Ficha · Fator de crescimento
IGF-1 (fator de crescimento insulina-símile 1)
IGF-1 (fator de crescimento insulina-símile 1) é o hormônio de 70 aminoácidos produzido pelo fígado sob estímulo do GH, mediador do crescimento e do anabolismo. Como fármaco, apenas a mecasermina (IGF-1 recombinante) tem uso clínico, restrito à deficiência primária grave de IGF-1. É distinto do IGF-1 LR3.
Peptídeo encaixa em receptor · sinal celular
Quick answer
IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, ou somatomedina C) é o hormônio que media boa parte dos efeitos do hormônio do crescimento (GH). É um peptídeo de 70 aminoácidos, produzido principalmente pelo fígado sob estímulo do GH, que age sobre o receptor IGF-1R para promover crescimento ósseo linear, anabolismo proteico e efeitos metabólicos. Circula quase todo ligado a proteínas carreadoras (IGFBPs), com só uma pequena fração livre ativa por vez. Como fármaco, a forma relevante é a mecasermina — IGF-1 humano recombinante idêntico ao endógeno —, com uso clínico restrito à deficiência primária grave de IGF-1 (por exemplo, insensibilidade ao GH / síndrome de Laron). Não é recurso de performance, estética ou longevidade: o uso para hipertrofia muscular não tem respaldo clínico, carrega risco de hipoglicemia e risco oncológico teórico, e é proibido no esporte (WADA, S2.2). Este verbete descreve o IGF-1 nativo; não confundir com o IGF-1 LR3, análogo modificado sem aprovação humana.
O que é
IGF-1 é um dos hormônios centrais do eixo de crescimento. O GH secretado pela hipófise age sobre o fígado (e sobre tecidos periféricos) estimulando a produção de IGF-1, e é o IGF-1 que executa boa parte dos efeitos atribuídos ao GH — daí o nome antigo "somatomedina", literalmente "mediador da somatotrofina". Fisiologicamente, o IGF-1 sobe na infância e na puberdade, atinge pico e declina com a idade adulta.
A molécula circula num sistema de transporte peculiar: mais de 99% do IGF-1 plasmático está ligado a proteínas carreadoras (IGFBPs, principalmente a IGFBP-3), em complexo com a ALS (subunidade ácido-lábil). Esse reservatório circulante prolonga a permanência do hormônio, mas só a fração livre é ativa a cada momento. É um ponto que distingue o IGF-1 nativo de análogos desenhados para escapar dessas carreadoras — como o IGF-1 LR3.
Como medicamento, o IGF-1 existe na forma de mecasermina (Increlex), IGF-1 humano recombinante. A indicação aprovada é a deficiência primária grave de IGF-1: condição rara em que o GH está presente e até elevado, mas o IGF-1 não é produzido adequadamente (por insensibilidade ao GH, defeitos do receptor de GH ou do gene do IGF-1). Nesses casos, repor o próprio IGF-1 é o tratamento lógico — diferente de repor GH, que não resolveria o bloqueio a jusante.
Como age no corpo
O IGF-1 atua sobre o receptor IGF-1R, uma tirosina-quinase presente em praticamente todos os tecidos. A ligação ativa duas vias principais:
- PI3K/AKT — sobrevivência celular, síntese proteica, captação de glicose. É a via associada ao efeito anabólico e à ação metabólica insulina-símile.
- RAS/MAPK — proliferação e diferenciação celular.
Os efeitos fisiológicos clássicos incluem crescimento ósseo linear na infância (via ação nas placas de crescimento), anabolismo proteico muscular, e ações metabólicas — inclusive efeito hipoglicemiante parcial, porque o IGF-1 tem homologia com a insulina e ativa modestamente o receptor de insulina. Esse último ponto explica por que a hipoglicemia é o efeito adverso mais característico do uso farmacológico.
O eixo é regulado por retroalimentação negativa: o IGF-1 circulante inibe a secreção de GH pela hipófise. Por isso, elevar o IGF-1 farmacologicamente tende a suprimir a produção endógena de GH — um dos motivos pelos quais a manipulação externa do eixo não é trivial nem inócua.
O que os estudos mostram
A base de evidência do IGF-1 como fármaco está na reposição em deficiência primária grave de IGF-1, não em performance.
Mecasermina — Fintini 2009 (PMID 19707272). Revisão do perfil clínico da mecasermina (IGF-1 humano recombinante) no tratamento de longo prazo da falha de crescimento em crianças e adolescentes com deficiência primária grave de IGF-1. O racional é direto: nesses pacientes o GH está presente mas o IGF-1 não é produzido, então repor o IGF-1 recombinante restaura a via de crescimento a jusante do GH. O efeito adverso mais relevante descrito é a hipoglicemia, decorrente da ativação parcial do receptor de insulina — o que impõe cuidado com a alimentação em torno das aplicações e acompanhamento por especialista.
Fora desse escopo aprovado, não há base clínica que sustente o IGF-1 nativo (ou análogos) como recurso de hipertrofia muscular, estética ou longevidade. A sinalização IGF-1R crônica está associada, na epidemiologia, a risco aumentado de certas neoplasias — o que torna o uso farmacológico não indicado uma aposta com risco teórico relevante e não quantificado.
Status regulatório no Brasil
ANVISA. A mecasermina (Increlex), IGF-1 humano recombinante, é medicamento de uso restrito a especialista para deficiência primária grave de IGF-1. No Brasil, em 2026, o acesso se dá tipicamente por importação sob prescrição e critério médico, conforme as regras da ANVISA para medicamentos importados — não como produto de comercialização ampla. Disponibilidade, apresentações e via de acesso podem variar ao longo do tempo.
Uso restrito a profissional de saúde. A indicação, a dose (individualizada por peso) e o acompanhamento seguem a bula e a prescrição do especialista. Não há forma de "IGF-1 nativo" de venda livre; produtos que circulam fora do circuito regulado — inclusive análogos como o IGF-1 LR3 — não têm garantia de identidade, pureza ou esterilidade.
Esporte. O IGF-1 e seus análogos constam da seção S2.2 da Lista de Substâncias Proibidas da WADA (fatores de crescimento e moduladores do eixo somatotrópico), proibidos em e fora de competição.
O que sabemos
- IGF-1 é o mediador peptídico dos efeitos do GH, produzido pelo fígado, agindo sobre o receptor IGF-1R.
- Circula quase todo ligado a IGFBPs; só a fração livre é ativa por vez.
- Como fármaco, a mecasermina (IGF-1 recombinante) tem uso clínico restrito à deficiência primária grave de IGF-1.
- A hipoglicemia é o efeito adverso mais característico, pela ação insulina-símile.
- No Brasil, a mecasermina é acessada por importação sob prescrição de especialista.
O que ainda não sabemos
- Não há base clínica que sustente uso do IGF-1 (nativo ou análogo) para performance, estética ou longevidade — e o risco oncológico teórico da sinalização IGF-1R crônica não está quantificado nesse contexto.
- O perfil de segurança de longo prazo do uso farmacológico fora da indicação aprovada é essencialmente desconhecido.
Por que importa
Separar o IGF-1 nativo (este verbete) do IGF-1 LR3 é a razão principal desta ficha. O IGF-1 nativo é um hormônio fisiológico central e um fármaco de nicho (mecasermina) com indicação estreita e séria — reposição em deficiência primária grave de IGF-1. Já o IGF-1 LR3 é um análogo modificado, desenhado para cultura celular industrial, sem aprovação para uso humano, que circula no mercado de "research peptides" com promessa de performance sem respaldo. Confundir os dois — e importar a legitimidade clínica do primeiro para justificar o uso do segundo — é exatamente o tipo de erro que esta página existe para evitar.
A pephealth não recomenda nem desaconselha condutas individuais: a indicação da mecasermina é clínica, restrita e dependente de especialista. A função desta ficha é descrever, com transparência, o hormônio, seu mecanismo, o único uso farmacológico com respaldo e os limites do que se sabe.
Para o análogo modificado sem aprovação humana, ver /peptideos/igf-1-lr3. Para o panorama de moléculas do eixo metabólico com evidência clínica robusta, ver /peptideos/semaglutida e /peptideos/tesamorelina.
<!-- DEDUP: existe ficha igf-1-lr3 (content/drafts/2026-05-29-lote3-p3/igf-1-lr3.md) — variante análoga modificada. Esta ficha (slug: igf-1) é o IGF-1 NATIVO/endógeno + mecasermina. Diferenciação explícita no corpo e link cruzado para /peptideos/igf-1-lr3. Regulatório: mecasermina (Increlex) NÃO tem registro nacional ANVISA — acesso por importação (RDC de importados). Coerente com a ficha igf-1-lr3. Por isso regulatoryStatus: importacao (não registrado-anvisa), seguindo a regra de honestidade regulatória. Citação verificada via PubMed esummary: Fintini 2009, PMID 19707272. -->
Perguntas frequentes
- O que é o IGF-1? +
- IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, ou somatomedina C) é um hormônio peptídico de 70 aminoácidos, produzido principalmente pelo fígado sob estímulo do hormônio do crescimento (GH). É o principal mediador dos efeitos de crescimento e anabolismo do GH: age sobre o receptor IGF-1R, presente em quase todos os tecidos, estimulando crescimento ósseo linear na infância, síntese proteica muscular e ações metabólicas. Circula quase todo ligado a proteínas carreadoras (IGFBPs), com apenas uma pequena fração livre ativa por vez.
- Qual a diferença entre IGF-1 nativo e IGF-1 LR3? +
- São moléculas diferentes com finalidades diferentes. O IGF-1 nativo é o hormônio endógeno de 70 aminoácidos, e sua versão farmacêutica (mecasermina) é idêntica ao que o corpo produz, usada em deficiência primária grave de IGF-1. O IGF-1 LR3 é um análogo modificado de 83 aminoácidos (com substituição na posição 3 e extensão N-terminal) que reduz a ligação às carreadoras e prolonga muito a meia-vida — foi desenhado para cultura celular industrial, não tem aprovação para uso humano e é usado fora de respaldo em contexto de performance. Ver a ficha do [IGF-1 LR3](/peptideos/igf-1-lr3) para o detalhamento.
- O IGF-1 serve para ganhar músculo? +
- Não como recurso aprovado ou respaldado. O IGF-1 tem efeito anabólico fisiológico, mas seu uso farmacológico é restrito à reposição na deficiência primária grave de IGF-1 — não há indicação clínica para hipertrofia muscular ou desempenho. Além do risco de hipoglicemia e do risco oncológico teórico da sinalização IGF-1R crônica, o uso para performance é proibido no esporte (WADA, seção S2.2). O IGF-1 LR3, frequentemente citado em fóruns de fisiculturismo, não tem ensaio clínico humano publicado.
- A mecasermina é aprovada no Brasil? +
- A mecasermina (Increlex), IGF-1 humano recombinante, é um medicamento de uso restrito a especialista para deficiência primária grave de IGF-1. No Brasil, em 2026, seu acesso se dá tipicamente por importação sob prescrição e critério médico, conforme as regras da ANVISA para medicamentos importados, e não como produto de comercialização ampla em farmácia. Disponibilidade, apresentações e via de acesso podem variar ao longo do tempo — a orientação do especialista e a regulação vigente prevalecem.
- Por que o IGF-1 causa hipoglicemia? +
- Porque o IGF-1 tem homologia estrutural com a insulina e ativa parcialmente o receptor de insulina, além do próprio IGF-1R. Em doses farmacológicas, esse efeito insulina-símile pode reduzir a glicemia de forma clinicamente relevante. É por isso que a bula da mecasermina orienta a ingestão de alimento próxima à aplicação, para reduzir o risco de hipoglicemia — uma conduta que faz parte da prescrição e do acompanhamento por especialista.
Estudos citados
1 referência- 01Fintini D, Brufani C, Cappa M. Profile of mecasermin for the long-term treatment of growth failure in children and adolescents with severe primary IGF-1 deficiency · Therapeutics and Clinical Risk Management, 2009 · Revisão do perfil clínico da mecasermina (IGF-1 humano recombinante) no tratamento de longo prazo da falha de crescimento na deficiência primária grave de IGF-1
Sintetiza o uso aprovado da mecasermina: reposição de IGF-1 em crianças e adolescentes com deficiência primária grave de IGF-1 (insensibilidade ao GH), com hipoglicemia como efeito adverso relevante pela ativação parcial do receptor de insulina. Reforça que a indicação é a reposição do próprio IGF-1, não performance.
revisãoPMID 19707272
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