Pular para o conteúdo
Explicação·Regulação e acesso

RDC 67/2007 e RDC 87/2008: a base regulatória da manipulação de peptídeos injetáveis no Brasil

RDC 67/2007 define BPM geral; RDC 87/2008 adiciona exigências para estéreis — sala ISO 5/7/8, fluxo laminar, validação, controle ambiental e teste de esterilidade por lote.

PorAmanda MatsudaPublicado17 de junho de 2026Leitura~6 min
Ilustração editorial pephealth — RDC 67/2007 e RDC 87/2008: a base regulatória da manipulação de peptídeos injetáveis no Brasil

TL;DR

No Brasil, manipulação magistral de medicamentos é regulada pela RDC 67/2007 (Boas Práticas de Manipulação — base geral) e RDC 87/2008 (exigências adicionais para preparações estéreis, incluindo injetáveis). Para peptídeo injetável manipulado, ambas se aplicam. Requisitos chave: estrutura física com áreas classificadas (ISO 5/7/8 conforme ISO 14644), capela de fluxo laminar para manipulação asséptica, validação de processo (media fill), controle ambiental contínuo, testes de qualidade por lote (esterilidade USP 〈71〉, endotoxinas USP 〈85〉), pessoal treinado e qualificado, e documentação completa. Manipulação requer matéria-prima registrada na ANVISA — peptídeos sem registro de matéria-prima (BPC-157, TB-500) não podem ser manipulados legalmente, independentemente do cumprimento BPM. Fiscalização sanitária varia entre estados; consulta pública de AFE no portal ANVISA é a verificação básica acessível ao paciente.

A arquitetura regulatória

A manipulação magistral no Brasil tem três camadas regulatórias principais:

  1. Lei 5.991/1973 — controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos e insumos farmacêuticos
  2. RDC 67/2007 — Boas Práticas de Manipulação (BPM) geral
  3. RDC 87/2008 — adiciona exigências para preparações estéreis

Para peptídeo injetável manipulado, todas as três se aplicam, com a RDC 87 adicionando o componente de esterilidade às BPM da RDC 67.

RDC 67/2007 — Boas Práticas de Manipulação

A Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007, é o documento base. Estrutura:

Anexo I — Estrutura física e equipamentos

  • Áreas separadas (recepção, armazenamento, manipulação, controle de qualidade, dispensação)
  • Estanqueidade, materiais de fácil limpeza
  • Ventilação e temperatura controladas
  • Equipamentos calibrados e validados
  • Áreas específicas para manipulação de classes especiais (sólidos, semissólidos, líquidos)

Anexo II — Controle de qualidade

  • Análise das matérias-primas no recebimento (identidade, organolépticos)
  • Documentação de origem (CoA do fornecedor)
  • Análise do produto manipulado (peso, conteúdo, aspecto)
  • Manutenção de amostras de retenção
  • Registros de fornecedores qualificados

Anexo III — Responsabilidades

  • Responsável Técnico (RT) — farmacêutico inscrito no CRF
  • Treinamento contínuo de pessoal
  • Procedimentos Operacionais Padrão (POP) documentados
  • Registros de manipulação por fórmula

Anexo IV — Documentação

  • Formulário de manipulação por receita
  • Registro de matéria-prima por lote
  • Controles de qualidade
  • Reclamações e desvios
  • Arquivamento conforme prazos legais

A RDC 67/2007 é aplicável a toda farmácia magistral — manipulação de cápsulas, cremes, soluções não-estéreis, fitoterápicos, homeopáticos. É a base mínima.

RDC 87/2008 — preparações estéreis (incluindo injetáveis)

A Resolução RDC nº 87, de 21 de novembro de 2008, adicionou o Anexo VI à RDC 67/2007, dedicado a preparações estéreis. Para peptídeo injetável, este anexo é central.

Classificação de áreas (ISO 14644)

A RDC 87/2008 adota a classificação ISO 14644-1 para áreas controladas:

Classe ISOPartículas ≥0,5 µm/m³Uso típico
ISO 5 (Grade A)≤ 3.520Capela de fluxo laminar — área crítica onde o produto é manipulado/exposto
ISO 7 (Grade B)≤ 352.000Sala em volta da capela — área limpa de suporte
ISO 8 (Grade C/D)≤ 3.520.000Antessalas, paramentação, preparo

Manipulação asséptica de injetável deve ocorrer em ISO 5 (capela ou isolador) dentro de sala classificada ISO 7, acessada através de antessala ISO 8.

Capela de fluxo laminar

Equipamento que mantém ISO 5 localmente, geralmente:

  • Capela horizontal (fluxo do fundo para o operador) — para produtos sem risco ao operador
  • Capela vertical ou cabine de biossegurança classe II A2 (fluxo do teto para baixo, com retorno HEPA) — para produtos com risco de aerossol
  • Isolador — alternativa de contenção total

Requisitos:

  • Filtro HEPA H14 ou superior
  • Qualificação inicial (DQ, IQ, OQ, PQ)
  • Requalificação anual (teste de integridade do HEPA, velocidade de fluxo, contagem de partículas)
  • Manutenção documentada

Validação de processo asséptico — media fill

Para garantir que o processo de manipulação não contamina o produto:

  • Media fill: simulação do processo usando meio de cultura líquido em vez do peptídeo
  • Frascos preenchidos são incubados a 20-25°C e 30-35°C por períodos específicos
  • Critério de aceitação: zero crescimento (com base estatística mínima)
  • Frequência: anual mínima; após reformas, mudanças de processo, treinamento de novo manipulador

Registros de media fill devem estar disponíveis para inspeção sanitária.

Controle ambiental contínuo

  • Partículas no ar (online ou periódico)
  • Microbiologia — superfícies, ar, luvas (settle plates, swab, contact plates)
  • Pressão diferencial entre salas (positiva nas mais limpas)
  • Temperatura e umidade registradas
  • Diferencial de pressão alarmado

Pessoal — qualificação e gowning

  • Treinamento inicial em manipulação asséptica
  • Qualificação por gloved fingertip test (avaliação microbiológica das luvas do manipulador)
  • Gowning (paramentação) padronizado: macacão, gorro, máscara, óculos, luvas estéreis
  • Requalificação periódica

Testes de qualidade por lote

Para cada lote de injetável manipulado:

  • Identidade do peptídeo
  • Conteúdo (potência) — método validado
  • pH, aspecto, volume
  • Esterilidade — USP 〈71〉 (incubação em tioglicolato e tripticase-soja, 14 dias)
  • Endotoxinas bacterianas — USP 〈85〉 (LAL, limite por monografia do produto)
  • Particulados visíveis e subvisíveis quando aplicável

Embalagem e rotulagem

  • Frasco compatível (vidro tipo I tipicamente para peptídeos)
  • Selagem que garanta integridade
  • Rótulo com: nome, concentração, volume, via, lote, manipulação, validade, conservação, RT
  • Bulário ou folheto orientando aplicação e descarte

Validade

A RDC 87 estabelece limites máximos para validade de preparações estéreis, mais restritivos que produtos industriais:

  • Pode variar conforme estabilidade do peptídeo e via de administração
  • Tipicamente 14-30 dias para reconstituídos
  • Estudos de estabilidade podem estender, mas requerem documentação

O que isso muda na prática

Cumprir RDC 67 e RDC 87 implica investimento substancial:

  • Estrutura física: sala limpa custa centenas de milhares de reais; manutenção anual significativa
  • Equipamentos: capela de fluxo laminar, isolador, autoclave, sistema HEPA
  • Pessoal qualificado: farmacêutico RT com treinamento em manipulação asséptica + equipe treinada
  • Validação contínua: testes microbiológicos, media fill, qualificações
  • Controle de qualidade: laboratório próprio ou contrato com terceirizado para esterilidade e endotoxinas

Essas exigências separam farmácias que podem legitimamente manipular injetável das que oferecem o serviço sem infraestrutura adequada.

A questão da matéria-prima

RDC 67/2007 e 87/2008 cuidam do processo. A matéria-prima é regulada separadamente.

Para qualquer manipulação magistral, a matéria-prima deve:

  • Ser registrada como IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) pela ANVISA
  • Ter origem de fornecedor com Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) e CADIFA quando aplicável
  • Vir com Certificado de Análise por lote
  • Ter rastreabilidade documental completa

Peptídeos sem matéria-prima registrada (BPC-157, TB-500, Melanotan, Mecasermina sem registro etc.) não podem ser manipulados legalmente no Brasil, mesmo em farmácia que cumpre todas as BPM.

A questão da semaglutida e tirzepatida é diferente: existem como medicamento registrado (Ozempic, Wegovy, Rybelsus; Mounjaro, Zepbound). A matéria-prima isolada não tem registro de IFA para manipulação magistral rotineira no Brasil. O quadro brasileiro difere do quadro FDA 2023-2024, quando shortage de semaglutida e tirzepatida industriais permitiu compounding nos EUA — situação que cessou em 2025 quando shortage foi declarado encerrado.

Fiscalização sanitária

A inspeção das farmácias é feita por:

  • Vigilância Sanitária Estadual ou Municipal (delegada conforme estado)
  • ANVISA (inspeções federais em casos específicos)
  • CRF estadual (fiscalização ética e técnica de farmacêuticos)

Sanções por descumprimento:

  • Notificação técnica
  • Multa
  • Interdição parcial ou total
  • Cassação de AFE
  • Responsabilização do RT (no CRF)
  • Processo criminal em casos graves (medicamento adulterado)

Como o paciente verifica

Acessível ao paciente:

  1. Consulta de AFE no portal ANVISA — verifica habilitação para preparações estéreis
  2. Inscrição do RT no CRF estadual — verifica regularidade do farmacêutico responsável
  3. Pedido de documentação à farmácia: laudo do lote, master file da matéria-prima, certificado de validação
  4. Verificação de embalagem ao receber: rótulo completo, cadeia fria preservada, integridade
  5. Notificação ao NOTIVISA se houver evento adverso ou suspeita de irregularidade

O que isso significa na prática

RDC 67/2007 e RDC 87/2008 são a base regulatória ANVISA para manipulação magistral no Brasil, com a 87/2008 acrescentando exigências específicas para preparações estéreis aplicáveis a peptídeos injetáveis. Cumprimento exige estrutura física com áreas classificadas ISO 5/7/8, capela de fluxo laminar, validação de processo, controle ambiental contínuo, testes por lote (USP 〈71〉 e 〈85〉), pessoal qualificado e documentação completa. Farmácia que opera dentro dessas normas pode legitimamente manipular peptídeo injetável desde que a matéria-prima tenha registro ANVISA — requisito separado do processo. Peptídeos sem matéria-prima registrada (BPC-157, TB-500) não podem ser manipulados legalmente, mesmo em farmácias com BPM impecáveis. Para o paciente, a verificação acessível é consulta da AFE no portal ANVISA e pedido de documentação técnica à farmácia.

Para aprofundar

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre RDC 67/2007 e RDC 87/2008?
+
RDC 67/2007 estabelece BPM geral para todas as preparações magistrais e oficinais (cremes, cápsulas, soluções não-estéreis). RDC 87/2008 acrescentou requisitos específicos para preparações estéreis — exigências mais rigorosas (sala limpa classificada, capela de fluxo laminar, validação asséptica, testes específicos). Para peptídeos injetáveis, ambas se aplicam: a RDC 67 como base, a RDC 87 para o componente de esterilidade.
Toda farmácia magistral pode manipular injetável?
+
Não. Para manipular preparações estéreis, a farmácia precisa de habilitação específica registrada na AFE (Autorização de Funcionamento) — frequentemente designada como AFE-V (volátil/especial). Requer estrutura física adicional, equipamentos validados, pessoal treinado, e fiscalização sanitária específica. Farmácia que oferece injetável sem essa habilitação opera irregularmente.
O que é validação de processo asséptico (media fill)?
+
Media fill é o teste em que o processo de manipulação é simulado usando meio de cultura líquido em vez do produto real. Após simulação, frascos são incubados — se houver crescimento microbiano, o processo falhou. Validação anual com média fill (ou maior frequência) é requisito de RDC 87/2008. Farmácia que manipula injetável precisa apresentar registros de validação.
Posso manipular qualquer peptídeo conforme RDC 67/2007?
+
Não. Manipulação magistral requer matéria-prima registrada na ANVISA. Peptídeos como BPC-157 e TB-500 não têm matéria-prima registrada — manipulação é irregular independentemente do cumprimento das BPM. Peptídeos com matéria-prima registrada (alguns análogos de somatostatina, leuprolida etc.) podem ser manipulados quando há prescrição médica justificada e ausência de equivalente industrial.
Como o paciente verifica se a farmácia cumpre RDC 67 e 87?
+
Diretamente, é difícil. O sinal mais acessível é a AFE-V vigente (consulta pública no portal ANVISA). Indicadores adicionais: certificações ISO (9001, embora não regulatória), participação em programas de qualidade do Conselho Federal de Farmácia, transparência ao fornecer laudo de controle de qualidade por lote (esterilidade, endotoxinas), responsável técnico identificado e acessível. Recusa em fornecer documentação é sinal de não-conformidade.

Estudos citados

4 referências
  1. 01
    Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007 — Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para Uso Humano em Farmácias · ANVISA — Diário Oficial da União, 2007 · Resolução de Diretoria Colegiada — norma sanitária federal

    Norma base de BPM em farmácias magistrais. Anexos: I (estrutura física), II (controle de qualidade), III (responsabilidades), IV (documentação). Aplicável a todas as farmácias com atividade de manipulação.

    regulatório
  2. 02
    Resolução RDC nº 87, de 21 de novembro de 2008 — Alteração da RDC 67/2007 para Preparações Estéreis · ANVISA, 2008 · Alteração regulatória — adição de Anexo VI à RDC 67

    Específica para preparações estéreis (injetáveis, oftálmicos): classificação ISO de áreas, capela de fluxo laminar, validação asséptica, teste de esterilidade, teste de endotoxinas, qualificação de pessoal.

    regulatório
  3. 03
    ISO 14644-1:2015 — Cleanrooms and associated controlled environments — Classification of air cleanliness by particle concentration · International Organization for Standardization, 2015 · Norma internacional de classificação de salas limpas

    Define ISO 5, ISO 7, ISO 8 etc. com base em concentração máxima de partículas ≥0,5 µm por m³. Referenciada pela RDC 87/2008 para áreas de manipulação estéril.

    regulatório
  4. 04
    USP <85> Bacterial Endotoxins Test e USP <71> Sterility Tests · United States Pharmacopeia, 2024 · Capítulos gerais USP — métodos farmacopeicos

    USP 〈85〉 quantifica endotoxinas (limite definido por monografia do produto). USP 〈71〉 valida esterilidade por incubação em meios específicos. Referenciados como métodos aceitos por ANVISA em BPM injetável.

    regulatório

Comunidade pephealth

A comunidade de quem leva peptídeo a sério.

Onde quem pesquisa e usa peptídeo troca experiência e estuda junto — conteúdo educacional, sem propaganda e sem compra ou venda de substâncias.

Entrar na comunidade
Newsletter pephealth

Uma edição por semana — três leituras críticas e um link.

Cadastro opt-in, respeitamos a LGPD. Link de cancelamento em todo email.