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PanoramaCombinações e interações

Liraglutida, semaglutida, tirzepatida, retatrutida — panorama da classe GLP-1 em 2026

Cinco moléculas em circulação no Brasil. Quatro mecanismos diferentes. Tabela comparativa de eficácia, mecanismo, meia-vida e status ANVISA com base em RCT publicados — nada extrapolado.

Por Amanda Matsuda · ·

Por que este post existe

A classe GLP-1 saiu de um nicho da endocrinologia para o centro da conversa pública sobre obesidade entre 2017 e 2026. Em 2026, cinco moléculas dessa classe circulam no Brasil em diferentes status regulatórios — liraglutida, semaglutida injetável, semaglutida oral, tirzepatida e retatrutida em desenvolvimento. Catálogos comerciais, fóruns e mídia generalista frequentemente tratam todas como "canetas emagrecedoras" intercambiáveis.

Não são. Cada molécula tem mecanismo, magnitude de eficácia, perfil de eventos adversos e status regulatório próprios. Este post sintetiza, com base em RCT publicado em revista indexada e em ato normativo ANVISA, o panorama da classe inteira em abril de 2026 — sem extrapolação além do que cada ensaio mostra.

Para a ficha individual de cada peptídeo: liraglutida, retatrutida. Para a timeline regulatória ANVISA detalhada e o impacto da Nota Técnica 200/2025 em prática clínica, ver /guias/glp-1-panorama.

A tabela do panorama

A síntese editorial é simples e dura. Cada coluna vem de RCT publicado ou de ato normativo ANVISA referenciado.

| Molécula | Mecanismo | Meia-vida | RCT pivotal em obesidade (n) | Magnitude de perda (peso médio) | Aprovação ANVISA | Indicação principal | |---|---|---|---|---|---|---| | Liraglutida (Victoza/Saxenda) | Mono GLP-1 RA | ≈13 horas | SCALE Obesity (n=3.731, 56 sem) | −8,4 kg (≈8%) vs −2,8 kg placebo | Victoza 03/2010, Saxenda 02/2016 | DM2 + obesidade | | Semaglutida injetável (Ozempic/Wegovy) | Mono GLP-1 RA | ≈7 dias | STEP 1 (n=1.961, 68 sem) | −14,9% vs −2,4% placebo | Ozempic 2018, Wegovy 01/2023 | DM2 + obesidade + prevenção CV | | Semaglutida oral (Rybelsus) | Mono GLP-1 RA | ≈7 dias | PIONEER program | Perda ≈3-5 kg em 26-52 semanas em DM2 | Rybelsus 10/2020 | DM2 | | Tirzepatida (Mounjaro) | Dual GIP+GLP-1 | ≈5 dias | SURMOUNT-1 (n=2.539, 72 sem) | −20,9% (15 mg) vs −3,1% placebo | Mounjaro 09/2023 (DM2), 06/2025 (obesidade) | DM2 + obesidade | | Retatrutida (LY3437943) | Tri GIP+GLP-1+glucagon | ≈6 dias | Jastreboff 2023 fase 2 (n=338, 48 sem) | −24,2% (12 mg) vs −2,1% placebo | Sem aprovação — fase 3 TRIUMPH em curso | Investigacional |

Notas de leitura da tabela:

  • Magnitudes não são intercambiáveis entre estudos. Os ensaios diferem em duração, população (DM2 vs sem DM2), critérios de inclusão e dose máxima testada. Comparação direta confiável requer head-to-head — disponível para semaglutida vs liraglutida (STEP 8) e tirzepatida vs semaglutida (SURMOUNT-5, SURPASS-2). Para retatrutida vs tirzepatida ou retatrutida vs semaglutida, não há comparação direta publicada em 2026.
  • Mecanismo escala com magnitude. A correlação observada em RCT é: mono GLP-1 ≈14-15% (semaglutida 2,4 mg), GIP+GLP-1 ≈20-21% (tirzepatida 15 mg), tri-agonista ≈24% (retatrutida 12 mg em fase 2). Cada incremento de receptor adiciona magnitude.

A história mecanística — por que cada nova molécula perde mais peso

Entender por que tirzepatida supera semaglutida e retatrutida supera tirzepatida em fase 2 exige olhar para os receptores envolvidos.

GLP-1 — a base. Peptídeo semelhante ao glucagon-1 é incretina secretada por células L do íleo distal e cólon após estímulo nutricional. Atua sobre o receptor GLP-1R, expresso em pâncreas (secreção de insulina dependente de glicose, supressão de glucagon), estômago (retardo de esvaziamento gástrico), hipotálamo (saciedade, redução de apetite) e sistema cardiovascular. Liraglutida, semaglutida (injetável e oral) são mono-agonistas — atuam apenas neste receptor.

GIP — o componente adicional de tirzepatida. Polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose é a outra incretina principal. GIP-R é expresso em pâncreas, mas a ação que mais importa em tirzepatida é em tecido adiposo: GIP modula sensibilidade à insulina, lipólise e armazenamento de gordura de maneira complementar a GLP-1. A coadministração GIP+GLP-1 em tirzepatida produz, em RCT, perda de peso superior à de semaglutida 2,4 mg — diferença de aproximadamente 6 pontos percentuais em SURMOUNT-5.

Glucagon — o componente adicional de retatrutida. Glucagon, em monoterapia, eleva glicemia (gliconeogênese hepática). Mas adiciona dois efeitos relevantes para perda de peso: aumento de gasto energético basal (estímulo a oxidação lipídica) e termogênese. No contexto de coadministração com GIP+GLP-1 (efeito incretínico que neutraliza a hiperglicemia), o componente glucagon adiciona perda de peso por gasto energético — mecanismo que GLP-1 e GIP não exploram. A fase 2 de retatrutida (Jastreboff 2023) confirmou a antecipação pré-clínica: −24,2% no braço 12 mg, magnitude inédita para peptídeo único.

A escalada de magnitude por adição de receptor é o princípio mecanístico que explica a curva histórica da classe.

Os ensaios head-to-head que importam

Comparação direta entre moléculas em RCT registrado é o padrão-ouro para hierarquia clínica. Em 2026, três comparações head-to-head publicadas em revista indexada definem a classe.

STEP 8 — Rubino 2022 (PMID 35015037, JAMA). Semaglutida 2,4 mg/sem vs liraglutida 3,0 mg/dia em 338 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, 68 semanas. Perda −15,8% (semaglutida) vs −6,4% (liraglutida) — diferença de 9,4 pontos percentuais favorável a semaglutida. Esse ensaio reposicionou liraglutida na hierarquia: efetiva, mas com magnitude inferior em obesidade sem diabetes.

SURPASS-2 — Frías 2021 (PMID 34170647, NEJM). Tirzepatida 5/10/15 mg vs semaglutida 1 mg em 1.879 adultos com diabetes tipo 2, 40 semanas. Reduções de HbA1c: −2,01% (5 mg), −2,24% (10 mg), −2,30% (15 mg) tirzepatida vs −1,86% semaglutida — todas as doses de tirzepatida superiores. Perda de peso adicional de 1,9 a 5,5 kg favorável a tirzepatida. Comparação que estabeleceu tirzepatida como referência em diabetes tipo 2 quando perda de peso e controle glicêmico simultâneos são prioridade.

SURMOUNT-5 — Aronne 2025 (PMID 40353578, NEJM). Tirzepatida (10 ou 15 mg) vs semaglutida (1,7 ou 2,4 mg) em 751 adultos com obesidade sem diabetes, 72 semanas. Perda −20,2% tirzepatida vs −13,7% semaglutida — diferença de 6,5 pontos percentuais favorável a tirzepatida. Descontinuação por GI: 2,7% tirzepatida vs 5,6% semaglutida. Esse é o ensaio que define, com base direta e não extrapolada, a hierarquia atual entre tirzepatida e semaglutida em obesidade sem diabetes.

O que não existe em 2026: comparação head-to-head entre tirzepatida e retatrutida, ou entre semaglutida e retatrutida, em RCT publicado. A hierarquia projetada (retatrutida > tirzepatida > semaglutida > liraglutida) é uma construção a partir de ensaios separados, não comparação direta.

A camada cardiovascular — quando a discussão deixa de ser só "perda de peso"

Para pessoas com diabetes tipo 2 ou doença cardiovascular estabelecida, a discussão da classe GLP-1 não é apenas peso. É também redução de risco cardiovascular — desfecho de morte CV, IAM e AVC.

LEADER — Marso 2016 (PMID 27295427). Liraglutida vs placebo em 9.340 adultos com diabetes tipo 2 e alto risco CV. MACE 13,0% vs 14,9% (HR 0,87; p=0,01). Mortalidade CV reduzida (HR 0,78). Base histórica da classe.

SELECT — Lincoff 2023 (PMID 37952131). Semaglutida 2,4 mg vs placebo em 17.604 adultos com obesidade e doença CV estabelecida sem diabetes, mediana de seguimento 39,8 meses. MACE 6,5% vs 8,0% (HR 0,80; p<0,001). Esse ensaio é o primeiro RCT da classe a demonstrar benefício CV em obesidade sem diabetes, ampliando a indicação cardiovascular de Wegovy além de diabetes tipo 2.

SURPASS-CVOT. Resultados de tirzepatida vs dulaglutida em diabetes tipo 2 com doença CV foram divulgados em 2026, demonstrando perfil cardiovascular favorável à tirzepatida na população. Confirmação publicada em revista indexada está em processo na data deste post.

Para retatrutida, dados cardiovasculares específicos virão de TRIUMPH-3 (em curso, conduzido em pessoas com obesidade e doença CV estabelecida, expectativa de leituras a partir de 2026-2027).

Status regulatório no Brasil — uma timeline crescentemente complexa

A ANVISA construiu, ao longo de 2010-2026, regulação progressiva da classe GLP-1 que culminou em mudanças importantes em 2025-2026.

Linha do tempo de aprovações

  • Março de 2010 — Victoza (liraglutida 6 mg/mL, doses 1,2/1,8 mg) registrada para diabetes tipo 2.
  • Fevereiro de 2016 — Saxenda (liraglutida 6 mg/mL, escalonamento até 3,0 mg) registrada para obesidade (DOU 29/02/2016).
  • 2018 — Ozempic (semaglutida 0,25/0,5/1 mg semanal) registrada para diabetes tipo 2.
  • Outubro de 2020 — Rybelsus (semaglutida oral 3/7/14 mg) registrada para diabetes tipo 2.
  • Janeiro de 2023 — Wegovy (semaglutida 2,4 mg semanal) registrada para obesidade/sobrepeso. Disponibilidade em farmácia: agosto de 2024.
  • Setembro de 2023 — Mounjaro (tirzepatida) registrada para diabetes tipo 2.
  • Junho de 2025 — Mounjaro (tirzepatida) ampliada para obesidade/sobrepeso (aprovação em 9 de junho de 2025).
  • Retatrutida — sem aprovação. Programa fase 3 TRIUMPH em curso. Registro esperado em 2027-2028.

Marcos regulatórios de 2025-2026

A entrada de novas moléculas e a explosão de uso em sobrepeso (e fora de indicação aprovada) levaram a três marcos regulatórios:

Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA. Estabeleceu critérios mínimos de qualidade para IFAs peptídicos importados — identificação por HPLC/UV, mapa peptídico, doseamento por método validado, análise de impurezas, esterilidade e endotoxinas para forma injetável. Aplicável a todos os GLP-1 manipulados.

Despacho 97/2025 — vedação de manipulação de semaglutida. Em agosto de 2025, a ANVISA vedou expressamente a manipulação magistral de semaglutida, com base em risco sanitário e disponibilidade do produto industrializado. Tirzepatida não está categoricamente proibida em manipulação em 2026, mas está sob monitoramento rigoroso.

RDC nº 973/2025 — retenção de receita. Em vigor desde 23 de junho de 2025. Aplica-se a todos os agonistas de GLP-1 com registro ANVISA. Exige prescrição em duas vias com retenção em farmácia, validade de 90 dias e registro no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).

Ações executivas de 2026. Em comunicação de abril de 2026, a ANVISA reportou:

  • 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras
  • 8 interdições por problemas técnicos e falta de controle de qualidade
  • 10 ações de proibição de importação, comércio e uso de produtos irregulares contendo agonistas de GLP-1 desde janeiro de 2026
  • Levantamento agregado: importação no segundo semestre de 2025 superou 100 kg de IFAs — quantidade suficiente para preparação de aproximadamente 20 milhões de doses, em desproporção ao mercado de manipulação legítima

Os nomes específicos das 8 farmácias interditadas e das 10 ações de proibição não foram detalhados nominalmente na comunicação institucional consultada — a ANVISA divulgou apenas os números agregados. Para pesquisa por portaria específica, consulta direta ao Diário Oficial da União é necessária.

A combinação dessas medidas representa o ambiente regulatório mais restritivo já aplicado à classe GLP-1 no Brasil.

A camada de eventos adversos — o que cada molécula carrega

A classe inteira compartilha um perfil de eventos adversos centrado em gastrointestinais, com diferenças de magnitude e específicos por molécula.

Eventos GI. Náusea, vômito, diarreia, constipação. Predominantes na escalada de dose, leves a moderados, em redução com manutenção. Frequência cresce com magnitude do agonismo: liraglutida ≈49% (SCALE), semaglutida ≈74% (STEP 1), tirzepatida ≈55-66% (SURMOUNT-1, SURPASS-2), retatrutida ≈38-56% nos braços altos (Jastreboff 2023). SURMOUNT-5 mostrou descontinuação por GI menor com tirzepatida (2,7%) que com semaglutida (5,6%) em obesidade sem diabetes — perfil GI relativamente menos limitante.

Pancreatite aguda. Sinal de classe presente em todas as moléculas, em magnitude pequena mas suficiente para inclusão em bula. Maior caracterização em liraglutida (15+ anos de farmacovigilância).

Colelitíase e colecistite. Risco aumentado em todas, atribuído a perda de peso rápida e possível efeito direto.

Carcinoma medular de tireoide. Sinal preclínico em roedores presente em toda a classe; relevância humana não confirmada em mais de 15 anos de farmacovigilância de liraglutida. Mantido como contraindicação por precaução.

Específico de retatrutida. Elevação de frequência cardíaca dose-dependente (6-9 bpm nos braços 8 e 12 mg), atribuída ao componente glucagon. Significado clínico em uso prolongado é objeto de investigação no programa fase 3 TRIUMPH.

Eventos psiquiátricos — depressão e ideação suicida. Sinal investigado por FDA e EMA em 2024-2025 em toda a classe. Meta-análises não confirmaram aumento significativo em conjunto, mas a vigilância segue ativa.

Long-term — segurança em uso prolongado (>5 anos). Liraglutida tem o maior conjunto de farmacovigilância pós-comercialização (registro desde 2010). Semaglutida tem dados crescentes (registro desde 2018, SELECT com seguimento médio de 39,8 meses). Tirzepatida tem base mais curta (registro desde 2022 nos EUA, 2023 no Brasil). Retatrutida não tem dados pós-comercialização.

Onde a evidência humana realmente sustenta intervenção

A literatura fase 3 e a base regulatória sustentam intervenção em cenários definidos:

  • Diabetes tipo 2 com indicação de redução de A1c e/ou peso — todas as moléculas registradas (liraglutida, semaglutida injetável e oral, tirzepatida).
  • Obesidade ou sobrepeso com comorbidade, conforme critério específico de bula — liraglutida (Saxenda), semaglutida (Wegovy), tirzepatida (Mounjaro com indicação de obesidade desde 06/2025).
  • Prevenção secundária de eventos cardiovasculares em obesidade com doença CV estabelecida sem diabetes — semaglutida 2,4 mg (SELECT, base de extensão de indicação Wegovy).
  • Diabetes tipo 2 com doença cardiovascular estabelecida ou alto risco CV — liraglutida (LEADER) e tirzepatida (SURPASS-CVOT, leituras 2026).

Fora desses cenários — sobrepeso leve sem comorbidade, "performance estética", anti-aging, off-label em pessoa saudável — a literatura clínica e a posição regulatória ANVISA não autorizam intervenção rotineira. A RDC 973/2025 e as ações de fiscalização 2026 reforçam essa posição.

Para quem chega aqui pesquisando

Este post não orienta dose, não recomenda escolha entre moléculas e não aconselha intervenção. A escolha de qual GLP-1 — se algum — é apropriado em situação clínica específica é decisão médica que depende de avaliação individual: comorbidades (diabetes? doença cardiovascular?), tolerância gastrointestinal, regularidade na adesão (diária vs semanal), disponibilidade de produto industrializado vs manipulação, custo, evidência específica para a indicação proposta.

Levar à consulta perguntas concretas faz diferença:

  • Qual é a indicação proposta — diabetes, obesidade, prevenção CV — e qual é o RCT específico para essa indicação?
  • Qual molécula é proposta, e por quê em vez das alternativas? Há comparação head-to-head que sustenta a escolha?
  • Qual é a fonte do produto — industrializado registrado em farmácia regular ou manipulado? Em que farmácia, com que cadeia de fornecimento e certificado de análise por lote?
  • Qual é o plano de monitoramento de eficácia (peso, A1c, parâmetros metabólicos) e segurança (eventos GI, biliar, pancreático, FC para retatrutida)?
  • Qual é a duração esperada de uso, e qual é a estratégia para descontinuação ou manutenção long-term?

Para preparar consulta com perguntas concretas, ver /guias/como-preparar-consulta. Para entender por que algumas evidências valem mais que outras em medicina, ver /guias/entenda-hierarquia-evidencia.

Fechamento editorial

A classe GLP-1 é, em 2026, o caso mais bem-sucedido de farmacologia peptídica em obesidade na história — e também o mais escrutinado regulatoriamente no Brasil. Cinco moléculas em circulação, três mecanismos diferentes (mono GLP-1, dual GIP+GLP-1, tri-agonista), uma ampla base de RCT publicado e farmacovigilância pós-comercialização robusta para liraglutida, crescente para semaglutida e tirzepatida, ainda inexistente para retatrutida.

A escolha de molécula em prática clínica não é "a mais nova é a melhor" — é uma triangulação entre evidência específica para a indicação, perfil de eventos adversos, disponibilidade regulatória, custo e contexto individual. SURMOUNT-5 (tirzepatida vs semaglutida 2025) é o ensaio que mais reposiciona a hierarquia em obesidade sem diabetes; SELECT (semaglutida CV 2023) e LEADER (liraglutida CV 2016) são as bases cardiovasculares; Jastreboff 2023 fase 2 (retatrutida) é a antecipação do que pode ser a próxima geração da classe.

A ANVISA respondeu, em 2025-2026, com a regulação mais robusta já aplicada à classe — Nota Técnica 200/2025, RDC 973/2025, Despacho 97/2025 vedando manipulação de semaglutida, 8 interdições e 10 ações de proibição de importação reportadas em abril de 2026. O ambiente regulatório atual posiciona produto industrializado registrado como a única via legítima de intervenção com GLP-1 no Brasil para a maioria das indicações.

A pephealth não recomenda nem desaconselha qualquer molécula da classe. A função deste post é descrever, com transparência sobre o que existe na literatura indexada e nos atos normativos ANVISA de 2026: cinco moléculas, quatro mecanismos, uma classe que está reescrevendo o tratamento farmacológico da obesidade — e que está, em paralelo, sob o escrutínio regulatório mais rigoroso da história brasileira em peptídeos terapêuticos.

Perguntas frequentes

Qual GLP-1 perde mais peso em ensaio clínico publicado?
Em ordem crescente de magnitude em RCT publicado em obesidade sem diabetes — liraglutida 3,0 mg/dia (SCALE 2015): perda 8,4 kg (≈8%); semaglutida 2,4 mg/sem (STEP 1 2021): −14,9%; tirzepatida 15 mg/sem (SURMOUNT-1 2022): −20,9%; retatrutida 12 mg/sem (Jastreboff 2023, fase 2): −24,2%. Em comparação direta head-to-head (SURMOUNT-5, 2025), tirzepatida superou semaglutida 2,4 mg em obesidade sem diabetes (−20,2% vs −13,7%). Comparação direta entre tirzepatida e retatrutida em RCT registrado e publicado não foi feita.
Tirzepatida e semaglutida têm o mesmo mecanismo?
Não. Semaglutida é mono-agonista de GLP-1. Tirzepatida é dual — agonista de GIP e GLP-1. O componente GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) adiciona ações sobre tecido adiposo e perfil incretínico complementar, contribuindo para a perda de peso superior observada em SURMOUNT-1 e SURMOUNT-5. Retatrutida é tri-agonista — GIP, GLP-1 e glucagon. O componente glucagon adiciona ações hepáticas e termogênicas. Cada incremento de receptor adiciona magnitude de perda em ensaios — aproximadamente: GLP-1 isolado ≈14-15% (semaglutida), GIP+GLP-1 ≈20-21% (tirzepatida), tri-agonista ≈24% em fase 2 (retatrutida).
Qual GLP-1 está aprovado pela ANVISA em 2026?
Liraglutida — Victoza para diabetes tipo 2 (registrada em março de 2010) e Saxenda para obesidade (DOU 29 de fevereiro de 2016). Semaglutida — Ozempic para diabetes tipo 2, Wegovy para obesidade (aprovação ANVISA em janeiro de 2023, disponibilidade em farmácias em agosto de 2024) e Rybelsus em comprimido para diabetes tipo 2 (aprovado em outubro de 2020). Tirzepatida — Mounjaro para diabetes tipo 2 (aprovado em setembro de 2023) e Mounjaro para obesidade/sobrepeso (aprovado em junho de 2025). Retatrutida — sem aprovação ANVISA, FDA ou EMA em qualquer indicação. Programa fase 3 TRIUMPH em curso, registro esperado a partir de 2027-2028.
Posso comprar GLP-1 manipulado no Brasil?
A situação mudou substancialmente em 2025-2026. Manipulação de semaglutida está vedada desde Despacho 97/2025 (agosto de 2025). Manipulação de tirzepatida não está categoricamente proibida em 2026, mas está sob monitoramento rigoroso. A Nota Técnica 200/2025 estabelece critérios técnicos rígidos (HPLC, mapa peptídico, doseamento, esterilidade) que poucas farmácias atendem na prática. Em abril de 2026, a ANVISA reportou 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras com 8 interdições por problemas técnicos e 10 ações de proibição de importação, comércio e uso de produtos irregulares contendo GLP-1 desde janeiro de 2026. O ambiente regulatório é progressivamente mais restritivo. Liraglutida, semaglutida (Wegovy/Ozempic/Rybelsus) e tirzepatida (Mounjaro) têm produto industrializado registrado disponível em farmácia mediante prescrição com retenção de receita.
GLP-1 reduz risco cardiovascular?
Sim, em populações específicas com base de RCT publicada. Liraglutida no LEADER (Marso 2016, n=9.340): MACE 13,0% vs 14,9% placebo em diabetes tipo 2 com alto risco CV (HR 0,87; p=0,01). Semaglutida 2,4 mg no SELECT (Lincoff 2023, n=17.604): MACE 6,5% vs 8,0% placebo em pessoas com obesidade e doença CV estabelecida sem diabetes (HR 0,80; p<0,001) — primeiro RCT a demonstrar benefício CV em obesidade sem diabetes. Tirzepatida em SURPASS-CVOT (resultados divulgados em 2026): redução adicional de eventos comparada a dulaglutida em diabetes tipo 2 com doença CV. A evidência cardiovascular é central para a indicação ampliada de Wegovy em prevenção secundária de eventos CV em pessoas com obesidade.

Estudos citados

RCT · RCT fase 3 multicêntrico duplo-cego placebo-controlado, 56 semanasn = 3.731

A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management (SCALE Obesity and Prediabetes)

New England Journal of Medicine · Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, Greenway F, Halpern A, Krempf M, et al. · 2015

Liraglutida 3,0 mg/dia em adultos com IMC ≥30 ou ≥27 com comorbidade. Perda 8,4±7,3 kg vs 2,8±6,5 kg placebo. Base de registro de Saxenda em obesidade.

RCT · RCT fase 3 multicêntrico duplo-cego placebo-controlado, 68 semanas, em 16 paísesn = 1.961

Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1)

New England Journal of Medicine · Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, Davies M, Van Gaal LF, Lingvay I, et al. · 2021

Semaglutida 2,4 mg semanal vs placebo. Perda −14,9% vs −2,4% (p<0,001). 86% atingiram perda ≥5%. Base de registro de Wegovy.

RCT · RCT fase 3 multicêntrico duplo-cego placebo-controlado, 72 semanasn = 2.539

Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1)

New England Journal of Medicine · Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, Wharton S, Connery L, Alves B, et al. · 2022

Tirzepatida 5/10/15 mg semanal vs placebo. Perda −15,0% (5 mg), −19,5% (10 mg), −20,9% (15 mg) vs −3,1% placebo. Base de registro de Zepbound (FDA 2023). ANVISA aprovou tirzepatida (Mounjaro) para obesidade em 9 de junho de 2025.

RCT · RCT fase 3b open-label head-to-head, 72 semanasn = 751

Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-5)

New England Journal of Medicine · Aronne LJ, Horn DB, le Roux CW, Ho W, Falsey JR, Sattar N, et al. · 2025

Tirzepatida (10 ou 15 mg) vs semaglutida (1,7 ou 2,4 mg) em obesidade sem diabetes. Perda −20,2% tirzepatida vs −13,7% semaglutida (diferença −6,5 pontos percentuais; p<0,001). Descontinuação por GI: 2,7% tirzepatida, 5,6% semaglutida. Comparação direta crítica para hierarquia da classe em obesidade.

RCT · RCT fase 3 open-label, 40 semanas, head-to-head em diabetes tipo 2n = 1.879

Tirzepatide versus Semaglutide Once Weekly in Patients with Type 2 Diabetes (SURPASS-2)

New England Journal of Medicine · Frías JP, Davies MJ, Rosenstock J, Pérez Manghi FC, Fernández Landó L, Bergman BK, et al. · 2021

Tirzepatida 5/10/15 mg vs semaglutida 1 mg em diabetes tipo 2. HbA1c −2,01/−2,24/−2,30 (tirzepatida) vs −1,86 (semaglutida) — todas as doses superiores. Perda de peso adicional de 1,9 a 5,5 kg favorável a tirzepatida.

RCT · RCT head-to-head fase 3b, 68 semanasn = 338

Effect of Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Daily Liraglutide on Body Weight in Adults With Overweight or Obesity Without Diabetes (STEP 8)

JAMA · Rubino DM, Greenway FL, Khalid U, O'Neil PM, Rosenstock J, Sørrig R, et al. · 2022

Semaglutida 2,4 mg/sem vs liraglutida 3,0 mg/dia. Perda −15,8% vs −6,4% (p<0,001). Comparação direta que posicionou semaglutida como mais potente em obesidade sem diabetes.

RCT · RCT fase 2 multicêntrico duplo-cego placebo-controlado, 48 semanasn = 338

Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial

New England Journal of Medicine · Jastreboff AM, Kaplan LM, Frías JP, Wu Q, Du Y, Gurbuz S, et al. · 2023

Retatrutida 1/4/8/12 mg vs placebo. Perda −8,7% (1 mg), −17,1% (4 mg), −22,8% (8 mg), −24,2% (12 mg) vs −2,1% placebo. Magnitude inédita em peptídeo único.

RCT · RCT fase 3 multicêntrico duplo-cego placebo-controlado de desfechos cardiovasculares, mediana 39,8 mesesn = 17.604

Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT)

New England Journal of Medicine · Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, Deanfield J, Emerson SS, Esbjerg S, et al. · 2023

Semaglutida 2,4 mg em pessoas com obesidade e doença CV estabelecida sem diabetes. MACE 6,5% vs 8,0% placebo (HR 0,80; p<0,001). Primeiro RCT a demonstrar redução de eventos CV em obesidade sem diabetes — ampliou indicação cardiovascular além de diabetes tipo 2.

RCT · RCT fase 3b multicêntrico de desfechos cardiovasculares, mediana 3,8 anosn = 9.340

Liraglutide and Cardiovascular Outcomes in Type 2 Diabetes (LEADER)

New England Journal of Medicine · Marso SP, Daniels GH, Brown-Frandsen K, Kristensen P, Mann JF, Nauck MA, et al. · 2016

Liraglutida vs placebo. MACE 13,0% vs 14,9% (HR 0,87; p=0,01). Base cardiovascular histórica da classe GLP-1.

regulatório · Ato normativo regulatórion = 0

Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA — Manipulação de IFAs peptídicos

Diário Oficial da União · Agência Nacional de Vigilância Sanitária · 2025

Documento ANVISA central para a regulação de GLP-1 em 2025-2026. Define critérios mínimos de qualidade (HPLC/UV, mapa peptídico, doseamento, esterilidade, endotoxinas, impurezas) para IFAs peptídicos. Despacho 97/2025 vedou manipulação de semaglutida especificamente.

regulatório · Ato normativo regulatórion = 0

RDC nº 973/2025/ANVISA — Critérios para prescrição, dispensação, controle, embalagem e rotulagem de medicamentos agonistas de GLP-1

Diário Oficial da União · Agência Nacional de Vigilância Sanitária · 2025

Em vigor desde 23 de junho de 2025. Aplica-se a Victoza, Saxenda, Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. Marco regulatório que reposicionou os agonistas de GLP-1 em mesmo nível de controle de medicamentos sujeitos à retenção.

regulatório · Comunicação institucional + ações executivasn = 0

Anvisa anuncia novas medidas de combate a irregularidades na importação e manipulação de canetas emagrecedoras (abril de 2026)

ANVISA — comunicação institucional · Agência Nacional de Vigilância Sanitária · 2026

Em 2026, a ANVISA reportou 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, com 8 interdições por problemas técnicos e falta de controle de qualidade, e 10 ações de proibição de importação, comércio e uso de produtos irregulares contendo agonistas de GLP-1 desde janeiro de 2026.

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