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Ficha · Análogo de amilina de ação prolongada

Cagrilintida

Análogo de amilina de ação prolongada (AM833), aplicação subcutânea semanal, em investigação para obesidade. Na fase 2 de dose-finding (Lau 2021, Lancet, n=706), a dose de 4,5 mg reduziu 10,8% do peso em 26 semanas vs 3,0% com placebo — e superou marginalmente a liraglutida 3,0 mg. Sem registro ANVISA.

InvestigacionalEvidência média
PorAmanda MatsudaPublicado08 de julho de 2026Atualizado09 de jul. de 2026

Peptídeo encaixa em receptor · sinal celular

Quick answer

Cagrilintida (também grafada cagrilintide; código AM833) é um análogo de ação prolongada da amilina — hormônio co-secretado com a insulina pelo pâncreas — projetado para aplicação subcutânea semanal. Age por um eixo distinto do dos agonistas de GLP-1: atua sobre receptores de amilina e calcitonina no sistema nervoso central, promovendo saciedade. Por isso é candidata natural a combinação com semaglutida (a coformulação CagriSema). A evidência mais robusta em monoterapia vem de um ensaio de fase 2 de dose-finding em obesidade (Lau 2021, Lancet, n=706): a dose de 4,5 mg reduziu 10,8% do peso (−11,5 kg) em 26 semanas, contra 3,0% com placebo, superando marginalmente a liraglutida 3,0 mg (9,0%; diferença de 1,8 ponto, p=0,03). É evidência de fase 2, de curto prazo — não um ensaio de desfecho de longo prazo. A cagrilintida não tem registro na ANVISA e permanece investigacional no Brasil.

O que é

Cagrilintida é um análogo sintético da amilina, um hormônio que as células beta do pâncreas secretam junto com a insulina em resposta à alimentação. A amilina participa da regulação da saciedade e do esvaziamento gástrico, mas tem meia-vida muito curta no corpo. A cagrilintida foi desenhada para resistir à degradação e sustentar concentrações por dias, permitindo uma aplicação subcutânea por semana.

O ponto que a torna interessante é o mecanismo complementar. Enquanto os agonistas de GLP-1 (semaglutida, liraglutida) agem sobre o receptor de GLP-1, a cagrilintida age sobre a família de receptores de amilina e calcitonina. São vias de saciedade distintas — e a hipótese é que somá-las produza efeito maior do que cada uma isolada. Foi essa lógica que originou a coformulação com semaglutida, a CagriSema.

Em monoterapia, a cagrilintida ainda é uma molécula em investigação: tem dados de fase 2, mas não o acúmulo de ensaios de fase 3 e de desfecho de longo prazo que sustentam os GLP-1 já registrados. Não há produto aprovado no Brasil.

Como age no corpo

A amilina endógena é secretada com a insulina após as refeições e sinaliza saciedade ao sistema nervoso central. A cagrilintida ocupa a mesma família de receptores (amilina/calcitonina), com os efeitos descritos nos ensaios:

  • Sistema nervoso central — saciedade. A ativação dos receptores de amilina em regiões do tronco encefálico e do hipotálamo reduz a ingestão alimentar e prolonga a sensação de saciedade.
  • Estômago — esvaziamento gástrico. Como o GLP-1, a amilina retarda o esvaziamento gástrico, o que contribui para a saciedade e explica parte dos eventos gastrointestinais observados.
  • Complementaridade com GLP-1. Por agir em receptores diferentes dos do GLP-1, a cagrilintida oferece um mecanismo aditivo — o racional farmacológico da combinação CagriSema.

A modificação estrutural que prolonga a meia-vida é o que viabiliza a aplicação semanal. As doses avaliadas nos ensaios (0,3 a 4,5 mg) são de protocolo de pesquisa; não há esquema posológico aprovado por bula no Brasil.

O que os estudos mostram

O ensaio de referência em monoterapia é o de fase 2 de dose-finding de Lau e colaboradores.

Lau 2021 (PMID 34798060, Lancet). Ensaio multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo e por comparador ativo (liraglutida 3,0 mg), com 706 participantes com sobrepeso e obesidade recebendo cagrilintida subcutânea semanal em doses de 0,3 a 4,5 mg por 26 semanas. O desfecho primário foi a variação percentual do peso.

Resultados: na dose mais alta (4,5 mg), a cagrilintida reduziu 10,8% do peso (−11,5 kg), contra 3,0% (−3,3 kg) com placebo. Nessa dose, superou marginalmente a liraglutida 3,0 mg (9,0%; −9,6 kg), com diferença estimada de 1,8 ponto percentual (p=0,03). As reduções nas demais doses variaram de 6,0% a 10,8%. Os eventos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, dose-dependentes.

A leitura honesta: é um resultado de fase 2, dose-finding, de 26 semanas. Mostra sinal de eficácia e ajudou a selecionar a dose para o desenvolvimento seguinte — mas não é um ensaio de desfecho de longo prazo, e a maior parte do desenvolvimento clínico posterior migrou para a combinação com semaglutida (CagriSema), e não para a cagrilintida isolada.

Status regulatório no Brasil

ANVISA. A cagrilintida não tem registro na ANVISA e não possui indicação aprovada no Brasil. Permanece em investigação clínica. Não há apresentação comercial registrada.

Enquadramento. Como molécula investigacional, qualquer uso seria sob protocolo de pesquisa. Este conteúdo descreve dados de ensaios, não uma bula vigente, e não constitui recomendação de uso.

Classe GLP-1 e amilina. Vale notar que a cagrilintida não é um agonista de GLP-1 — é um análogo de amilina. A retenção de receita da RDC nº 973/2025 se aplica aos agonistas de GLP-1 registrados; a cagrilintida, por não estar registrada, não se enquadra em bula brasileira.

O que sabemos

  • Cagrilintida é um análogo de ação prolongada da amilina, de aplicação subcutânea semanal, com mecanismo distinto do dos GLP-1.
  • Na fase 2 (Lau 2021, n=706), a dose de 4,5 mg reduziu 10,8% do peso em 26 semanas vs 3,0% com placebo.
  • Nessa dose, superou marginalmente a liraglutida 3,0 mg (diferença de 1,8 ponto, p=0,03).
  • O desenvolvimento clínico principal migrou para a combinação com semaglutida (CagriSema).
  • Não tem registro na ANVISA e permanece investigacional no Brasil.

O que ainda não sabemos

  • Eficácia e segurança de longo prazo da cagrilintida em monoterapia, além das 26 semanas da fase 2.
  • Desfechos cardiovasculares e uso em populações específicas — não há ensaio dedicado publicado com a amplitude dos GLP-1 consolidados.
  • Qual será o papel clínico da cagrilintida isolada, dado que o desenvolvimento avança sobretudo na coformulação.

Por que importa

A cagrilintida representa uma aposta em um mecanismo diferente dentro do campo das terapias metabólicas: em vez de mais um agonista de GLP-1, um análogo de amilina que pode somar-se a eles. Entender essa distinção ajuda a ler corretamente o que vem por aí — a combinação CagriSema é justamente a materialização dessa ideia, e boa parte do interesse pela cagrilintida existe por causa dela.

A pephealth não recomenda nem desaconselha a cagrilintida — ela é uma molécula investigacional, sem registro no Brasil. A função desta ficha é descrever, com transparência sobre o que existe na literatura indexada: o mecanismo de amilina, o resultado real da fase 2 (Lau 2021) com seu enquadramento correto de curto prazo, e o status regulatório atual.

Para a coformulação que concentra o desenvolvimento clínico, ver /peptideos/cagrisema. Para o agonista de GLP-1 com que a cagrilintida é combinada, ver /peptideos/semaglutida. Para o comparador ativo usado no ensaio de fase 2, ver /peptideos/liraglutida.

Perguntas frequentes

O que é a cagrilintida?
+
A cagrilintida (também escrita cagrilintide, código de desenvolvimento AM833) é um análogo de ação prolongada da amilina — hormônio que o pâncreas secreta junto com a insulina depois das refeições. A amilina natural é degradada muito rápido; a cagrilintida foi modificada para durar mais e permitir uma aplicação subcutânea por semana. Ela age por uma via diferente da dos agonistas de GLP-1: atua sobre receptores de amilina e calcitonina no sistema nervoso central, promovendo saciedade. Está em investigação clínica para obesidade e não tem registro na ANVISA.
Para que serve a cagrilintida?
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A cagrilintida vem sendo estudada como tratamento para obesidade e sobrepeso, sozinha ou combinada com semaglutida (a coformulação CagriSema). Em monoterapia, a evidência mais robusta é um ensaio de fase 2 de dose-finding. Como o desenvolvimento clínico principal avança na combinação com semaglutida, o papel da cagrilintida isolada na prática clínica ainda não está definido. Não é um medicamento aprovado no Brasil, e este conteúdo descreve dados de pesquisa, não uma indicação registrada.
Quanto de peso a cagrilintida faz perder?
+
No ensaio de fase 2 (Lau 2021, Lancet, n=706), a dose mais alta de cagrilintida (4,5 mg semanal) reduziu em média 10,8% do peso corporal (cerca de 11,5 kg) ao longo de 26 semanas, contra 3,0% com placebo. Ela também superou marginalmente a liraglutida 3,0 mg (9,0%), com diferença estimada de 1,8 ponto percentual (p=0,03). Vale a leitura honesta: são dados de fase 2, de curto prazo (26 semanas), e não de um ensaio de desfecho de longo prazo como os já publicados para os GLP-1 consolidados.
Qual a diferença entre cagrilintida e semaglutida?
+
As duas agem em eixos hormonais diferentes. A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1, um análogo do GLP-1 humano. A cagrilintida é um análogo de amilina, que atua sobre receptores de amilina e calcitonina — outra via de saciedade. Justamente por serem complementares, a indústria testou combiná-las na coformulação CagriSema. A semaglutida já tem registro ANVISA e ampla evidência de fase 3; a cagrilintida em monoterapia permanece investigacional, com evidência de fase 2.
A cagrilintida é aprovada pela ANVISA?
+
Não. A cagrilintida não tem registro na ANVISA e não possui indicação aprovada no Brasil. Ela permanece em investigação clínica. Qualquer menção a doses ou eficácia neste conteúdo se refere a dados de ensaios (fase 2), não a uma bula vigente. Não há apresentação comercial registrada, e o conteúdo é descritivo e educativo, sem recomendação de uso.

Estudos citados

1 referência
  1. 01
    Lau DCW, Erichsen L, Francisco AM, Satylganova A, le Roux CW, McGowan B, Pedersen SD, Pietiläinen KH, Rubino D, Batterham RL. Once-weekly cagrilintide for weight management in people with overweight and obesity: a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled and active-controlled, dose-finding phase 2 trial · The Lancet, 2021 · RCT de fase 2 multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo e por comparador ativo (liraglutida 3,0 mg), dose-finding — cagrilintida subcutânea semanal 0,3 a 4,5 mg em pessoas com sobrepeso e obesidade, 26 semanas de tratamenton = 706

    Na dose de 4,5 mg, a cagrilintida reduziu 10,8% do peso (−11,5 kg) versus 3,0% (−3,3 kg) com placebo, e superou marginalmente a liraglutida 3,0 mg (9,0%; diferença estimada de 1,8 ponto percentual, p=0,03). As reduções nas demais doses variaram de 6,0% a 10,8%. Evidência de fase 2 (dose-finding), não de desfecho de longo prazo.

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