Liraglutida
Análogo de GLP-1 com meia-vida de 13 horas, primeiro da classe registrado pela ANVISA — Victoza (2010) para diabetes tipo 2 e Saxenda (2016) para obesidade. Base de evidência fase 3 robusta em SCALE (n=3.731) e LEADER (n=9.340).
Peptídeo encaixa em receptor · sinal celular
Quick answer
Liraglutida é análogo de GLP-1 humano com 97% de homologia, modificado por adição de cadeia palmitoil C16 que prolonga a meia-vida para aproximadamente 13 horas. É o primeiro análogo de GLP-1 aprovado pela ANVISA — Victoza (1,2 e 1,8 mg) para diabetes tipo 2 desde março de 2010, Saxenda (escalonamento até 3,0 mg) para controle de peso desde fevereiro de 2016. A base de evidência fase 3 publicada inclui SCALE Obesity and Prediabetes (Pi-Sunyer 2015, NEJM, n=3.731, perda média 8,4 kg em 56 semanas) e LEADER (Marso 2016, NEJM, n=9.340, redução de MACE em diabetes tipo 2 com doença cardiovascular). Em comparação direta com semaglutida 2,4 mg semanal (STEP 8, Rubino 2022, JAMA, n=338), liraglutida 3,0 mg/dia produziu perda de peso menor (−6,4% vs −15,8%). A liraglutida segue relevante na classe GLP-1 brasileira como primeira opção fase 3 com dosagem diária e como referência cardiovascular em diabetes tipo 2. Desde junho de 2025, a dispensação no Brasil exige retenção de receita conforme RDC nº 973/2025.
O que é
Liraglutida é peptídeo de 31 aminoácidos derivado da sequência de GLP-1 humano (7-37), com duas modificações estruturais relevantes. A primeira é a substituição Lys34→Arg, que protege o resíduo 26 contra acilação cruzada. A segunda — central para o perfil farmacológico — é a adição de uma cadeia palmitoil C16 ligada via espaçador γ-glutamato ao resíduo Lys26.
Essa modificação por acilação faz com que a molécula se ligue de forma reversível à albumina sérica após injeção subcutânea. A albumina funciona como reservatório circulante: a liraglutida ligada está protegida da degradação por DPP-IV (dipeptidil peptidase IV), enzima que inativa o GLP-1 endógeno em aproximadamente 2 minutos. A meia-vida funcional resultante é de aproximadamente 13 horas em humano — suficiente para administração subcutânea uma vez ao dia.
A molécula foi desenvolvida pela Novo Nordisk e aprovada pelo FDA em 2010 como Victoza para diabetes tipo 2. A aprovação europeia (EMA) foi em 2009. No Brasil, a ANVISA registrou Victoza em março de 2010 — primeiro análogo de GLP-1 disponível para prescrição em farmácia regular brasileira. Em 2014, o FDA aprovou a versão de dose mais alta (3,0 mg/dia) como Saxenda para controle crônico de peso. A ANVISA aprovou Saxenda em fevereiro de 2016, conforme registro publicado no Diário Oficial da União em 29 de fevereiro daquele ano.
A liraglutida ocupa uma posição histórica clara na classe: foi a primeira evidência fase 3 robusta de que um análogo de GLP-1 produzia perda de peso clinicamente relevante em pessoas sem diabetes, ampliando a indicação além do controle glicêmico. Em 2026, é também o análogo de GLP-1 com a maior base de seguimento longitudinal disponível em prática clínica brasileira.
Como age no corpo
GLP-1 endógeno é incretina secretada por células L do íleo distal e cólon após estímulo nutricional, especialmente após carboidratos e gorduras. Atua sobre o receptor de GLP-1 (GLP-1R), expresso em múltiplos tecidos.
A liraglutida ocupa esse mesmo receptor com afinidade preservada. A diferença em relação ao GLP-1 endógeno está na duração de exposição. Os efeitos descritos em ensaios clínicos e em farmacologia molecular são:
- Pâncreas — secreção de insulina dependente de glicose. A ativação do GLP-1R em células beta amplifica a resposta insulinotrópica ao estímulo glicêmico. O efeito é dependente de hiperglicemia — em normoglicemia, a estimulação é mínima, o que explica baixa incidência de hipoglicemia em monoterapia.
- Pâncreas — supressão de glucagon. Reduz secreção de glucagon pelas células alfa, contribuindo para o controle pós-prandial.
- Hipotálamo — apetite e saciedade. GLP-1R é expresso em neurônios POMC/CART do núcleo arqueado. A ativação reduz fome e aumenta saciedade, mecanismo que sustenta a perda de peso clinicamente observada.
- Estômago — esvaziamento gástrico. Retarda esvaziamento gástrico, contribuindo para saciedade pós-prandial e modulando picos glicêmicos.
- Sistema cardiovascular. GLP-1R é expresso em endotélio, miócitos cardíacos e vasculatura. A redução de eventos cardiovasculares observada no LEADER atribui-se a múltiplos mecanismos — controle glicêmico, peso, pressão arterial, função endotelial e possivelmente efeito direto miocárdico.
A administração é subcutânea uma vez ao dia em coxa, abdome ou braço. O escalonamento de dose é gradual ao longo de semanas (0,6 → 1,2 → 1,8 mg para diabetes; até 3,0 mg para obesidade) para mitigar eventos gastrointestinais. A meia-vida de 13 horas garante exposição farmacologicamente relevante por 24 horas, mas exige adesão diária — diferente da administração semanal de semaglutida e tirzepatida.
O que os estudos mostram
A base de evidência fase 3 publicada de liraglutida é robusta e cobre múltiplas indicações.
SCALE Obesity and Prediabetes — Pi-Sunyer 2015 (PMID 26132939, NCT01272219). Ensaio multicêntrico duplo-cego placebo-controlado em 27 países, 56 semanas, 3.731 adultos com IMC ≥30 ou ≥27 com comorbidade, sem diabetes. Liraglutida 3,0 mg/dia produziu perda média 8,4±7,3 kg vs 2,8±6,5 kg placebo (p<0,001). 63,2% atingiram perda ≥5% vs 27,1% placebo; 33,1% atingiram >10% vs 10,6%. Eventos adversos GI (náusea, vômito, diarreia) em 49,1% no braço ativo vs 33,7% placebo, predominantes na escalada de dose. Sinal de aumento em colelitíase e pancreatite aguda. Esse foi o ensaio de registro de Saxenda em obesidade.
LEADER — Marso 2016 (PMID 27295427, NCT01179048). Ensaio fase 3b cardiovascular, 9.340 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular ou doença cardiovascular estabelecida, em 32 países, mediana de seguimento 3,8 anos. Desfecho primário MACE composto (morte cardiovascular, IAM não fatal, AVC não fatal). Ocorreu em 13,0% no braço liraglutida vs 14,9% placebo — HR 0,87 (IC 95% 0,78-0,97; p<0,001 para não-inferioridade, p=0,01 para superioridade). Mortalidade cardiovascular reduzida (HR 0,78). Esse é o ensaio cardiovascular de referência da liraglutida em diabetes tipo 2 e a base da indicação de redução de risco cardiovascular em bula.
SCALE Diabetes — Davies 2015 (PMID 26284720, NCT01272232). Ensaio fase 3 em 846 adultos com diabetes tipo 2 e IMC ≥27, 56 semanas. Perda média 6,0% com liraglutida 3,0 mg vs 2,0% placebo; 54,3% atingiram perda ≥5% vs 21,4% placebo. Estendeu a aplicabilidade da Saxenda para pessoas com diabetes tipo 2 e sobrepeso/obesidade.
STEP 8 — Rubino 2022 (PMID 35015037). Comparação direta head-to-head, 68 semanas, 338 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes. Semaglutida 2,4 mg/sem produziu perda −15,8% vs −6,4% com liraglutida 3,0 mg/dia (p<0,001). Comparação que reposicionou liraglutida na hierarquia da classe — efetiva, mas com magnitude inferior à de semaglutida em obesidade sem diabetes.
Outros ensaios da família LEAD/SCALE. A liraglutida tem extensa base fase 3 prévia em diabetes tipo 2 (programa LEAD, 2009-2010) que sustentou o registro inicial de Victoza. Trials adicionais em adolescentes (Kelly 2020, n=251, NCT02918279) e em manutenção pós-bariátrica (SCALE Maintenance) ampliaram o conhecimento da molécula em populações específicas.
O que ainda não foi caracterizado. Comparação head-to-head com tirzepatida não foi conduzida formalmente — o que existe é comparação indireta via ensaios separados (LEAD/SCALE para liraglutida, SURPASS/SURMOUNT para tirzepatida). Eficácia em manutenção de peso por seguimento >2 anos com farmacovigilância prospectiva é menos detalhada que para semaglutida (SELECT, 4 anos de seguimento médio) ou tirzepatida (SURMOUNT-1 extension).
Efeitos adversos relatados
A literatura fase 3 e a farmacovigilância pós-comercialização desde 2010 (Victoza) e 2014 (Saxenda) descrevem perfil consistente.
Eventos gastrointestinais. São os mais frequentes — náusea, vômito, diarreia, constipação. No SCALE Obesity, ocorreram em 49,1% do braço ativo vs 33,7% placebo. Tipicamente leves a moderados, predominantes na escalada de dose (semanas 1-8) e em redução com manutenção. Descontinuação por GI no SCALE Obesity foi 9,9% no braço ativo vs 3,8% placebo.
Colelitíase e colecistite. Risco aumentado em comparação com placebo, descrito no SCALE Obesity e em meta-análises subsequentes. Mecanismo proposto: redução de motilidade biliar associada a perda de peso rápida e a possível efeito direto da molécula. Inclusão em bula como evento adverso relevante.
Pancreatite aguda. Risco baixo mas suficiente para inclusão em bula. No SCALE Obesity, 7 casos no braço liraglutida (0,3%) vs 2 placebo (0,1%). Farmacovigilância pós-comercialização de mais de 15 anos mantém o sinal em magnitude pequena, mas relevante para contraindicação em pessoas com histórico de pancreatite recidivante.
Carcinoma medular de tireoide. Sinal preclínico em roedores (proliferação de células C tireoideanas). Relevância humana não estabelecida em mais de 15 anos de farmacovigilância pós-comercialização, mas mantida como contraindicação em histórico pessoal/familiar de carcinoma medular ou MEN-2 por precaução regulatória.
Hipoglicemia. Rara em monoterapia. Frequente em combinação com sulfonilureias ou insulina — ajuste de dose dessas classes é orientação de bula.
Reação no local de injeção. Frequência baixa — eritema, prurido transitório.
Eventos psiquiátricos — depressão e ideação suicida. Sinal investigado pelo FDA e EMA em 2024-2025 em todos os agonistas de GLP-1. Em meta-análises, não foi confirmado risco aumentado significativo, mas a vigilância segue ativa.
Long-term — segurança em uso prolongado (>5 anos). Liraglutida tem o maior conjunto de farmacovigilância pós-comercialização da classe (registro desde 2010). Não foram identificados sinais de toxicidade tardia que tenham revertido o registro em qualquer país de referência sanitária.
Status regulatório no Brasil
ANVISA. Liraglutida tem dois produtos industrializados registrados no Brasil:
- Victoza (liraglutida 6 mg/mL, doses 0,6/1,2/1,8 mg/dia) — registrada em março de 2010 para diabetes tipo 2 em adultos, como adjuvante a dieta e exercício, em monoterapia ou combinação. Foi o primeiro análogo de GLP-1 aprovado pela ANVISA.
- Saxenda (liraglutida 6 mg/mL, escalonamento até 3,0 mg/dia) — registrada em fevereiro de 2016 (DOU de 29/02/2016) para controle de peso em adultos com IMC ≥30 ou IMC ≥27 com comorbidade relacionada ao peso. Posteriormente, foi aprovada também para adolescentes 12-17 anos com obesidade.
A liraglutida é, em 2026, um dos análogos de GLP-1 com mais tempo de mercado regulado no Brasil.
Retenção de receita — RDC nº 973/2025. Em vigor desde 23 de junho de 2025. Aplica-se a todos os agonistas de GLP-1 com registro ANVISA, incluindo Victoza e Saxenda. Exige prescrição em duas vias com retenção em farmácia, validade de 90 dias e registro no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). A medida foi motivada por crescimento expressivo de uso fora de indicação aprovada (sobretudo em sobrepeso leve sem comorbidade) e por aumento de eventos adversos reportados.
Manipulação magistral. Liraglutida em formulação manipulada não é endossada pela ANVISA porque há produto industrializado disponível com cadeia regulatória completa. A Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA estabelece critérios rígidos de qualidade para IFAs peptídicos importados (HPLC/UV, mapa peptídico, doseamento, esterilidade, endotoxinas, impurezas). Em 2025-2026, a ANVISA intensificou fiscalização — Despacho 97/2025 vedou manipulação de semaglutida especificamente, e em abril de 2026 a agência reportou 11 inspeções com 8 interdições de farmácias por problemas técnicos e 10 ações de proibição de importação de produtos irregulares contendo agonistas de GLP-1. O ambiente regulatório para análogos de GLP-1 manipulados é cada vez mais restritivo.
Importação por pessoa física. Vedada para insumos sem registro em país de referência sanitária aceito pela ANVISA. Liraglutida industrializada (Victoza, Saxenda) está disponível em farmácia brasileira mediante prescrição.
WADA. Liraglutida não consta nominalmente na Lista de Substâncias Proibidas 2026. A classe GLP-1, em 2026, não é classificada como substância proibida pela WADA. Atletas em federações signatárias do Código Mundial Antidopagem que usam liraglutida com prescrição médica devem confirmar com a agência antidopagem nacional para garantir que diluentes ou contaminantes em formulações específicas não caiam em classes proibidas.
Posição clínica e na classe
A liraglutida ocupa, em 2026, três posições clínicas relevantes na classe GLP-1 brasileira:
- Primeira opção GLP-1 com dosagem diária. Para pessoas que toleram melhor administração diária do que semanal, ou para protocolos onde a flexibilidade de interrupção rápida é desejável (descontinuação em <72h após última dose vs ~7 dias com semaglutida), liraglutida segue indicada.
- Referência cardiovascular em diabetes tipo 2 com doença CV estabelecida. O LEADER trial é base sólida. Embora SELECT (semaglutida) e SURPASS-CVOT (tirzepatida) tenham ampliado a evidência da classe, liraglutida é a opção com maior tempo de mercado e farmacovigilância na indicação.
- Etapa de início em escalonamento. Em pessoas com baixa tolerância gastrointestinal ou em protocolos sequenciais, iniciar com liraglutida e migrar para semaglutida/tirzepatida em fase de manutenção é estratégia descrita em consenso clínico — embora não seja base de RCT formal.
A perda de peso média menor que semaglutida 2,4 mg (STEP 8) e tirzepatida 15 mg (comparação indireta SCALE/SURMOUNT) é fato. A diferença reflete tanto exposição farmacológica quanto, no caso de tirzepatida, mecanismo dual GIP+GLP-1.
O que sabemos
- Liraglutida é análogo de GLP-1 com meia-vida de 13 horas, administração subcutânea diária.
- ANVISA registrou Victoza em março de 2010 (diabetes tipo 2) e Saxenda em fevereiro de 2016 (obesidade) — primeiro análogo de GLP-1 aprovado no Brasil.
- SCALE Obesity (Pi-Sunyer 2015, n=3.731): perda média 8,4 kg em 56 semanas; 63,2% com perda ≥5%.
- LEADER (Marso 2016, n=9.340): redução de MACE em diabetes tipo 2 com alto risco CV (HR 0,87; p=0,01).
- STEP 8 (Rubino 2022, n=338): perda menor que semaglutida 2,4 mg em comparação direta (−6,4% vs −15,8%).
- Eventos adversos GI são os mais frequentes; pancreatite e colelitíase são sinais relevantes.
- Desde 23/06/2025, dispensação exige retenção de receita conforme RDC nº 973/2025.
O que ainda não sabemos
- Comparação direta com tirzepatida em RCT head-to-head publicado em literatura indexada.
- Eficácia em manutenção de peso com seguimento >5 anos sob farmacovigilância prospectiva pós-comercialização padrão de classe.
- Risco cardiovascular comparado em populações sem diabetes (LEADER foi conduzido em diabetes tipo 2; o equivalente para liraglutida seria SELECT-like, que não foi feito).
- Eficácia em populações específicas brasileiras (representação latino-americana é parcial em SCALE e LEADER).
- Magnitude do risco de eventos psiquiátricos — depressão e ideação suicida — sob escrutínio FDA/EMA 2024-2025; meta-análises não confirmaram aumento significativo, mas o sinal é monitorado.
Por que importa
A liraglutida é o ponto de entrada histórico da classe GLP-1 no Brasil. Foi o primeiro composto da classe registrado pela ANVISA, em março de 2010 (Victoza), e estabeleceu, em 2016 com Saxenda, o paradigma de tratamento farmacológico da obesidade com agonista de GLP-1 no país. Quase toda a infraestrutura clínica, regulatória e de farmacovigilância da classe GLP-1 brasileira foi construída sobre o ciclo Victoza-Saxenda.
A entrada subsequente de semaglutida (Ozempic 2018, Wegovy 2023, Rybelsus 2020 oral) e de tirzepatida (Mounjaro 2023 para diabetes, ampliada para obesidade em 2025) deslocou liraglutida da liderança em magnitude de perda de peso e em conveniência (administração semanal vs diária). Mas não a tornou obsoleta. Em 2026, liraglutida segue tendo papel clínico em pessoas com doença cardiovascular estabelecida e diabetes tipo 2 (LEADER), em pacientes com tolerância gastrointestinal limitada que se beneficiam de escalonamento mais gradual, e em situações onde flexibilidade de interrupção rápida é desejável.
A pephealth não recomenda nem desaconselha liraglutida — a indicação é clínica, individualizada e dependente de prescrição médica. A função desta ficha é descrever, com transparência sobre o que existe na literatura indexada de 2026: mecanismo, base de evidência fase 3 (SCALE, LEADER, STEP 8), perfil de eventos adversos consolidado em mais de 15 anos de farmacovigilância e o status regulatório atual no Brasil — incluindo retenção de receita obrigatória desde junho de 2025 e ambiente cada vez mais restritivo para análogos de GLP-1 manipulados.
Para o panorama da classe GLP-1 inteira (liraglutida, semaglutida, tirzepatida, retatrutida), ver /blog/tirzepatida-vs-semaglutida-classe-completa. Para timeline regulatória ANVISA da classe e detalhamento da Nota Técnica 200/2025, ver /guias/glp-1-panorama. Para o tri-agonista em desenvolvimento, ver /peptideos/retatrutida.
Perguntas frequentes
- Qual a diferença entre Victoza e Saxenda?
- Victoza e Saxenda contêm a mesma molécula (liraglutida 6 mg/mL) na mesma caneta pré-cheia. A diferença é a indicação aprovada e a dose máxima. Victoza é registrada desde março de 2010 para diabetes tipo 2 nas doses 1,2 e 1,8 mg/dia. Saxenda é registrada desde fevereiro de 2016 para controle de peso em adultos com IMC ≥30 ou ≥27 com comorbidade, com escalonamento até 3,0 mg/dia. A dose máxima de Saxenda é maior porque o desfecho clínico de perda de peso requer exposição farmacológica superior à necessária para controle glicêmico em diabetes tipo 2.
- Quanto se perde de peso com liraglutida em ensaio clínico?
- No SCALE Obesity and Prediabetes (Pi-Sunyer 2015, NEJM, n=3.731), a perda média foi 8,4±7,3 kg em 56 semanas com liraglutida 3,0 mg vs 2,8±6,5 kg com placebo. 63,2% atingiram perda ≥5% e 33,1% atingiram >10%. Em comparação direta com semaglutida 2,4 mg semanal no STEP 8 (Rubino 2022, JAMA, n=338), a perda foi −6,4% com liraglutida vs −15,8% com semaglutida em 68 semanas — diferença que ajudou a posicionar semaglutida como mais potente na classe.
- Liraglutida reduz infarto e AVC?
- Sim, em pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular estabelecida ou alto risco. O LEADER trial (Marso 2016, NEJM, n=9.340) mostrou redução do desfecho composto MACE — morte cardiovascular, IAM não fatal ou AVC não fatal — de 14,9% no placebo para 13,0% no braço liraglutida (HR 0,87; p=0,01 para superioridade), com seguimento mediano de 3,8 anos. Essa evidência sustentou a indicação cardiovascular em bula.
- Liraglutida é aprovada pela ANVISA?
- Sim. Victoza foi registrada em março de 2010 para diabetes tipo 2 — primeiro análogo de GLP-1 aprovado no Brasil. Saxenda foi registrada em fevereiro de 2016 para controle de peso. Ambas dependem de prescrição médica com retenção de receita conforme a RDC nº 973/2025, em vigor desde 23 de junho de 2025. Liraglutida em formulação manipulada não é endossada pela ANVISA porque há produto industrializado disponível com cadeia regulatória completa.
- Quais os efeitos adversos mais comuns de liraglutida?
- Os mais frequentes são gastrointestinais — náusea, vômito, diarreia e constipação — geralmente leves a moderados e mais comuns durante o escalonamento de dose. No SCALE Obesity, eventos GI estiveram em 49,1% no braço liraglutida e 33,7% no placebo. Eventos relevantes de menor frequência incluem colelitíase e colecistite (aumentadas vs placebo), pancreatite aguda (raro mas descrito) e elevação de calcitonina (sem desfecho clínico relatado em humano, base do alerta sobre carcinoma medular de tireoide derivado de roedores).
- Liraglutida é proibida pela WADA?
- Liraglutida não consta nominalmente na Lista de Substâncias Proibidas WADA 2026. A classe GLP-1 não é classificada como substância proibida. Atletas que usam liraglutida com prescrição médica para diabetes ou obesidade devem confirmar com a federação esportiva e agência antidopagem nacional, dado que listas evoluem e que diluentes ou contaminantes em formulações manipuladas podem cair em outras classes proibidas.
- Liraglutida pode ser manipulada no Brasil?
- Não como rotina. Liraglutida tem produto industrializado registrado no Brasil (Victoza e Saxenda), o que reduz a justificativa clínica para manipulação magistral. A Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA estabelece critérios rígidos de qualidade para IFAs peptídicos importados, e ações ANVISA em 2025-2026 — incluindo Despacho 97/2025 sobre semaglutida e fiscalizações em 2026 que resultaram em 8 interdições de farmácias por problemas técnicos — sinalizam ambiente regulatório restritivo para manipulação de análogos de GLP-1 com produto industrializado disponível.
Estudos citados
A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management (SCALE Obesity and Prediabetes)
New England Journal of Medicine · Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, Greenway F, Halpern A, Krempf M, et al. · 2015
Base de registro de Saxenda. Perda média 8,4±7,3 kg com liraglutida 3,0 mg vs 2,8±6,5 kg placebo (p<0,001). 63,2% atingiram perda ≥5% vs 27,1% placebo; 33,1% atingiram >10% vs 10,6%. Eventos adversos GI predominantes na fase de escalonamento. Sinal de aumento em colelitíase e pancreatite no braço ativo.
Liraglutide and Cardiovascular Outcomes in Type 2 Diabetes (LEADER)
New England Journal of Medicine · Marso SP, Daniels GH, Brown-Frandsen K, Kristensen P, Mann JF, Nauck MA, et al. · 2016
MACE em 13,0% no braço liraglutida vs 14,9% placebo (HR 0,87; IC 95% 0,78-0,97; p<0,001 para não-inferioridade; p=0,01 para superioridade). Mortalidade cardiovascular reduzida (HR 0,78). Evidência de maior peso clínico na classe GLP-1 disponível para liraglutida em diabetes tipo 2 com doença cardiovascular estabelecida.
Efficacy of Liraglutide for Weight Loss Among Patients With Type 2 Diabetes: The SCALE Diabetes Randomized Clinical Trial
JAMA · Davies MJ, Bergenstal R, Bode B, Kushner RF, Lewin A, Skjøth TV, et al. · 2015
Perda média 6,0% com liraglutida 3,0 mg vs 2,0% placebo. 54,3% atingiram perda ≥5% vs 21,4% placebo. Demonstrou eficácia em controle de peso na população com diabetes tipo 2 — base de extensão da indicação.
Effect of Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Daily Liraglutide on Body Weight in Adults With Overweight or Obesity Without Diabetes (STEP 8)
JAMA · Rubino DM, Greenway FL, Khalid U, O'Neil PM, Rosenstock J, Sørrig R, et al. · 2022
Perda −15,8% com semaglutida vs −6,4% com liraglutida (diferença −9,4 pontos percentuais; p<0,001). Comparação direta que posicionou semaglutida como mais potente em obesidade sem diabetes. Limitação: dose máxima de liraglutida (3,0 mg) é menor em equivalência farmacológica que a dose máxima de semaglutida em peso (2,4 mg/sem).
Anvisa — registro de Saxenda (liraglutida 6 mg/mL) para controle de peso
Diário Oficial da União · Agência Nacional de Vigilância Sanitária · 2016
Registro publicado no DOU de 29 de fevereiro de 2016. Victoza, com mesma molécula em doses 1,2 e 1,8 mg, já estava registrada desde março de 2010 para diabetes tipo 2. Saxenda foi a primeira aprovação ANVISA na classe GLP-1 para indicação de obesidade.
RDC nº 973/2025/ANVISA — Critérios para prescrição, dispensação, controle, embalagem e rotulagem de medicamentos agonistas de GLP-1
Diário Oficial da União · Agência Nacional de Vigilância Sanitária · 2025
Em vigor desde 23 de junho de 2025. Aplica-se a Victoza, Saxenda, Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. Liraglutida deixou de ser dispensada em farmácia comum sem retenção da receita. Medida de farmacovigilância e controle de uso fora de indicação.
Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA — Manipulação de IFAs peptídicos
Diário Oficial da União · Agência Nacional de Vigilância Sanitária · 2025
Documento ANVISA central para o tema GLP-1 manipulado em 2025-2026. Liraglutida tem produto industrializado registrado — manipulação magistral exige justificativa clínica específica não atendida pela versão registrada. Despacho 97/2025 e ações subsequentes em 2026 reforçaram a vedação de manipulação de semaglutida em particular.
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Por Amanda Matsuda · ·
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