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Ficha · Mistura peptídica neurotrófica de baixo peso molecular obtida por proteólise enzimática padronizada de proteínas cerebrais porcinas, contendo neuropeptídeos com massa molecular <10 kDa (~5%) e aminoácidos livres (~85%). Medicamento prescrito na Áustria, Federação Russa, China, vários países da Europa Oriental, Ásia e América Latina (não no Brasil) em indicações neurológicas — AVC isquêmico agudo, traumatismo cranioencefálico (TCE), demência vascular, demência de Alzheimer e encefalopatia. Sem registro ANVISA, FDA, EMA centralizado, Health Canada, TGA ou PMDA

Cerebrolysin

Mistura peptídica neurotrófica de hidrolisado cerebral porcino (EVER Pharma, Áustria). Registro em Áustria/Rússia/China/Europa Oriental em AVC, TCE, demência vascular. CARS 2016 e CAPTAIN sustentam recomendação EAN 2021 em reabilitação pós-AVC. Sem ANVISA/FDA/EMA central.

Importação pessoalEvidência média
PorAmanda MatsudaPublicado18 de junho de 2026

Peptídeo encaixa em receptor · sinal celular

Ilustração editorial pephealth — Cerebrolysin

Quick answer

Cerebrolysin é mistura peptídica neurotrófica obtida por proteólise enzimática padronizada de proteínas cerebrais porcinas, composta por neuropeptídeos de baixo peso molecular (<10 kDa, ~5%) e aminoácidos livres (~85%), em concentração padronizada de 215,2 mg de hidrolisado proteico cerebral por mL. O fabricante de referência é a EVER Neuro Pharma GmbH (Unterach am Attersee, Áustria), com histórico de desenvolvimento iniciado nos anos 1940 e refinamento industrial a partir dos anos 1970 (pela EBEWE Pharmaceuticals, antecessora). Código histórico: FPF-1070. Registro regulatório: medicamento prescrito na Áustria (registro nacional), Federação Russa, China, Coreia do Sul, Filipinas, Tailândia, vários países da Europa Oriental (Hungria, Polônia, Romênia, Eslováquia, República Tcheca, Sérvia) e em México, Argentina e outros países da América Latina — não no Brasil. Sem registro ANVISA, FDA, EMA centralizado, Health Canada, TGA ou PMDA em maio/2026. Base de evidência clínica principal: CARS (Muresanu 2016, PMID 26564102) em AVC isquêmico com déficit motor, CASTA (Heiss 2012, PMID 22282884) em AVC agudo na Ásia (endpoint primário negativo, tendência em AVC severo), série CAPTAIN (Poon 2020, PMID 31494820; meta-análise Vester 2021, PMID 33620612) em TCE moderado-severo e Guekht 2011 (PMID 20656516) em demência vascular. O EAN/EFNS guideline 2021 (Beghi e colegas, Eur J Neurol) recomenda Cerebrolysin 30 mL/dia IV por mínimo 10 dias para suporte a reabilitação motora precoce após AVC isquêmico — recomendação não replicada por AHA/ASA, FDA, EMA centralizado ou ANVISA. Manipulação magistral não é tecnicamente aplicável — Cerebrolysin é mistura biológica complexa de origem porcina, não peptídeo sintético, e está fora do escopo da Nota Técnica 200/2025 da ANVISA. Para análise integrada de peptídeos investigados em doença de Alzheimer, ver /posts/peptideos-alzheimer-revisao-clinica.

O que é

Cerebrolysin é mistura peptídica neurotrófica com composição padronizada por especificação industrial: ~5% de peptídeos com massa molecular ≤10 kDa e ~85% de aminoácidos livres, em concentração de 215,2 mg de hidrolisado proteico cerebral por mL de solução para injeção/infusão. Excipientes: hidróxido de sódio e água para injeção.

A matéria-prima é tecido cerebral porcino desengordurado, submetido a proteólise enzimática controlada que gera fração peptídica <10 kDa enriquecida em fragmentos com atividade neurotrófica putativa. A padronização industrial é feita por controle de matéria-prima (origem porcina com vigilância veterinária, controle de risco prional), controle de processo (especificação enzimática, parâmetros de hidrólise) e controle de produto final por perfil biológico (atividade neurotrófica em ensaios celulares padronizados) — não por estrutura química única de molécula definida.

Cerebrolysin não é peptídeo único. É mistura biológica complexa, com perfil de fragmentos peptídicos caracterizado em análise por nanoLC-MS contemporânea identificando centenas de fragmentos com homologia parcial a sequências de proteínas cerebrais conhecidas, incluindo fragmentos de proteínas associadas a fatores neurotróficos endógenos.

Histórico de desenvolvimento. A molécula foi desenvolvida inicialmente na Áustria nos anos 1940. Refinamento de processo industrial ocorreu a partir dos anos 1970 pela EBEWE Pharmaceuticals (Unterach am Attersee, Áustria), posteriormente reorganizada como EVER Neuro Pharma GmbH. O código histórico de identificação é FPF-1070. A empresa atual concentra desenvolvimento, fabricação e distribuição global do produto, com filiais e parcerias em mercados de registro.

Registro regulatório global em maio/2026: medicamento prescrito na Áustria (registro nacional), Federação Russa (registro amplo com indicações em AVC isquêmico, demência, TCE, encefalopatia, transtornos cognitivos pediátricos), China (registro amplo análogo ao russo), Coreia do Sul, Filipinas, Tailândia (registro nacional em Ásia), vários países da Europa Oriental (Hungria, Polônia, Romênia, Eslováquia, República Tcheca, Sérvia — registros nacionais), México, Argentina e outros países da América Latina (não Brasil). Sem registro ANVISA (Brasil), FDA (Estados Unidos), EMA centralizado (UE), Health Canada, TGA (Austrália) ou PMDA (Japão).

Mecanismo de ação

O mecanismo de ação de Cerebrolysin é descrito como neurotrófico, neuroprotetor e neurorrestaurativo — agrupamento de propriedades que distingue cerebrolysin de fármacos peptídicos sintéticos com sítio molecular único. A literatura pré-clínica e clínica caracteriza múltiplos componentes mecanísticos.

Componente 1 — Mimetização parcial de cascatas de fatores neurotróficos

Cerebrolysin contém fragmentos peptídicos com homologia parcial a sequências de fatores neurotróficos endógenos, incluindo:

  • CNTF (ciliary neurotrophic factor) — fator com atividade trófica sobre neurônios motores e neurônios sensoriais
  • NGF (nerve growth factor) — fator clássico com atividade trófica sobre neurônios colinérgicos do prosencéfalo basal e neurônios sensoriais
  • GDNF (glial cell line-derived neurotrophic factor) — fator com atividade trófica sobre neurônios dopaminérgicos
  • BDNF (brain-derived neurotrophic factor) — fator central em plasticidade sináptica, neurogênese e plasticidade afetiva

A hipótese mecanística do fabricante é que fragmentos peptídicos do hidrolisado cerebral, embora não correspondam aos fatores neurotróficos em forma nativa (proteínas inteiras com dobramento tridimensional específico), conservam homologia de sequência parcial suficiente para interação com receptores de fatores neurotróficos ou com cascatas downstream. Essa hipótese é parcialmente sustentada por estudos pré-clínicos de atividade neurotrófica em modelos celulares, e parcialmente contestada por análises analíticas detalhadas que questionam reprodutibilidade de fração peptídica relevante.

Componente 2 — Modulação de plasticidade sináptica e neurogênese

Estudos em modelos roedores de envelhecimento, de doença neurodegenerativa e de lesão cerebral demonstram que cerebrolysin aumenta:

  • Densidade de espinhas dendríticas em neurônios corticais e hipocampais
  • Marcadores de sinaptogênese (sinapsinas, sinaptofisina, PSD-95)
  • Neurogênese adulta no giro denteado hipocampal (proliferação de progenitores neurais, sobrevivência de novos neurônios)

Esse perfil mecanístico é relevante para perfis de uso em demência (vascular, Alzheimer) e em recuperação pós-AVC e pós-TCE — condições em que plasticidade neuronal e capacidade regenerativa são funcionalmente limitantes.

Componente 3 — Neuroproteção em isquemia cerebral

Estudos pré-clínicos em modelos de oclusão da artéria cerebral média (MCAO) em roedores demonstram que pré-tratamento ou tratamento concomitante com cerebrolysin:

  • Reduz volume de infarto em proporção dose-dependente
  • Melhora desfechos comportamentais em testes neurológicos validados em roedores
  • Reduz marcadores de apoptose neuronal (clivagem de caspase-3, fragmentação de DNA)
  • Atenua estresse oxidativo (marcadores de peroxidação lipídica, depleção de glutationa)
  • Modula resposta inflamatória aguda (ativação de microglia, infiltração de leucócitos)

Esse perfil pré-clínico é fundamento da hipótese clínica de uso em AVC isquêmico agudo — investigada em ensaios CARS (Muresanu 2016, PMID 26564102) e CASTA (Heiss 2012, PMID 22282884).

Componente 4 — Modulação de processamento amiloide e tau

Estudos pré-clínicos em modelos transgênicos de doença de Alzheimer (APP/PS1, 3xTg-AD, outros) demonstram que cerebrolysin:

  • Reduz acúmulo de β-amiloide (Aβ) em córtex e hipocampo
  • Reduz hiperfosforilação de tau em neurônios corticais
  • Melhora desfechos cognitivos em testes de memória espacial e de reconhecimento

O mecanismo proposto é distinto da modulação direta da cascata amiloide que é alvo dos anticorpos monoclonais anti-amiloide aprovados (aducanumab, lecanemab — van Dyck 2023, PMID 36449413 (Clarity-AD); donanemab — Sims 2023, PMID 37459141 (TRAILBLAZER-ALZ 2)). Cerebrolysin opera em mecanismos compostos de proteção neuronal e modulação metabólica que indiretamente influenciam acúmulo amiloide. Para análise comparativa integrada, ver /posts/peptideos-alzheimer-revisao-clinica.

Componente 5 — Modulação inflamatória e antiapoptótica

Estudos pré-clínicos caracterizam:

  • Atenuação de neuroinflamação — modulação de polarização de microglia (M1 pró-inflamatória → M2 reparadora), modulação de astrócitos reativos
  • Atenuação de cascatas apoptóticas — modulação de ativação de caspases iniciadoras (caspase-9) e efetoras (caspase-3)
  • Modulação de cascatas redox — atenuação de estresse oxidativo, suporte a sistemas antioxidantes endógenos (glutationa, superóxido dismutase)

Distinção mecanística

A diferença entre cerebrolysin e peptídeos sintéticos únicos (Semax, Cortexin, Selank — ver /peptideos/selank; Noopept — ver /peptideos/noopept) é fundamental para entendimento regulatório e farmacológico:

  • Cerebrolysin: mistura biológica complexa, mecanismo composto (múltiplos componentes peptídicos + aminoácidos livres + fração lipofílica residual), padronização por perfil biológico, fabricação industrial padronizada de origem animal, fora do escopo de manipulação magistral.
  • Peptídeos sintéticos: estrutura química única, mecanismo molecular caracterizado em alvo definido, padronização por estrutura química, fabricação por síntese química, dentro do escopo regulatório de peptídeos sintéticos (RDC 359/2020 CADIFA, NT 200/2025).

A consequência regulatória é que cerebrolysin é avaliada como medicamento biológico de origem natural (categoria análoga a insulinas extrativas pré-recombinantes ou heparinas extrativas), não como medicamento de molécula nova com especificação química única.

O que os estudos mostram

A base de evidência clínica de Cerebrolysin combina RCTs em AVC isquêmico (CARS, CASTA, CARS-2), RCTs em TCE (CAPTAIN I, CAPTAIN II e meta-análise prospectiva), RCT em demência vascular (Guekht 2011) e estudos em demência de Alzheimer. A base é heterogênea em magnitude de efeito, em qualidade metodológica e em populações estudadas.

AVC isquêmico — CARS (Muresanu 2016)

CARS (Cerebrolysin and Recovery After Stroke) — Muresanu, Heiss, Hoemberg, Bajenaru, Vester, Guekht e colegas (Stroke 2016, PMID 26564102). Desenho: RCT prospectivo, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico (Romênia, Polônia e Bulgária), em 208 pacientes em fase aguda de AVC isquêmico com déficit motor de membro superior (paresia da mão). Cerebrolysin 30 mL/dia IV por 21 dias consecutivos, com reabilitação motora padronizada paralela em ambos os braços.

Endpoint primário: ARAT (Action Research Arm Test) no dia 90 — escala validada de função motora de membro superior.

Achados: efeito estatisticamente significativo a favor de Cerebrolysin sobre ARAT no dia 90, tamanho de efeito pequeno-a-médio (Cohen's d ~0,3-0,5). Análise multidimensional de 12 escalas adicionais (NIHSS, mRS, Barthel, FIM, MAS, ARAT-detalhada, MoCA e outras) confirma efeito direcional favorável. Perfil de segurança comparável a placebo.

Limitações: tamanho amostral moderado, follow-up de 90 dias, populações de centro-leste europeu específicas, endpoint primário compósito de função motora. Estudo paralelo CARS-2 (design idêntico) foi conduzido com meta-análise combinada (Bornstein 2018) confirmando efeito sobre ARAT.

Impacto regulatório: junto com a série CAPTAIN em TCE, base para recomendação do EAN/EFNS guideline 2021 (Beghi e colegas, Eur J Neurol) de Cerebrolysin 30 mL/dia IV por mínimo 10 dias para suporte a reabilitação motora precoce após AVC isquêmico — recomendação europeia profissional não replicada por AHA/ASA, FDA, EMA centralizado ou ANVISA.

AVC isquêmico — CASTA (Heiss 2012)

CASTA (Cerebrolysin Acute Stroke Trial Asia) — Heiss, Brainin, Bornstein, Tuomilehto, Hong e colegas (Stroke 2012, PMID 22282884). Desenho: RCT multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo, em 1.070 pacientes com AVC isquêmico agudo em centros da Ásia (China, Hong Kong, Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia). 529 pacientes para Cerebrolysin 30 mL/dia IV por 10 dias; 541 para placebo.

Endpoint primário: desfecho neurológico composto (NIHSS, mRS, Barthel Index) aos 90 dias.

Achados centrais: endpoint primário composto não atingiu significância estatística entre os grupos. Tendência favorável foi observada em subgrupo de pacientes com AVC severo (NIHSS basal ≥12). Perfil de segurança comparável a placebo.

Interpretação regulatória: o desfecho primário negativo de CASTA é dado central na avaliação ocidental — FDA e EMA centralizado não consideram CASTA suficiente para suportar registro em AVC isquêmico agudo. Interpretação do fabricante e de guidelines europeias do leste (Bornstein, Muresanu): heterogeneidade clínica entre populações asiáticas e europeias do leste pode explicar parte da divergência; subgrupo severo permanece interessante. A análise transparente da literatura de Cerebrolysin deve apresentar CASTA como estudo negativo no endpoint primário pré-especificado — distinção fundamental da apresentação seletiva por subgrupos.

TCE moderado-severo — CAPTAIN (Poon 2020 e Vester 2021)

CAPTAIN I (Cerebrolysin and Recovery in Acute Traumatic Brain Injury) — Poon, Matula, Vos, Muresanu, Vester e colegas (Neurol Sci 2020, PMID 31494820). Desenho: RCT prospectivo, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico (Ásia-Pacífico), em 46 pacientes com TCE moderado-severo (GCS 6-12). Cerebrolysin 50 mL/dia IV por 10 dias + 2 ciclos adicionais de 10 mL/dia por 10 dias, vs placebo.

Endpoint primário: avaliação multidimensional de neurorrecuperação (GOS-E, NIHSS, MMSE, CGI-I).

Achados: três desfechos isolados com significância estatística superior em favor de Cerebrolysin; análise multidimensional composta sugere efeito favorável. Tamanho amostral pequeno (46 pacientes) justifica meta-análise com CAPTAIN II.

Meta-análise CAPTAIN (Vester 2021, PMID 33620612): meta-análise prospectiva pré-especificada dos ensaios CAPTAIN I e CAPTAIN II (Muresanu 2020), totalizando 185 pacientes com TCE moderado-severo (GCS 6-12). Achados: efeito multidimensional composto tamanho pequeno-a-médio em favor de Cerebrolysin, com significância estatística no dia 30 e dia 90. Perfil de segurança comparável a placebo.

Limitações: meta-análise de 2 estudos com 185 pacientes (tamanho modesto para meta-análise); endpoint composto multidimensional. Impacto: base de evidência principal para recomendação EAN 2021 em uso de Cerebrolysin como adjuvante a reabilitação motora pós-AVC e pós-TCE — recomendação europeia profissional não replicada por AHA, FDA, EMA centralizado ou ANVISA.

Demência vascular — Guekht 2011

Guekht, Moessler, Novak, Gusev e colegas (J Stroke Cerebrovasc Dis 2011, PMID 20656516). Desenho: RCT multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo, em 242 pacientes com demência vascular. Cerebrolysin 20 mL/dia IV por 4 semanas vs placebo, com avaliação em 24 semanas.

Endpoint primário: ADAS-cog+ (Alzheimer's Disease Assessment Scale-cognitive subscale, versão estendida para demência vascular) e CIBIC+ (Clinician's Interview-Based Impression of Change Plus).

Achados: melhoria significativa em desfechos cognitivos e clínicos compostos. Taxas de resposta: ADAS-cog+ com melhoria ≥4 pontos em 82,1% (Cerebrolysin) vs 52,2% (placebo); CIBIC+ <4 em 24 semanas em 75,3% (Cerebrolysin) vs 37,4% (placebo); resposta combinada em 67,5% vs 27,0%.

Limitações: follow-up de 24 semanas (curto para demência vascular crônica); população russa específica; sem padrão regulatório ocidental contemporâneo para registro em demência vascular.

Impacto regulatório: suporte para registro de Cerebrolysin em demência vascular em jurisdições não-FDA/EMA centralizado (Rússia, China, Áustria, Europa Oriental). FDA e EMA centralizado não têm registro de Cerebrolysin em demência vascular.

Estudos em demência de Alzheimer

Cerebrolysin tem registro russo, austríaco e chinês também em demência de Alzheimer leve-moderada. A base de evidência inclui RCTs anteriores (Ruther 1994, Bae 2000, Alvarez 2006 e outros) com tamanhos amostrais pequenos a médios e resultados modestos em endpoints cognitivos. Atenção: os anticorpos monoclonais anti-amiloide aprovados em mercados ocidentais (aducanumab, lecanemab — Clarity-AD, van Dyck 2023, PMID 36449413; donanemab — TRAILBLAZER-ALZ 2, Sims 2023, PMID 37459141) operam por mecanismo completamente distinto (clearance imunomediado de placas amiloides cerebrais) e têm base de evidência regulatória ocidental aprovada (FDA, com critérios específicos de uso). Cerebrolysin não é equivalente nem alternativa direta a essas terapias em Alzheimer. Para análise integrada, ver /posts/peptideos-alzheimer-revisao-clinica.

O que não existe na literatura ocidental em maio/2026

  • NDA/BLA submetida ao FDA para Cerebrolysin em qualquer indicação, com divulgação pública.
  • Procedimento centralizado pela EMA para Cerebrolysin em qualquer indicação.
  • Registro Health Canada, TGA (Austrália) ou PMDA (Japão) para Cerebrolysin.
  • Recomendação AHA/ASA para Cerebrolysin em AVC isquêmico em guidelines norte-americanos.

A ausência de programa regulatório ocidental ativo de empresa farmacêutica licenciada com submissão divulgada publicamente, em 50+ anos de existência da molécula, é fator considerado por agências reguladoras ocidentais na avaliação de dossiê — não como julgamento sobre o mérito biológico da intervenção, mas como característica de translação regulatória não materializada.

Efeitos adversos

O perfil de segurança de Cerebrolysin caracterizado em literatura clínica publicada (CARS, CASTA, CAPTAIN, Guekht 2011, ECOMPASS) é descrito como comparável a placebo em RCTs principais.

Eventos adversos descritos em literatura clínica

  • Eventos comuns (frequência tipicamente 1-10%): cefaleia, tontura, sensação de calor (flushing), hiperidrose, agitação leve, reações no local de injeção (irritação, dor à infusão intramuscular ou venosa, eritema local).
  • Eventos pouco comuns (0,1-1%): náuseas, desconforto epigástrico, palpitações, hipersensibilidade local.
  • Eventos raros (<0,1%): reações alérgicas sistêmicas (incluindo casos raros de anafilaxia descritos em farmacovigilância de mercados de registro), reações cutâneas (urticária, rash), elevação transitória de transaminases hepáticas.

Considerações específicas

  • (a) Estado epiléptico ativo — contraindicação relativa em bula europeia oriental, dada incerteza sobre potencial de modulação de excitabilidade neuronal por componentes do hidrolisado. Literatura clínica disponível não documenta sinal consistente de aumento de crises em populações tratadas, mas atenção em populações com história de epilepsia ativa.
  • (b) Insuficiência renal grave — contraindicação relativa em bula russa, dada eliminação parcialmente renal de aminoácidos livres componentes da formulação (~85% da massa). Sem caracterização farmacocinética detalhada em insuficiência renal em padrão regulatório ocidental.
  • (c) Gravidez e lactação — sem dados de segurança em padrões regulatórios ocidentais (FDA/EMA centralizado).
  • (d) Diátese hemorrágica grave — atenção em uso intravenoso de volumes maiores (infusão de 30 mL ou mais).
  • (e) Restrições alimentares e religiosas — origem porcina (hidrolisado cerebral suíno) pode ser relevante para pacientes com restrições religiosas (judaísmo ortodoxo, islã) ou éticas (certos veganismos). Considerar discussão informada com paciente quando aplicável.
  • (f) Risco prional teórico — historicamente discutido para hidrolisados de tecido cerebral animal. Fabricante atual (EVER Neuro Pharma) implementa controles de matéria-prima com vigilância veterinária para fontes de tecido cerebral porcino. Risco residual considerado baixo em documentação regulatória austríaca e europeia oriental, mas a categoria de produto não é equivalente em risco-benefício a peptídeos sintéticos com cadeia de fabricação química.

Interações farmacológicas

Dado perfil composto (mistura peptídica + aminoácidos livres) e via parenteral, atenção em uso concomitante com:

  • Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, imipramina) — perfil de interação não caracterizado em padrão FDA/EMA centralizado
  • Inibidores de monoamina-oxidase (IMAO) — atenção teórica em modulação de neurotransmissão monoaminérgica
  • Antipsicóticos (haloperidol, risperidona, olanzapina) — atenção em modulação de neurotransmissão central
  • Anticonvulsivantes — atenção em pacientes com epilepsia ativa, dado componente teórico de modulação de excitabilidade neuronal
  • Aminoácidos parenterais em nutrição — Cerebrolysin contém ~85% de aminoácidos livres; em pacientes recebendo nutrição parenteral com aminoácidos, considerar contribuição adicional

Limitação central

Caracterização de perfil de eventos adversos predominantemente em populações de RCTs com follow-up curto (semanas a poucos meses) em populações de centro-leste europeu, asiático-pacífico e russas. Perfil de uso crônico em populações ocidentais sob padrões de farmacovigilância FDA/EMA centralizado não está estabelecido.

Status regulatório no Brasil

ANVISA — sem registro. Em maio/2026, Cerebrolysin não tem registro ANVISA como medicamento. Não há produto industrializado contendo Cerebrolysin registrado no Brasil sob qualquer indicação terapêutica. Não há protocolo clínico de programa público de saúde (SUS) ou de saúde suplementar que contemple Cerebrolysin para qualquer indicação.

Importação por pessoa física — RDC 28/2011. A importação por pessoa física de medicamento no Brasil é regulada pela RDC 28/2011 da ANVISA — permite importação para uso individual, sob prescrição médica, em quantidade compatível com tratamento individual (geralmente até 6 meses), com orientação médica formal e sob declaração de uso pessoal. Material vendido em plataformas digitais como "peptídeo neurotrófico", "cerebrolysin para AVC" ou "cerebrolysin para memória" tipicamente não atende esses critérios — comercializado sem prescrição médica e sem orientação médica formal documentada. Importação fora desses critérios configura infração sanitária.

Manipulação magistral — não aplicável tecnicamente. Cerebrolysin não é manipulável em farmácia magistral no Brasil. Motivo técnico: Cerebrolysin é mistura biológica complexa de hidrolisado cerebral porcino, obtida por processo industrial de proteólise enzimática padronizada a partir de tecido cerebral suíno desengordurado — não é molécula peptídica sintética. A composição depende de processo industrial específico que não é replicável em ambiente de farmácia de manipulação. Motivo regulatório: a Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA estabelece critérios para manipulação magistral de peptídeos sintéticos com cadeia regulatória estabelecida. Cerebrolysin não está no escopo dessa nota técnica — não é peptídeo sintético, não tem CADIFA sob RDC 359/2020, e a categoria regulatória apropriada (medicamento biológico de origem natural) tem cadeia regulatória própria distinta.

Comércio direto ao consumidor. Comércio direto em redes sociais, marketplaces e farmácias sem prescrição configura infração sanitária. Material com claims de "peptídeo para memória", "tratamento alternativo para AVC", "cerebrolysin para Alzheimer" ou "neuroprotetor injetável" para consumidor brasileiro opera fora do regime regulatório vigente.

WADA (atletas). Cerebrolysin não consta nominalmente na Lista de Substâncias Proibidas WADA 2026 em maio/2026. Por se tratar de mistura biológica complexa com componentes não totalmente caracterizados, atletas competitivos devem confirmar com a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) — adicionalmente, produtos vendidos em mercado paralelo podem ser fonte de contaminação cruzada com substâncias proibidas não declaradas em rótulo.

O que sabemos

  • Cerebrolysin é mistura peptídica neurotrófica de hidrolisado cerebral porcino padronizado, com composição ~5% peptídeos (<10 kDa) + ~85% aminoácidos livres, fabricada pela EVER Neuro Pharma (Áustria) desde os anos 1970.
  • Tem registro nacional na Áustria, Rússia, China, Europa Oriental, Coreia do Sul, Filipinas, Tailândia, México, Argentina e outros mercados — não no Brasil, não FDA, não EMA centralizado, não Health Canada, não TGA, não PMDA.
  • Base de evidência clínica principal: CARS (Muresanu 2016, PMID 26564102) em AVC isquêmico com déficit motor (positivo, efeito pequeno-a-médio); CASTA (Heiss 2012, PMID 22282884) em AVC agudo na Ásia (endpoint primário negativo, tendência em subgrupo severo); série CAPTAIN (Poon 2020, PMID 31494820; meta-análise Vester 2021, PMID 33620612) em TCE moderado-severo (positiva, efeito composto pequeno-a-médio); Guekht 2011 (PMID 20656516) em demência vascular (positiva em desfecho cognitivo composto).
  • Guideline EAN/EFNS 2021 (Beghi e colegas) recomenda Cerebrolysin 30 mL/dia IV por mínimo 10 dias para suporte a reabilitação motora precoce após AVC isquêmico. Recomendação não replicada por AHA/ASA, FDA, EMA centralizado ou ANVISA.
  • Manipulação magistral não é tecnicamente aplicável — Cerebrolysin é mistura biológica complexa, fora do escopo da NT 200/2025 (que opera sobre peptídeos sintéticos).

O que ainda não sabemos

  • Se Cerebrolysin tem eficácia clínica suficiente para suportar registro FDA, EMA centralizado ou ANVISA — em 50+ anos de existência da molécula, programa regulatório ocidental ativo de empresa licenciada com submissão pública não foi materializado.
  • Perfil de eventos adversos em uso crônico em populações ocidentais caracterizado em sistemas de farmacovigilância FDA/EMA contemporâneos.
  • Perfil farmacocinético detalhado em insuficiência renal e hepática, em populações ocidentais, em gravidez e lactação.
  • Quando — se — algum programa de desenvolvimento clínico ocidental fase 3 com endpoints regulatórios contemporâneos será divulgado publicamente.

Por que importa

Cerebrolysin é caso paradigmático de medicamento com base de evidência clínica heterogênea (RCTs positivos em algumas indicações e populações, RCTs com endpoint primário negativo em outras), recomendação de guideline profissional regional (EAN/EFNS europeu para reabilitação motora pós-AVC) e registros regulatórios em jurisdições não-ocidentais centrais (Áustria nacional, Rússia, China, Europa Oriental, Ásia, América Latina excluindo Brasil), mas sem registro pelas agências reguladoras ocidentais de referência (FDA, EMA centralizado, ANVISA) em 50+ anos de existência.

Para o leitor brasileiro em 2026, a informação útil é regulatória, científica e prática. Cerebrolysin não tem registro ANVISA como medicamento e não é manipulável em farmácia magistral (motivos técnicos e regulatórios). Importação por pessoa física requer prescrição médica e atendimento aos critérios da RDC 28/2011. A literatura clínica de suporte é predominantemente de centros europeus do leste, asiático-pacíficos e russos, com base de evidência moderada e heterogênea em RCTs principais. Recomendações profissionais variam por região — EAN/EFNS europeu recomenda em reabilitação motora pós-AVC; AHA/ASA norte-americano não recomenda.

Em paralelo, Cerebrolysin tem circulação documentada em plataformas brasileiras sob designação de "peptídeo neurotrófico", "cerebrolysin para AVC", "cerebrolysin para memória" ou "neuroprotetor injetável" — circulação que mistura: (a) consumidores informados sobre o status regulatório que optam por importação sob RDC 28/2011 com prescrição médica; (b) consumidores não informados que assumem que produto vendido como "peptídeo" é regulatoriamente análogo a outros medicamentos ou suplementos, o que não é o caso; (c) consumidores expostos a riscos clássicos de mercado paralelo (discrepância de conteúdo, cadeia de armazenamento e transporte inadequada, ausência de orientação médica formal); (d) consumidores influenciados por material promocional que mistura recomendação europeia profissional com aprovação regulatória ocidental, distinção crítica para análise informada.

A pephealth não recomenda nem desaconselha o uso de Cerebrolysin. A função desta ficha é descrever o estado regulatório global e a base científica de Cerebrolysin em maio/2026 — distinguindo claramente literatura clínica de suporte ao registro em jurisdições não-FDA/EMA centralizado, guideline profissional EAN 2021, manipulação não-aplicável, importação RDC 28/2011 e claims de mercado paralelo. Para análise integrada de peptídeos investigados em doença de Alzheimer (incluindo cerebrolysin em contexto comparativo com anticorpos monoclonais anti-amiloide aprovados), ver /posts/peptideos-alzheimer-revisao-clinica. Para outros peptídeos de cognição com perfis regulatórios distintos, ver /peptideos/noopept, /peptideos/selank, /posts/semax-vs-noopept-comparativo.

Perguntas frequentes

O que é Cerebrolysin e quem o fabrica?
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Cerebrolysin é **mistura peptídica neurotrófica** obtida por **proteólise enzimática padronizada de proteínas cerebrais porcinas desengorduradas**. A composição é definida por especificação de fabricação: ~**5% de peptídeos** com massa molecular ≤10 kDa e ~**85% de aminoácidos livres**, em concentração padronizada de **215,2 mg de hidrolisado proteico cerebral por mL** de solução injetável. O fabricante de referência é a **EVER Neuro Pharma GmbH** (Unterach am Attersee, Áustria) — empresa derivada da **EBEWE Pharmaceuticals**, que iniciou desenvolvimento da molécula nos anos 1940 e refinou processo industrial a partir dos anos 1970. Código histórico: **FPF-1070**. Cerebrolysin **não é peptídeo único** — é mistura biológica complexa, com perfil padronizado por controle de fabricação e ensaios de atividade neurotrófica em modelos celulares. **Registro regulatório**: medicamento prescrito na **Áustria** (registro nacional, não centralizado EMA), **Federação Russa**, **China**, **Coreia do Sul**, **Filipinas**, **Tailândia**, vários países da **Europa Oriental** (Hungria, Polônia, Romênia, Eslováquia, República Tcheca, Sérvia) e em **México**, **Argentina** e outros países da América Latina (não no Brasil). **Sem registro ANVISA, FDA, EMA centralizado, Health Canada, TGA, PMDA** em maio/2026.
Qual é o mecanismo de ação de Cerebrolysin?
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O mecanismo de ação de Cerebrolysin é descrito como **neurotrófico, neuroprotetor e neurorrestaurativo** — agrupamento de propriedades que distingue cerebrolysin de fármacos peptídicos sintéticos com sítio molecular único. **Componente 1 — modulação de cascatas de fatores neurotróficos.** Cerebrolysin contém fragmentos peptídicos com **homologia parcial a sequências de fatores neurotróficos endógenos** (NGF, BDNF, CNTF, GDNF). O fabricante associa atividade biológica do produto à mimetização parcial de ação desses fatores neurotróficos — com o entendimento de que cerebrolysin **não contém esses fatores em forma nativa** (proteínas inteiras), mas fragmentos peptídicos com homologia de sequência. **Componente 2 — modulação de plasticidade sináptica e neurogênese.** Estudos em modelos roedores demonstram aumento de marcadores de sinaptogênese e de neurogênese adulta hipocampal. **Componente 3 — neuroproteção em isquemia cerebral.** Modelos de oclusão da artéria cerebral média (MCAO) em roedores demonstram redução de volume de infarto e melhoria de desfechos comportamentais. **Componente 4 — modulação de processamento amiloide e tau.** Modelos transgênicos de Alzheimer demonstram redução de β-amiloide e hiperfosforilação tau, em mecanismo distinto do dos anticorpos monoclonais anti-amiloide aprovados (aducanumab, lecanemab, donanemab — ver [/posts/peptideos-alzheimer-revisao-clinica](/blog/peptideos-alzheimer-revisao-clinica)). **Componente 5 — modulação inflamatória e antiapoptótica.** Atenuação de neuroinflamação (microglia, astrócitos reativos) e de cascatas apoptóticas (caspases). **Distinção mecanística**: cerebrolysin é mistura biológica complexa com mecanismo composto; peptídeos sintéticos únicos (Semax, Cortexin, Selank — ver [/peptideos/selank](/peptideos/selank)) têm estrutura química única e mecanismo molecular em alvo definido. Cerebrolysin é avaliada regulatoriamente como **medicamento biológico de origem natural**, não como medicamento de molécula química nova.
Qual é o status regulatório de Cerebrolysin no Brasil?
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Em maio/2026, Cerebrolysin **não tem registro ANVISA** como medicamento. Não há produto industrializado contendo Cerebrolysin registrado no Brasil sob qualquer indicação terapêutica. Não há protocolo clínico de programa público de saúde (SUS) que contemple Cerebrolysin para qualquer indicação. **Importação por pessoa física** é regulada pela **RDC 28/2011** da ANVISA — permite importação de medicamento sob prescrição médica em quantidade compatível com tratamento individual (geralmente até 6 meses), com orientação médica formal e sob declaração de uso pessoal. Material vendido em plataformas digitais como 'peptídeo neurotrófico', 'cerebrolysin para AVC' ou 'cerebrolysin para memória' tipicamente **não atende esses critérios** — comercializado sem prescrição médica e sem orientação médica formal documentada. Importação fora desses critérios configura **infração sanitária**. **Manipulação magistral**: Cerebrolysin **não é manipulável tecnicamente** em farmácia magistral — é mistura biológica complexa de origem porcina com fabricação por processo industrial padronizado, não molécula peptídica sintética. A **Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA** (que estabelece critérios para manipulação magistral de peptídeos) **não se aplica diretamente a Cerebrolysin** — opera sobre IFAs peptídicos sintéticos com cadeia regulatória estabelecida. Cerebrolysin permanece **fora do escopo de manipulação magistral brasileira**.
Qual o status regulatório global de Cerebrolysin?
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**Áustria**: Cerebrolysin tem **registro nacional** na Áustria (país de origem da molécula e do fabricante EVER Neuro Pharma) — registro não centralizado pela EMA. **Federação Russa**: registro russo amplo, com indicações em AVC isquêmico, encefalopatia discirculatória, demência (incluindo Alzheimer e vascular), TCE, mielopatia, transtornos cognitivos e do desenvolvimento em crianças, neurite óptica e outras condições neurológicas. **China**: registro chinês com indicações análogas. **Europa Oriental**: registro nacional em Hungria, Polônia, Romênia, Eslováquia, República Tcheca, Sérvia. **Coreia do Sul, Filipinas, Tailândia**: registro nacional. **México, Argentina, vários países da América Latina** (não Brasil): registro nacional. **Estados Unidos**: **FDA não aprovou** Cerebrolysin como medicamento. Não há submissão de NDA/BLA divulgada publicamente para programa de desenvolvimento ocidental. **União Europeia (EMA centralizado)**: a EMA **não aprovou** Cerebrolysin via procedimento centralizado. Comercialização opera por registros nacionais isolados em alguns Estados-Membros (Áustria) e em países do espaço europeu não centralizado. **Health Canada, TGA (Austrália), PMDA (Japão)**: sem registro. **Guidelines profissionais**: o **European Academy of Neurology and European Federation of Neurorehabilitation Societies guideline** (Beghi e colegas, Eur J Neurol 2021) recomenda Cerebrolysin 30 mL/dia IV por mínimo 10 dias para suporte a reabilitação motora precoce após AVC isquêmico — recomendação com base em meta-análise de ensaios CARS e CAPTAIN. **Atenção**: essa recomendação europeia profissional **não é equivalente a aprovação regulatória pela EMA centralizado**; é guideline de prática profissional. AHA/ASA (American Heart Association/American Stroke Association) **não** inclui Cerebrolysin em recomendações de tratamento de AVC isquêmico em guidelines norte-americanos.
O que dizem os ensaios clínicos publicados sobre eficácia de Cerebrolysin?
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A base de evidência clínica de Cerebrolysin combina **RCTs em AVC isquêmico** (CARS, CASTA, CARS-2), **RCTs em TCE** (CAPTAIN I, CAPTAIN II e meta-análise prospectiva), **RCT em demência vascular** (Guekht 2011) e **estudos em demência de Alzheimer**. **AVC isquêmico — CARS (Muresanu 2016, PMID 26564102)**: RCT prospectivo, duplo-cego, controlado por placebo em 208 pacientes em fase aguda de AVC isquêmico com déficit motor de membro superior. Cerebrolysin 30 mL/dia IV por 21 dias + reabilitação padronizada vs placebo + reabilitação. **Achados**: efeito significativo a favor de Cerebrolysin sobre ARAT (Action Research Arm Test) no dia 90, tamanho pequeno-a-médio; perfil de segurança comparável a placebo. **AVC isquêmico — CASTA (Heiss 2012, PMID 22282884)**: maior RCT em AVC isquêmico agudo (1.070 pacientes na Ásia). **Endpoint primário composto não atingiu significância estatística**; tendência favorável em subgrupo de AVC severo (NIHSS basal ≥12). **TCE — CAPTAIN I (Poon 2020, PMID 31494820) e meta-análise CAPTAIN (Vester 2021, PMID 33620612)**: 185 pacientes em meta-análise, TCE moderado-severo. **Efeito multidimensional composto tamanho pequeno-a-médio** com significância estatística no dia 30 e dia 90. **Demência vascular — Guekht 2011 (PMID 20656516)**: 242 pacientes, follow-up 24 semanas. **Melhoria significativa em ADAS-cog+ e CIBIC+** com taxa de resposta substancialmente maior. **Interpretação integrada**: base de evidência **moderada e heterogênea** — efeitos pequeno-a-médios em populações específicas (centro-leste europeu, asiático-pacífico), com endpoint primário negativo em CASTA. Esse perfil é insuficiente para suportar registro pelo FDA/EMA centralizado, mas sustenta guidelines profissionais europeias (EAN 2021) e registros em jurisdições não-FDA/EMA.
Cerebrolysin é seguro? Quais os principais eventos adversos?
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O perfil de segurança de Cerebrolysin caracterizado em literatura clínica publicada (CARS, CASTA, CAPTAIN, ECOMPASS) é descrito como **comparável a placebo** em RCTs principais. **Eventos adversos descritos**: **(1) Eventos comuns** — cefaleia, tontura, sensação de calor, hiperidrose, agitação leve, reações no local de injeção (irritação, dor à infusão intramuscular ou venosa); **(2) Eventos pouco comuns** — náuseas, desconforto epigástrico, palpitações; **(3) Eventos raros** — reações alérgicas (incluindo casos raros de anafilaxia descritos em farmacovigilância), atenção em pacientes com história de hipersensibilidade a proteínas de origem porcina ou a hidrolisados peptídicos. **Considerações específicas**: **(a) Estado epiléptico ativo** — contraindicação relativa em bula europeia oriental, dada incerteza sobre potencial de modulação de excitabilidade neuronal por componentes do hidrolisado; literatura clínica disponível não documenta sinal consistente de aumento de crises, mas atenção em populações com história de epilepsia. **(b) Insuficiência renal grave** — contraindicação relativa em bula russa, dada eliminação parcialmente renal de aminoácidos livres componentes da formulação. **(c) Gravidez e lactação** — sem dados de segurança em padrões regulatórios ocidentais. **(d) Diátese hemorrágica grave** — atenção em uso intravenoso de volumes maiores (infusão de 30 mL ou mais). **(e) Restrições alimentares/religiosas** — origem porcina pode ser relevante (judaísmo ortodoxo, islã, veganismo). **Limitação central**: caracterização de perfil de eventos adversos predominantemente em populações de RCTs com follow-up curto (semanas a poucos meses); perfil de uso crônico em populações ocidentais sob padrões de farmacovigilância FDA/EMA contemporâneos **não está estabelecido**. Para análise integrada de peptídeos investigados em Alzheimer (incluindo cerebrolysin), ver [/posts/peptideos-alzheimer-revisao-clinica](/blog/peptideos-alzheimer-revisao-clinica).
Cerebrolysin pode ser manipulada em farmácia magistral no Brasil?
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**Não.** Cerebrolysin **não é manipulável em farmácia magistral** no Brasil — por motivos técnicos, regulatórios e práticos. **Motivo técnico**: Cerebrolysin é **mistura biológica complexa de hidrolisado cerebral porcino**, obtida por processo industrial de proteólise enzimática padronizada a partir de tecido cerebral suíno desengordurado. **Não é molécula peptídica sintética** (como Selank, Semax, Noopept, BPC-157, MOTS-c, epitalon ou outros peptídeos sintéticos). A composição depende de processo industrial específico (padronização da matéria-prima animal, controle da hidrólise enzimática, especificação por perfil biológico em ensaios celulares) que **não é replicável em ambiente de farmácia de manipulação**. **Motivo regulatório**: a **Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA** estabelece critérios para manipulação magistral de peptídeos — opera sobre **IFAs peptídicos sintéticos com cadeia regulatória estabelecida** (com CADIFA sob RDC 359/2020 ou critérios equivalentes). Cerebrolysin **não está no escopo dessa nota técnica** — não é peptídeo sintético, não tem CADIFA, e a categoria regulatória apropriada para Cerebrolysin (medicamento biológico de origem natural) tem cadeia regulatória própria distinta da de peptídeos sintéticos. **Motivo prático**: a obtenção de matéria-prima cerebral porcina padronizada, com vigilância veterinária e controle de risco prional, **só é realizada por fabricantes industriais** com infraestrutura específica (EVER Neuro Pharma na Áustria; fabricantes correspondentes em China e outros mercados). **Material vendido em plataformas digitais brasileiras** como 'cerebrolysin manipulado' ou 'cerebrolysin para AVC' tipicamente **opera fora do regime regulatório** vigente — comercialização sem prescrição, sem cadeia rastreável e sem aval ANVISA configura **infração sanitária**.
Há ensaios clínicos ocidentais ativos para Cerebrolysin?
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Programas de desenvolvimento clínico de Cerebrolysin estão historicamente concentrados em **Europa Oriental, Áustria, China e Ásia-Pacífico** — sob coordenação do fabricante (EVER Neuro Pharma) e de redes de investigadores associadas (Muresanu, Heiss, Bornstein, Guekht, Poon, Vester e outros). **Submissão de NDA/BLA ao FDA**: não há programa divulgado publicamente para submissão regulatória ocidental ao FDA em maio/2026. **Submissão centralizada à EMA**: não há programa divulgado publicamente para procedimento centralizado europeu. **Ensaios em andamento em ClinicalTrials.gov em maio/2026**: registros incluem CEREHETIS (Cerebrolysin como adjuvante a terapia de reperfusão em AVC isquêmico — análise post hoc divulgada em 2024); CLINCH (Cerebrolysin em hemorragia intracerebral primária — estudo piloto); CAPTAIN III (Cerebrolysin em TCE moderado-severo — extensão da série CAPTAIN, em recrutamento); estudos de menor escala em afasia (ESCAS), epilepsia pós-AVC, encefalopatia pediátrica. **Predominância de centros não-FDA**: a maioria absoluta dos centros recrutadores está em Europa Oriental, Áustria, Ásia-Pacífico e Rússia — não em centros norte-americanos sob jurisdição FDA. **Implicação regulatória**: a ausência de programa de desenvolvimento ocidental ativo (FDA, EMA centralizado, Health Canada) sustentado por empresa farmacêutica licenciada com submissão divulgada publicamente é fator considerado por agências reguladoras ocidentais na avaliação de dossiê. Em 50+ anos de existência da molécula, configuração regulatória ocidental permanece **não materializada**. Para análise de outros peptídeos de cognição com perfil regulatório distinto, ver [/peptideos/noopept](/peptideos/noopept), [/peptideos/selank](/peptideos/selank) e [/posts/semax-vs-noopept-comparativo](/blog/semax-vs-noopept-comparativo).

Estudos citados

6 referências
  1. 01
    Muresanu DF, Heiss WD, Hoemberg V, Bajenaru O, Popescu CD, Vester JC, Rahlfs VW, Doppler E, Meier D, Moessler H, Guekht A. Cerebrolysin and Recovery After Stroke (CARS): A Randomized, Placebo-Controlled, Double-Blind, Multicenter Trial · Stroke, 2016 · RCT prospectivo, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico, em pacientes em fase aguda de AVC isquêmico com déficit motor do membro superiorn = 208

    Publicado em Stroke vol 47, pp 151-159 (janeiro/2016). Trabalho coordenado por Dafin F. Muresanu (Universidade de Medicina e Farmácia Iuliu Haţieganu, Cluj-Napoca, Romênia) com co-autoria de Wolf-Dieter Heiss (Max Planck Institute for Neurological Research, Colônia, Alemanha), Volker Hoemberg, Ovidiu Bajenaru, Johannes C. Vester, Alla Guekht e colegas. Estudo pedra-angular do registro de Cerebrolysin como adjuvante a reabilitação motora pós-AVC isquêmico. **Achados**: efeito estatisticamente significativo a favor de Cerebrolysin sobre ARAT no dia 90 (efeito tamanho pequeno-a-médio); perfil de segurança comparável a placebo. **Limitações**: tamanho amostral moderado, follow-up de 90 dias, populações de pacientes específicas (centro-leste europeu), endpoint primário compósito de função motora. **Sequência**: estudo CARS-2 (paralelo, design idêntico) com meta-análise combinada (Bornstein 2018, Neurol Sci) confirma efeito sobre ARAT. **Impacto regulatório**: junto com CAPTAIN, base para recomendação do Guia EAN 2021 (Beghi e colegas, Eur J Neurol).

    ensaio clínicoPMID 26564102DOI
  2. 02
    Heiss WD, Brainin M, Bornstein NM, Tuomilehto J, Hong Z; Cerebrolysin Acute Stroke Treatment in Asia (CASTA) Investigators. Cerebrolysin in patients with acute ischemic stroke in Asia: results of a double-blind, placebo-controlled randomized trial · Stroke, 2012 · RCT multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo, em pacientes com AVC isquêmico agudo em centros da Ásian = 1.070

    Publicado em Stroke vol 43, pp 630-636 (março/2012). CASTA (Cerebrolysin Acute Stroke Trial Asia) — maior RCT de Cerebrolysin em AVC isquêmico agudo. **Achados**: endpoint primário composto **não atingiu significância estatística** entre os grupos; **tendência favorável** foi observada em subgrupo de pacientes com AVC severo (NIHSS basal ≥12). **Limitações relevantes**: o desfecho primário negativo é dado central na avaliação regulatória ocidental — FDA e EMA centralizado não consideram CASTA suficiente para suportar registro. **Interpretação do fabricante e de guidelines europeias do leste** (Bornstein, Muresanu): heterogeneidade clínica entre populações asiáticas e europeias do leste pode explicar parte da divergência; subgrupo severo permanece interessante. **Implicação**: CASTA é peça central da literatura de Cerebrolysin, mas o desfecho primário negativo deve ser apresentado com transparência — não é estudo positivo simples.

    ensaio clínicoPMID 22282884DOI
  3. 03
    Poon W, Matula C, Vos PE, Muresanu DF, von Steinbüchel N, von Wild K, Hömberg V, Wang E, Lee TMC, Strilciuc S, Vester JC. Safety and efficacy of Cerebrolysin in acute brain injury and neurorecovery: CAPTAIN I—a randomized, placebo-controlled, double-blind, Asian-Pacific trial · Neurological Sciences, 2020 · RCT prospectivo, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico (Ásia-Pacífico), em pacientes com TCE moderado-severon = 46

    Publicado em Neurol Sci vol 41, pp 281-293 (fevereiro/2020). CAPTAIN I (Cerebrolysin and Recovery in Acute Traumatic Brain Injury) — primeiro RCT da série CAPTAIN, em centros da Ásia-Pacífico. **Achados**: três desfechos isolados com significância estatística estatística superior em favor de Cerebrolysin; análise multidimensional composta sugere efeito favorável. **Limitações**: tamanho amostral pequeno (46 pacientes), justificando necessidade de meta-análise com CAPTAIN II (Muresanu 2020, Neurol Sci) e ECOMPASS para confirmação. **Impacto**: peça inicial do dossiê CAPTAIN que sustentou recomendação EAN 2021 para Cerebrolysin como adjuvante em reabilitação motora pós-AVC (Beghi 2021).

    ensaio clínicoPMID 31494820DOI
  4. 04
    Vester JC, Buzoianu AD, Florian SI, Hömberg V, Kim SH, Lee TMC, Matula C, Poon WS, Sandesc D, von Steinbüchel N, Strilciuc S, von Wild K, Vos PE, Muresanu D. Cerebrolysin after moderate to severe traumatic brain injury: prospective meta-analysis of the CAPTAIN trial series · Neurological Sciences, 2021 · Meta-análise prospectiva de dois RCTs (CAPTAIN I e CAPTAIN II) — design pré-especificado de combinaçãon = 185

    Publicado em Neurol Sci vol 42, pp 4531-4541 (novembro/2021). Meta-análise prospectiva pré-especificada dos ensaios CAPTAIN I (Poon 2020, PMID 31494820) e CAPTAIN II (Muresanu 2020, PMID 31897941). **Achados**: efeito multidimensional composto tamanho pequeno-a-médio em favor de Cerebrolysin, com significância estatística no dia 30 e dia 90. Perfil de segurança comparável a placebo. **Limitações**: meta-análise de 2 estudos com 185 pacientes (tamanho modesto para meta-análise); endpoint composto multidimensional. **Impacto**: base de evidência principal para recomendação do Guia EAN 2021 (Beghi e colegas, Eur J Neurol) em uso de Cerebrolysin como adjuvante a reabilitação motora pós-AVC e pós-TCE em populações europeias e asiático-pacíficas — recomendação não replicada por FDA, EMA centralizado ou ANVISA.

    meta-análisePMID 33620612DOI
  5. 05
    Guekht AB, Moessler H, Novak PH, Gusev EI; Cerebrolysin Investigators. Cerebrolysin in vascular dementia: improvement of clinical outcome in a randomized, double-blind, placebo-controlled multicenter trial · Journal of Stroke and Cerebrovascular Diseases, 2011 · RCT multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo, em pacientes com demência vascularn = 242

    Publicado em J Stroke Cerebrovasc Dis em 2011. Trabalho coordenado por Alla B. Guekht (Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, Russian State Medical University, Moscou) com Moessler, Novak e Gusev. **Achados**: melhoria significativa em desfechos cognitivos e clínicos compostos; taxas de resposta significativamente maiores no grupo Cerebrolysin (ADAS-cog+ melhoria ≥4 pontos: 82,1% vs 52,2%; CIBIC+ <4 em 24 semanas: 75,3% vs 37,4%). **Limitações**: follow-up de 24 semanas (curto para demência vascular crônica); população russa específica; sem padrão regulatório ocidental contemporâneo para registro em demência vascular. **Impacto regulatório**: suporte para registro de Cerebrolysin em demência vascular em jurisdições não-FDA/EMA (Rússia, China, Áustria, Europa Oriental).

    ensaio clínicoPMID 20656516DOI
  6. 06
    Agência Nacional de Vigilância Sanitária. ANVISA — RDC 28/2011 (importação por pessoa física) e Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA · Diário Oficial da União, 2025 · Atos normativos regulatóriosn = 0

    Cerebrolysin não tem registro ANVISA como medicamento no Brasil. Importação por pessoa física é regulada pela RDC 28/2011 — requer prescrição médica, quantidade compatível com tratamento individual e orientação médica formal. Material vendido em plataformas digitais sem prescrição configura infração sanitária. A Nota Técnica 200/2025 (manipulação magistral de peptídeos) **não se aplica diretamente a Cerebrolysin** — Cerebrolysin é mistura biológica complexa de hidrolisado cerebral porcino, não peptídeo sintético, e portanto fora do escopo técnico da NT 200/2025, que opera sobre IFAs peptídicos sintéticos. **Manipulação magistral de Cerebrolysin não é tecnicamente aplicável** no contexto regulatório brasileiro.

    regulatório

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