sonolência, rubor facial. Descritos em frequência variável nos ensaios fase 1/2 italianos.

Dados de segurança long-term (>12 meses) em humanos são inexistentes. Programa clínico nunca avançou a fase 3 e farmacovigilância pós-comercialização não existe por ausência de registro como medicamento.

Status regulatório no Brasil

ANVISA. Hexarelina não tem registro ANVISA em maio/2026. Não tem registro FDA, EMA, Health Canada, TGA (Austrália) nem PMDA (Japão). Não há produto industrializado contendo hexarelina aprovado em qualquer país.

Manipulação magistral. Manipulação magistral de hexarelina não é endossada pela ANVISA. Argumentos regulatórios convergentes:

  • Sem produto industrializado de referência em qualquer país. A RDC 359/2020 e o regime CADIFA (Carta de Adequação do Dossiê de IFA) operam sob o pressuposto de moléculas com produto industrializado registrado.
  • Sem cadeia de IFA peptídico regulada no Brasil. A Nota Técnica 200/2025 da ANVISA, embora detalhe critérios técnicos para IFAs peptídicos manipulados (HPLC/UV, mapa peptídico, doseamento, esterilidade, endotoxinas), opera sobre moléculas com cadeia regulatória estabelecida. Hexarelina não atende.
  • Programa clínico descontinuado nos anos 2000. Não há programa fase 3 em andamento e a molécula não está em desenvolvimento ativo em maio/2026.

Importação por pessoa física. Importação por pessoa física de hexarelina para autoadministração configura infração sanitária no regime regulatório de maio/2026.

Comércio direto ao consumidor. Comércio direto em plataformas digitais, marketplaces, "lojas de peptídeos de pesquisa" ou farmácias sem prescrição válida configura infração sanitária. Em fiscalizações ANVISA de 2025-2026, plataformas e farmácias com prática de venda direta de peptídeos sem registro foram alvo de ações executivas.

WADA. Hexarelina é banida pela WADA na Section S2.2 (Growth Hormone Releasing Factors), em e fora de competição, junto a GHRP-1, GHRP-2, GHRP-6, alexamorelina, ipamorelina, anamorelina, ibutamoren (MK-677) e outros secretagogos de GH. Métodos de detecção antidopagem evoluíram para incluir GHRPs. Atletas testados positivos enfrentam suspensão automática conforme o Código Mundial Antidopagem.

Pesquisa clínica. Pesquisadores em instituições com aprovação ética (Comitê de Ética em Pesquisa, CONEP) e regulatória (ANVISA via processo de autorização de pesquisa clínica) podem acessar hexarelina via canais de pesquisa especificamente autorizados — não é uso clínico geral.

O que sabemos

  • Hexarelina é hexapeptídeo sintético da família GHRP — secretagogo de GH (GHS) de primeira geração.
  • Desenvolvida nos anos 1990 pela Mediolanum Farmaceutici (Itália) como derivado estrutural de GHRP-6.
  • Mecanismo primário: agonismo do receptor GHS-R (estimulação de GH endógeno).
  • Mecanismo secundário: agonismo do receptor CD36 em cardiomiócitos (base para literatura italiana de cardioproteção).
  • Literatura italiana 1998-2002 estabeleceu paradigma de cardioproteção em modelos pré-clínicos (Rossoni 1998 PMID 9700988) e humanos curtos (Bisi 1999 PMID 10342360, Broglio 2002 PMID 12144941).
  • Ativação aguda do eixo HHA (cortisol, ACTH) e elevação transitória de prolactina são efeitos conhecidos.
  • Sem registro em qualquer país em maio/2026.
  • Banida WADA S2.2 em e fora de competição.
  • Manipulação magistral não endossada pela ANVISA.

O que ainda não sabemos

  • Se a hipótese de cardioproteção via CD36 se traduz em desfechos clínicos pivotais (mortalidade, hospitalização por insuficiência cardíaca, infarto) — programa nunca avançou a fase 3.
  • Eficácia em indicações endocrinológicas em RCT pivotal — análogos de GHRH (tesamorelina) ocuparam esse espaço regulatório.
  • Segurança long-term (>12 meses) em uso continuado — dados inexistentes.
  • Comparação direta head-to-head com ipamorelina, MK-677 ou outros GHSs em populações clínicas.
  • Magnitude e padrões de uso em mercado paralelo brasileiro em 2026 — informação majoritariamente em fiscalizações ANVISA, sem registro epidemiológico publicado.

Por que importa

Hexarelina é caso paradigmático de molécula com base científica robusta em literatura pré-clínica e ensaios humanos curtos, com hipótese mecanística diferenciada (CD36 + GHS-R), cujo programa de desenvolvimento clínico nunca avançou a fase 3 pivotal. A literatura italiana dos anos 1990-2000 estabeleceu paradigma de cardioproteção e identificou receptor cardíaco específico (CD36) — trabalho científico de qualidade que não se traduziu em registro como medicamento em qualquer país.

A razão da descontinuidade tem várias dimensões editoriais. Comercialmente, a Mediolanum Farmaceutici não levou hexarelina à fase 3 pivotal em cardioproteção — investimento alto, desfecho hard difícil, mercado cardiovascular dominado por outras classes. Regulatoriamente, a era pré-grelina (até 1999) e a transição subsequente para GHS de segunda geração (ipamorelina, MK-677) deslocaram interesse científico. Cientificamente, a hipótese cardiovascular via CD36 permaneceu interessante mas não foi validada em RCT pivotal.

Em 2026, hexarelina ressurge em mercado paralelo de peptídeos manipulados — vendida em farmácias fora do regime regulatório, em plataformas digitais de "peptídeos de pesquisa", em material comercial que descreve hexarelina como "secretagogo de GH para anti-aging e cardio". A base científica desses claims é majoritariamente a literatura italiana pré-clínica e os ensaios humanos curtos dos anos 1990-2000 — não estudos clínicos pivotais ou registros regulatórios.

Para o leitor brasileiro em 2026, a informação útil é regulatória e científica. Hexarelina não tem registro em qualquer país. Manipulação não é endossada pela ANVISA — molécula sem produto industrializado de referência e sem cadeia regulatória estabelecida. Banida WADA S2.2 em atletas. A base científica para uso clínico geral, em maio/2026, não sustenta indicação reconhecida regulatoriamente, apesar da literatura italiana mecanística de qualidade.

A pephealth não recomenda nem desaconselha o uso de hexarelina. A função desta ficha é descrever o que está em literatura indexada PubMed, a hipótese mecanística italiana dos anos 1990-2000 e o que a regulação ANVISA, FDA e WADA permitem (e não permitem) — distinguindo as camadas e expondo a diferença entre literatura científica de qualidade e registro regulatório como medicamento.

Para outros secretagogos de GH (GHSs) ou análogos de GHRH, ver /peptideos/cjc-1295, /peptideos/ipamorelina, /peptideos/tesamorelina e /peptideos/mk-677.

Perguntas frequentes

O que é hexarelina e quem desenvolveu?
+
Hexarelina é hexapeptídeo sintético da família GHRP (Growth Hormone Releasing Peptide) — secretagogo de GH (GHS) de primeira geração. Foi desenvolvida nos anos 1990 pela Mediolanum Farmaceutici (Itália) como derivado estrutural de GHRP-6 com modificações de aminoácidos (D-2-methyl-Trp na posição 2, D-Phe na posição 5) para resistência à degradação enzimática e potência aumentada. Sequência: His-D-2-methyl-Trp-Ala-Trp-D-Phe-Lys-NH2. O programa clínico italiano dos anos 1990-2000 explorou hexarelina em duas frentes: (1) estimulação de GH em deficiência somatotrópica (via subcutânea, intranasal e oral); (2) **cardioproteção via receptor CD36**, hipótese mecanística desenvolvida pelo grupo Locatelli/Rossoni/Bisi/Broglio (Università di Milano, Università di Torino). O programa nunca avançou a fase 3 pivotal e não recebeu registro como medicamento em qualquer país.
Qual o mecanismo de hexarelina?
+
Hexarelina tem dois mecanismos principais. (1) **Agonismo do receptor de secretagogo de GH (GHS-R)**: receptor acoplado a proteína G expresso em somatotrofos da hipófise, no hipotálamo e em tecidos periféricos. A ativação em somatotrofos estimula secreção pulsátil de GH endógeno. Curiosamente, GHS-R foi caracterizado como receptor farmacológico de GHRPs (incluindo hexarelina) **antes** da identificação de seu ligante endógeno — a grelina, descoberta por Kojima e Kangawa em 1999. (2) **Agonismo do receptor CD36**: receptor scavenger expresso em cardiomiócitos, macrófagos e adipócitos. Essa via é hipótese mecanística central para os efeitos cardiovasculares de hexarelina descritos em literatura italiana pré-clínica (Rossoni 1998 PMID 9700988, Bodart 1999 PMID 10532947) e em ensaios humanos curtos (Bisi 1999 PMID 10342360, Broglio 2002 PMID 12144941) — cardioproteção contra dano isquêmico, aumento de débito cardíaco, ação direta sobre cardiomiócitos.
O que a literatura italiana mostrou sobre cardioproteção?
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A literatura italiana dos anos 1990-2000, principalmente dos grupos Locatelli (Università di Milano), Rossoni e Ghigo/Broglio (Università di Torino), descreve um perfil cardiovascular distinto para hexarelina. (1) **Rossoni 1998 (J Cardiovasc Pharmacol, PMID 9700988)**: em ratos senescentes (24 meses) submetidos a isquemia, hexarelina IV 80 μg/kg 2x/dia por 21 dias recuperou quase completamente a pressão desenvolvida pelo ventrículo esquerdo pós-reperfusão (90% basal vs 37% no controle). (2) **Bodart 1999 (Circ Res, PMID 10532947)**: identificou receptor cardíaco específico para hexarelina/GHRPs distinto do GHS-R hipofisário, base molecular para os efeitos cardíacos diretos (posteriormente caracterizado como CD36). (3) **Bisi 1999 (J Endocrinol Invest, PMID 10342360)**: em 7 voluntários humanos saudáveis, hexarelina IV elevou GH em magnitude similar ao rhGH, mas com efeitos cardiovasculares distintos — sugerindo via independente de GH. (4) **Broglio 2002 (Eur J Pharmacol, PMID 12144941)**: hexarelina aguda IV durante cirurgia de revascularização miocárdica melhorou desempenho cardíaco. Esses estudos são gerador-de-hipótese — programa nunca avançou a fase 3 pivotal e a hipótese cardiovascular não foi validada em RCT clínico de larga escala.
Hexarelina é aprovada como medicamento em algum país?
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Não. Em maio/2026, hexarelina **não tem registro como medicamento em qualquer país** — ANVISA, FDA, EMA, Health Canada, TGA (Austrália), PMDA (Japão). Não há produto industrializado contendo hexarelina aprovado para qualquer indicação clínica. O programa da Mediolanum dos anos 1990-2000 explorou indicações em deficiência de GH e em cardioproteção, mas nunca avançou a fase 3 pivotal nem submeteu dossiê de registro. Análogo de mecanismo parcialmente equivalente (tesamorelina, análogo de GHRH e não GHRP) tem registro FDA para lipodistrofia em HIV (Egrifta) — mas é molécula distinta com mecanismo distinto (agonismo de GHRH-R, não de GHS-R).
Quais os efeitos adversos da hexarelina?
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Em ensaios fase 1/2 do programa italiano dos anos 1990-2000 com tamanhos amostrais pequenos (frequentemente <20 sujeitos), os efeitos relatados incluem: (1) **Ativação do eixo HHA**: elevação aguda de cortisol e ACTH após administração de hexarelina, descrita em Bisi 1999 e em literatura subsequente — efeito via GHS-R hipotalâmico. (2) **Aumento transitório de prolactina**: descrito em literatura, implicação clínica em uso continuado não está caracterizada. (3) **Eventos locais de injeção**: eritema, dor leve no sítio subcutâneo. (4) **Hiperglicemia transitória**: efeito antiinsulínico do GH endógeno estimulado. (5) **Cefaleia, sonolência, rubor facial**: descritos em frequência variável. **Dados de segurança long-term (>12 meses) em humanos são inexistentes** — programa clínico nunca avançou a fase 3 e farmacovigilância pós-comercialização não existe por ausência de registro como medicamento.
Hexarelina é proibida no esporte?
+
Sim. Hexarelina enquadra-se na **Section S2.2** (Growth Hormone Releasing Factors) da Lista de Substâncias Proibidas WADA, junto a GHRP-1, GHRP-2, GHRP-6, alexamorelina, ipamorelina, anamorelina, ibutamoren (MK-677) e outros secretagogos de GH. A proibição vale **em e fora de competição** para atletas em federações signatárias do Código Mundial Antidopagem. Métodos de detecção antidopagem evoluíram ao longo dos anos 2010-2020 para incluir GHRPs e hexarelina especificamente, com janelas de detecção variáveis conforme via de administração e dose. Atletas testados positivos enfrentam suspensão automática conforme o Código.
Posso obter hexarelina manipulada em farmácia no Brasil?
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Não — a ANVISA não endossa a manipulação magistral de hexarelina em maio/2026. Hexarelina não tem produto industrializado registrado em qualquer país, não tem CADIFA (Carta de Adequação do Dossiê de IFA) estabelecida no Brasil sob RDC 359/2020 e não atende os critérios da Nota Técnica 200/2025 para IFAs peptídicos manipulados (que opera sobre moléculas com cadeia regulatória estabelecida). Importação por pessoa física, comércio direto ao consumidor em plataformas digitais e manipulação magistral configuram **infração sanitária** no regime regulatório de maio/2026. Em fiscalizações ANVISA de 2025-2026, plataformas e farmácias com prática de venda direta de peptídeos sem registro foram alvo de ações executivas. Pesquisadores em instituições com aprovação ética e regulatória podem acessar hexarelina via canais de pesquisa clínica especificamente autorizados — não é uso clínico geral.

Estudos citados

6 referências
  1. 01
    Bisi G, Podio V, Valetto MR, Broglio F, Bertuccio G, Aimaretti G, Pelosi E, Boghen MF, Deghenghi R, Ghigo E, Muccioli G. Acute cardiovascular and hormonal effects of GH and hexarelin, a synthetic GH-releasing peptide, in humans · Journal of Endocrinological Investigation, 1999 · Estudo agudo em humanos saudáveis com angiocardiografia radioisotópica após administração IV de rhGH ou hexarelinan = 7

    Estudo seminal em humanos do grupo italiano (Bisi, Ghigo, Muccioli, Deghenghi). 7 voluntários masculinos. Comparação direta GH recombinante (rhGH) IV vs hexarelina IV. Ambos elevaram GH em magnitude semelhante. Aldosterona e catecolaminas não mudaram. Hexarelina (mas não rhGH) elevou significativamente cortisol — efeito sobre eixo HHA via GHS-R. LVEF, MBP e HR não foram alterados por rhGH. Hexarelina e rhGH tiveram efeitos cardiovasculares distintos apesar de elevação equivalente de GH — sugerindo efeito direto via GHS-R ou CD36, hipótese central para a literatura italiana de cardioproteção subsequente.

    ensaio clínicoPMID 10342360DOI
  2. 02
    Rossoni G, De Gennaro Colonna V, Bernareggi M, Polvani GL, Müller EE, Berti F. Protectant activity of hexarelin or growth hormone against postischemic ventricular dysfunction in hearts from aged rats · Journal of Cardiovascular Pharmacology, 1998 · Estudo pré-clínico em corações isolados de ratos machos de 24 meses (modelo Langendorff de isquemia/reperfusão)n = 0

    Estudo seminal italiano da cardioproteção por hexarelina. Ratos senescentes controle (saline) submetidos a isquemia moderada recuperaram apenas 37% de LVDP basal pós-reperfusão. Ratos pré-tratados com hexarelina in vivo 80 μg/kg 2x/dia por 21 dias recuperaram quase completamente (90% de LVDP basal). GH recombinante teve proteção parcial. Base para hipótese de efeito direto de hexarelina sobre cardiomiócitos via via não-GH-dependente — eventualmente atribuída ao receptor CD36 em trabalhos subsequentes.

    pré-clínicoPMID 9700988DOI
  3. 03
    Broglio F, Guarracino F, Benso A, Gottero C, Prodam F, Granata R, Avogadri E, Muccioli G, Deghenghi R, Ghigo E. Effects of acute hexarelin administration on cardiac performance in patients with coronary artery disease during by-pass surgery · European Journal of Pharmacology, 2002 · Estudo agudo em pacientes com doença coronariana durante cirurgia de revascularização miocárdica (CABG)n = 0

    Estudo do grupo italiano de Ghigo (Università di Torino) em pacientes reais com doença coronariana durante cirurgia. Hexarelina administrada IV aguda durante CABG melhorou desempenho cardíaco (aumento de débito cardíaco, redução de resistência vascular sistêmica) sem alteração significativa de frequência cardíaca ou pressão arterial. Pequena amostra — estudo gerador de hipótese para investigação subsequente em populações cardiovasculares. Programa não avançou a fase 2/3 pivotal.

    ensaio clínicoPMID 12144941DOI
  4. 04
    Bodart V, Bouchard JF, McNicoll N, Escher E, Carrière P, Ghigo E, Sejlitz T, Sirois MG, Lamontagne D, Ong H. Identification and characterization of a new growth hormone-releasing peptide receptor in the heart · Circulation Research, 1999 · Estudo de caracterização de receptor cardíaco para hexarelina e GHRPsn = 0

    Identifica receptor cardíaco específico para hexarelina e GHRPs distinto do GHS-R hipofisário — posteriormente caracterizado como CD36. Base molecular para os efeitos cardiovasculares observados em literatura italiana subsequente. Cardiomiócitos e vasculatura coronariana expressam o receptor.

    pré-clínicoPMID 10532947DOI
  5. 05
    World Anti-Doping Agency. WADA Prohibited List 2026 — Section S2.2 (Growth Hormone Releasing Factors) · WADA, 2026 · Padrão internacional vinculante para esporte olímpico e federações signatáriasn = 0

    Hexarelina enquadra-se na Section S2.2 — Growth Hormone Releasing Factors, junto a GHRP-1, GHRP-2, GHRP-6, alexamorelina, ipamorelina, anamorelina, ibutamoren (MK-677) e outros GHSs. Banida em e fora de competição. Métodos de detecção antidopagem evoluíram para incluir GHRPs.

    regulatório
  6. 06
    Agência Nacional de Vigilância Sanitária. ANVISA — Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA + RDC 359/2020 (CADIFA) · Diário Oficial da União, 2025 · Atos normativos regulatóriosn = 0

    Hexarelina não tem produto industrializado registrado em qualquer país e não tem CADIFA estabelecida no Brasil — manipulação magistral não é endossada pela ANVISA. NT 200/2025 opera sobre moléculas com cadeia regulatória estabelecida. Importação por pessoa física e comércio direto ao consumidor configuram infração sanitária.

    regulatório

Conteúdo educacional — não substitui consulta médica.