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Ficha · Dipeptídeo sintético com atividade nootrópica (N-fenilacetil-L-prolilglicina etil éster, GVS-111, Omberacetam) — análogo peptídico do piracetam (racetam clássico), classificado como nootrópico de origem russa com status de medicamento prescrito na Federação Russa e ausência de registro em ANVISA/FDA/EMA

Noopept

Dipeptídeo nootrópico russo (N-fenilacetil-Pro-Gly etil éster, GVS-111, Omberacetam). Pró-droga liberadora de cicloprolilglicina (cyclo-PG) endógena no SNC. Medicamento prescrito na Federação Russa em doses 10-30 mg/dia. Sem registro ANVISA, FDA, EMA. Literatura clínica russa; sem RCT fase 3 ocidental indexado.

Importação pessoalEvidência média
PorAmanda MatsudaPublicado06 de junho de 2026

Peptídeo encaixa em receptor · sinal celular

Ilustração editorial pephealth — Noopept

Quick answer

Noopept (também identificado como GVS-111 ou Omberacetam) é dipeptídeo sintético com atividade nootrópica desenvolvido na Federação Russa pelo Instituto de Pesquisa de Farmacologia V.V. Zakusov (Moscou) a partir dos anos 1990. Estruturalmente é N-fenilacetil-L-prolilglicina etil éster — análogo peptídico de piracetam com magnitude 100x mais potente em ensaios pré-clínicos, usado em humanos na Rússia em doses de 10 a 30 mg/dia. Em literatura mecanística, é caracterizado como pró-droga peptídica que libera cicloprolilglicina (cyclo-PG) — dipeptídeo cíclico endógeno do SNC — proposto como efetor farmacológico ativo. Registro regulatório: medicamento prescrito na Federação Russa desde 2004 (comercializado como Noopept® em comprimidos de 10 mg e solução nasal); sem registro ANVISA, FDA, EMA em maio/2026. Importação por pessoa física no Brasil é regulada pela RDC 28/2011 (requer prescrição e quantidade compatível com tratamento individual). Material vendido em plataformas digitais como "suplemento nootrópico" opera fora do regime regulatório vigente. Análise analítica documentou presença de Noopept em suplementos cognitivos vendidos em mercado norte-americano sem declaração em rótulo (Cohen 2021, Neurol Clin Pract, PMID 34484896).

O que é

Noopept é dipeptídeo sintético com nome químico sistemático N-fenilacetil-L-prolilglicina etil éster (N-phenylacetyl-L-prolylglycine ethyl ester). A molécula é composta por dois aminoácidos (prolina e glicina) conectados por ligação peptídica, com modificações químicas em ambas as extremidades: fenilacetil em N-terminal (que confere lipofilicidade e permeabilidade através da barreira hematoencefálica) e éster etílico em C-terminal (que estabiliza contra carboxipeptidases plasmáticas e prolonga meia-vida funcional). A massa molar é 318,37 g/mol e o CAS Number é 157115-85-0.

O código de desenvolvimento original é GVS-111 — designação usada em publicações pré-clínicas iniciais dos anos 1990 e início dos 2000. O nome comercial russo registrado é Noopept® (Ноопепт), com formulações orais (comprimidos de 10 mg) e nasais (solução 0,1% e 0,2%). A Denominação Comum Internacional (INN) proposta é Omberacetam — terminologia usada em algumas publicações internacionais e em literatura analítica de mercado (Cohen 2021).

A molécula foi desenvolvida no Instituto de Pesquisa de Farmacologia V.V. Zakusov (Российская академия медицинских наук, RAMS, Moscou), instituto vinculado à Academia Russa de Ciências Médicas. O programa foi liderado por Tatiana A. Gudasheva (química medicinal) e Rita U. Ostrovskaya (farmacologia comportamental e neuroquímica), com base na hipótese de que um análogo peptídico de tamanho mínimo (dipeptídeo) poderia preservar atividade nootrópica do piracetam em doses ordens de magnitude menores — hipótese que se confirmou em modelos pré-clínicos: Noopept é ativo em ratos em doses 1000x menores que piracetam em ensaios análogos.

A molécula foi registrada como medicamento prescrito na Federação Russa em 2004 pelo Ministério da Saúde russo, com indicações em transtornos cognitivos leves de etiologia vascular (pós-AVC), traumática (pós-TCE) e relacionada à idade. Em alguns países da Comunidade dos Estados Independentes (ex-União Soviética — Bielorrússia, Cazaquistão, Ucrânia em determinados períodos), Noopept teve status regulatório análogo.

Mecanismo de ação

O mecanismo de ação de Noopept é multifacetado e tem sido caracterizado em literatura pré-clínica russa e em trabalhos correlatos publicados em journals internacionais ao longo de 25 anos de pesquisa.

Hipótese central: pró-droga peptídica liberadora de cicloprolilglicina endógena. A hipótese predominante na literatura do grupo desenvolvedor (Gudasheva e colegas, revisada em Acta Naturae 2016, PMID 27099786) é que Noopept opera como pró-droga peptídica: a molécula intacta é absorvida no trato gastrintestinal, atravessa a barreira hematoencefálica e, no SNC, sofre clivagem metabólica que libera cicloprolilglicina (cyclo-PG ou c-Pro-Gly) — dipeptídeo cíclico que ocorre endogenamente no SNC humano em concentrações nanomolares e que tem atividade neuromodulatória própria.

Essa hipótese é distintiva em relação a outros nootrópicos racetam — piracetam, aniracetam, oxiracetam e pramiracetam não têm metabólito ativo análogo a cyclo-PG endógena no SNC. A modulação do sistema cyclo-PG endógeno por Noopept seria a base de sua maior potência em comparação ao piracetam (1000x em modelos animais).

Mecanismos moleculares downstream caracterizados. A literatura caracteriza múltiplos efeitos celulares e moleculares de Noopept (ou da cyclo-PG liberada por ele):

1. Aumento de expressão de fatores neurotróficos NGF e BDNF. Ostrovskaya, Gudasheva e colegas em 2008 (Bull Exp Biol Med, PMID 19240853) demonstraram que tratamento crônico oral com Noopept em ratos aumenta a expressão de NGF (nerve growth factor) e BDNF (brain-derived neurotrophic factor) em hipocampo. NGF e BDNF são fatores neurotróficos centrais em plasticidade sináptica, neurogênese adulta no giro denteado e neuroproteção em condições de estresse celular. Esse mecanismo molecular fornece suporte mecanístico para os efeitos cognitivos e neuroprotetores observados em modelos comportamentais.

2. Modulação colinérgica. Noopept facilita transmissão colinérgica em hipocampo e córtex em modelos pré-clínicos — mecanismo compartilhado com piracetam e outros racetams clássicos. A modulação colinérgica é relevante para memória declarativa e função executiva.

3. Neuroproteção via redução de estresse oxidativo. Em modelos de neurotoxicidade induzida por peptídeo Aβ amiloide (fragmento patogênico em doença de Alzheimer), isquemia cerebral focal e modelos de envelhecimento, Noopept reduz marcadores de estresse oxidativo (malondialdeído, carbonilação proteica) em SNC e preserva função sináptica.

4. Modulação de marcadores tipo Alzheimer em modelo de bulbectomia olfatória. Em modelo murino NMRI de bulbectomia olfatória bilateral (modelo que reproduz fenótipo tipo doença de Alzheimer com declínio cognitivo, neurodegeneração regional e elevação de Aβ amiloide cerebral), Noopept restaurou memória espacial e aumentou imunorreatividade sérica contra estruturas amiloides Aβ(25-35) e lisozima equina — trabalho central de Ostrovskaya e colegas em 2007 (J Psychopharmacol, PMID 17828286), publicado em journal ocidental indexado com co-autoria internacional (Universidade de Cardiff, Universidade de Umeå, Universidade de Coimbra).

5. Atividade ansiolítica secundária. Trabalhos descrevem perfil ansiolítico moderado em modelos comportamentais de roedor (labirinto em cruz elevada, campo aberto), possivelmente mediado por modulação de neurotransmissão GABAérgica indireta.

6. Propriedades anti-inflamatórias secundárias. Trabalhos descrevem propriedades anti-inflamatórias em modelos de inflamação sistêmica e neuroinflamação, com modulação de marcadores de ativação microglial em SNC.

Farmacocinética. A meia-vida plasmática de Noopept intacto é curta — cerca de 30 a 60 minutos em humanos após administração oral. A meia-vida funcional é prolongada pela liberação de cyclo-PG no SNC e pela ativação de cascatas adaptativas (incluindo aumento de expressão de NGF e BDNF, que opera em escala de horas a dias).

O que os estudos mostram

A base de evidência publicada para Noopept em maio/2026 combina literatura pré-clínica robusta (modelos celulares e animais russos e internacionais), literatura clínica russa de suporte ao registro regulatório russo e literatura analítica internacional sobre presença de Noopept em mercado paralelo de suplementos cognitivos.

1. Estudos pré-clínicos seminais — Ostrovskaya e colegas. Os trabalhos fundadores do grupo Zakusov (Ostrovskaya 2002, Eksp Klin Farmakol, PMID 11782792; Ostrovskaya 2007, J Psychopharmacol, PMID 17828286; Ostrovskaya 2008, Bull Exp Biol Med, PMID 19240853) caracterizam Noopept em modelos pré-clínicos de aprendizado, memória, neuroproteção e bulbectomia olfatória (modelo tipo Alzheimer). Esses trabalhos suportaram o registro regulatório russo em 2004.

2. Estudos clínicos russos de suporte ao registro. Estudos clínicos conduzidos por grupos russos em pacientes com transtorno cognitivo leve de etiologia vascular (pós-AVC), traumática (pós-TCE) e relacionada à idade suportaram o registro regulatório russo. Trabalhos representativos incluem Neznamov e Teleshova 2009 (Neurosci Behav Physiol) comparando Noopept com piracetam, e estudos correlatos em populações russas. Esses estudos têm características metodológicas (open-label, comparação ativa sem placebo em vários casos, populações russas específicas) e padrões regulatórios distintos dos requisitos contemporâneos de FDA/EMA/ANVISA para RCT fase 3.

3. Revisão de mecanismo molecular — Gudasheva 2016, Acta Naturae. Revisão narrativa do grupo desenvolvedor (PMID 27099786) que consolida 20+ anos de pesquisa em mecanismo de Noopept, com foco na hipótese de pró-droga liberadora de cyclo-PG endógena. Documento útil para entender a perspectiva científica do grupo Zakusov. Importante distinguir: revisão narrativa de programa de pesquisa próprio, com viés esperado de autor.

4. Análise analítica de mercado paralelo — Cohen 2021, Neurology Clinical Practice. Pieter Cohen e colegas (Harvard Medical School) publicaram em 2021 (Neurol Clin Pract, PMID 34484896) análise analítica de produtos vendidos como suplementos cognitivos em mercado norte-americano. O trabalho documentou presença de cinco fármacos não aprovados em produtos comercializados como suplementos alimentares: omberacetam (Noopept), aniracetam, oxiracetam, fenibut e picamilon. O achado é representativo de característica documentada do mercado de "nootrópicos": produtos vendidos como suplementos alimentares "naturais" podem conter substâncias farmacologicamente ativas não declaradas em rótulo. Implicações clínicas: exposição não declarada a fármaco com perfil de tolerabilidade não estabelecido em padrão regulatório ocidental, potencial para interações farmacológicas não previstas, risco regulatório em atletas competitivos.

O que não existe na literatura indexada ocidental em maio/2026. RCT humano fase 3 ocidental publicado de Noopept como intervenção isolada com endpoint primário regulatório padrão (controle de função cognitiva validada em escala internacional, mortalidade, progressão clínica de demência ou outros desfechos regulatoriamente aceitos). Submissão de IND a FDA ou de pedido equivalente a EMA para programa clínico ocidental de Noopept. Programa de desenvolvimento clínico ocidental ativo divulgado publicamente por empresa farmacêutica licenciada de propriedade intelectual da molécula.

Efeitos adversos

O perfil de eventos adversos de Noopept caracterizado em literatura russa e em literatura clínica de suporte ao registro russo é descrito como geralmente leve e auto-limitado em doses terapêuticas registradas (10-30 mg/dia oral em adultos). Eventos adversos comuns incluem:

  • Cefaleia leve a moderada — relatada em proporção pequena de pacientes em estudos clínicos russos.
  • Distúrbios do sono — insônia ou alterações de qualidade do sono se administrado próximo ao horário noturno; recomendação russa é administração matinal ou vespertina (não próximo ao deitar).
  • Irritabilidade ou aumento de pressão arterial — relatados em proporção menor; cautela em pacientes com hipertensão arterial não controlada.
  • Sintomas gastrintestinais leves — desconforto epigástrico, náusea ocasional.
  • Reações alérgicas — raras; descritas em literatura de farmacovigilância russa.

Limitações do perfil de eventos adversos disponível. A caracterização de eventos adversos de Noopept é predominantemente proveniente de literatura russa em populações russas, com sistemas de farmacovigilância distintos dos ocidentais. Não há perfil de eventos adversos caracterizado em padrão FDA/EMA em populações ocidentais sob uso prolongado. Não há dados de segurança em gravidez e lactação publicados em padrões regulatórios ocidentais. Não há dados de segurança em uso pediátrico publicados em literatura indexada. Não há perfil farmacocinético caracterizado em insuficiência hepática ou renal em padrão regulatório ocidental.

Interações farmacológicas. O perfil de interações com outros nootrópicos, ansiolíticos, antidepressivos e antipsicóticos não está caracterizado em padrão regulatório ocidental. Atenção em uso concomitante com qualquer fármaco de ação central — especialmente serotoninérgicos, GABAérgicos e dopaminérgicos.

Risco específico em uso de mercado paralelo. Para material adquirido em mercado paralelo (não registrado), os riscos adicionais incluem: (1) discrepância entre conteúdo declarado e conteúdo real do produto; (2) presença de impurezas peptídicas relacionadas; (3) ausência de cadeia de fabricação rastreável; (4) ausência de orientação médica formal possível dado o status regulatório.

Status regulatório no Brasil

ANVISA — sem registro. Em maio/2026, Noopept não tem registro ANVISA como medicamento. Não há produto industrializado contendo Noopept como princípio ativo registrado no Brasil sob qualquer indicação terapêutica.

Sem CADIFA. Noopept não tem CADIFA (Carta de Adequação do Dossiê de IFA) estabelecida sob RDC 359/2020. Sem CADIFA, farmácias de manipulação brasileiras não dispõem de IFA de Noopept com cadeia regulatória de fabricação documentada nos padrões da ANVISA.

Nota Técnica 200/2025. A Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA estabelece critérios para manipulação magistral de peptídeos. Opera sobre moléculas com cadeia regulatória estabelecida, produto industrializado de referência, monografia farmacopeica ou padrão analítico equivalente. Noopept não atende esses critérios. Manipulação magistral de Noopept não é endossada pela ANVISA.

Importação por pessoa física — RDC 28/2011. A importação por pessoa física de medicamento no Brasil é regulada pela RDC 28/2011 da ANVISA. A importação é permitida para uso individual, sob prescrição médica, em quantidade compatível com tratamento individual (geralmente até 6 meses de tratamento), com orientação médica formal e sob declaração de uso pessoal. Material vendido em plataformas digitais como "suplemento nootrópico" para entrega no Brasil tipicamente não atende esses critérios — comercializado sem prescrição médica, em quantidades variadas, sem orientação médica formal. Importação fora desses critérios configura infração sanitária.

Comércio direto ao consumidor. Comércio direto em redes sociais, marketplaces e farmácias sem prescrição configura infração sanitária. Material com claims de "memória aprimorada", "foco cognitivo", "nootrópico russo" ou "smart drug" para consumidor brasileiro opera fora do regime regulatório vigente.

WADA (atletas). Noopept não consta nominalmente na Lista de Substâncias Proibidas WADA 2026 em maio/2026. Por se tratar de molécula com ação central, vigilância antidopagem pode evoluir. Atletas competitivos devem confirmar versão vigente da lista WADA com a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD). Adicionalmente, produtos vendidos em mercado paralelo como "nootrópicos" são fonte conhecida de contaminação cruzada com substâncias proibidas não declaradas em rótulo — risco analítico documentado em literatura de controle antidopagem.

O que sabemos

  • Noopept é dipeptídeo sintético (N-fenilacetil-L-prolilglicina etil éster) desenvolvido na Federação Russa pelo Instituto Zakusov.
  • Códigos identificadores: GVS-111 (desenvolvimento), Noopept® (comercial russo), Omberacetam (INN proposta).
  • Mecanismo proposto: pró-droga peptídica liberadora de cicloprolilglicina (cyclo-PG) endógena no SNC; downstream, aumenta expressão de NGF e BDNF, modula transmissão colinérgica e reduz estresse oxidativo.
  • Registro como medicamento prescrito na Federação Russa desde 2004 (Noopept® 10 mg comprimidos e solução nasal 0,1%/0,2%).
  • Indicações registradas na Rússia: transtornos cognitivos leves de etiologia vascular, traumática e relacionada à idade.
  • Doses humanas russas: 10 a 30 mg/dia oral, divididas em duas ou três tomadas — magnitude 100x menor que piracetam.
  • Sem registro ANVISA, FDA, EMA, Health Canada, TGA, PMDA em maio/2026.
  • Manipulação magistral não endossada pela ANVISA (sem CADIFA, não atende NT 200/2025).
  • Importação por pessoa física no Brasil regulada pela RDC 28/2011 (prescrição + quantidade compatível + orientação médica).
  • Documentado em análise analítica como contaminante não declarado em suplementos cognitivos vendidos em mercado norte-americano (Cohen 2021, PMID 34484896).

O que ainda não sabemos

  • Se Noopept tem eficácia clínica em humanos sob padrões de RCT fase 3 ocidental — não há ensaios desse tipo publicados em maio/2026.
  • Perfil de eventos adversos em uso prolongado em populações ocidentais caracterizado em sistemas de farmacovigilância FDA/EMA.
  • Perfil farmacocinético em populações ocidentais, em insuficiência hepática e renal, em gravidez e lactação, em uso pediátrico.
  • Perfil de interações farmacológicas com fármacos de ação central comumente prescritos em populações ocidentais.
  • Quando — se — Noopept poderá ter programa de desenvolvimento clínico ocidental ativo divulgado publicamente.

Por que importa

Noopept é caso paradigmático de molécula com registro regulatório consolidado em um país (Federação Russa, 2004) sem programa de desenvolvimento clínico ocidental subsequente em 20+ anos. A consequência prática é que a base de evidência clínica humana de Noopept é predominantemente russa, sob padrões metodológicos e regulatórios distintos dos contemporâneos ocidentais. Para agências reguladoras ocidentais (FDA, EMA, ANVISA), essa configuração é insuficiente para suportar registro como medicamento — não por necessariamente refutar a hipótese de eficácia, mas por não atender critérios regulatórios contemporâneos de dossiê.

Em paralelo, Noopept tem circulação documentada em mercado paralelo internacional sob designação de "suplemento nootrópico" — circulação que mistura: (a) consumidores informados que conhecem o status regulatório e optam por uso fora de regime regulatório; (b) consumidores não informados que assumem que produto vendido como "suplemento nootrópico" é regulatoriamente análogo a outros suplementos (vitaminas, minerais), o que não é o caso para Noopept; (c) consumidores expostos a Noopept sem conhecimento, em produtos com rotulagem incompleta ou enganosa — caracterizado em literatura analítica como Cohen 2021.

Para o leitor brasileiro em 2026, a informação útil é regulatória e científica. Noopept não tem registro ANVISA, FDA ou EMA como medicamento. Manipulação não é endossada pela ANVISA. Importação por pessoa física requer prescrição médica e atendimento aos critérios da RDC 28/2011. A literatura clínica humana é predominantemente russa, sem RCT fase 3 ocidental publicado. Produtos vendidos como "suplemento nootrópico" em mercado paralelo carregam risco documentado de contaminação cruzada com fármacos não aprovados.

A pephealth não recomenda nem desaconselha o uso de Noopept. A função desta ficha é descrever o estado regulatório global e a base científica de Noopept em maio/2026 — distinguindo claramente literatura clínica russa de suporte ao registro russo de literatura ocidental indexada e de claims de mercado paralelo. Para outros peptídeos do campo de cognição e neuroproteção com bases de evidência também limitadas, ver /peptideos/epitalon, /peptideos/mots-c e /peptideos/humanin.

Perguntas frequentes

O que é Noopept e quem desenvolveu?
+
Noopept é dipeptídeo sintético com atividade nootrópica, desenvolvido na Federação Russa pelo **Instituto de Pesquisa de Farmacologia V.V. Zakusov** (Российская академия медицинских наук, RAMS, Moscou) a partir dos anos 1990, em programa de desenho racional de análogos peptídicos do piracetam. O nome químico sistemático é **N-fenilacetil-L-prolilglicina etil éster** (N-phenylacetyl-L-prolylglycine ethyl ester); o código de desenvolvimento original é **GVS-111**; a Denominação Comum Internacional proposta é **Omberacetam**. A molécula foi desenvolvida pelo grupo liderado por **Tatiana A. Gudasheva** (química medicinal) e **Rita U. Ostrovskaya** (farmacologia comportamental e neuroquímica) e registrada como medicamento prescrito na Federação Russa em 2004, com indicações em transtornos cognitivos leves de etiologia vascular, traumática e relacionada à idade. Trabalhos seminais publicados em journals russos a partir do início dos anos 2000 caracterizam farmacologia pré-clínica e farmacocinética; estudos clínicos russos suportaram o registro regulatório russo. **Não há registro ANVISA, FDA ou EMA** em maio/2026.
Qual o mecanismo de ação de Noopept?
+
Noopept é caracterizado em literatura russa e correlata como **pró-droga peptídica** com mecanismo de ação que envolve múltiplos passos. **Primeiro**, a molécula intacta é absorvida no trato gastrintestinal (biodisponibilidade oral preservada pela estrutura fenilacetil-éster etílico que resiste a degradação enzimática inicial), atravessa a barreira hematoencefálica e atinge o sistema nervoso central. **Segundo**, no SNC, Noopept sofre clivagem metabólica que libera **cicloprolilglicina (cyclo-PG, c-Pro-Gly)** — dipeptídeo cíclico que ocorre endogenamente no SNC humano em concentrações nanomolares e que tem atividade neuromodulatória própria. A hipótese predominante na literatura do grupo desenvolvedor é que **cyclo-PG é o efetor farmacológico ativo** dos efeitos centrais de Noopept. **Terceiro**, downstream, são caracterizados múltiplos mecanismos: (a) aumento de expressão de NGF e BDNF em hipocampo e córtex (Ostrovskaya 2008, PMID 19240853); (b) modulação de transmissão colinérgica em hipocampo e córtex (mecanismo compartilhado com piracetam); (c) redução de marcadores de estresse oxidativo em modelos de neurotoxicidade; (d) modulação de imunorreatividade contra estruturas Aβ amiloides em modelo de bulbectomia olfatória (Ostrovskaya 2007, PMID 17828286). A relação com cyclo-PG endógena é mecanismo distintivo em relação à maioria dos racetams clássicos.
Qual o status regulatório de Noopept no Brasil?
+
Em maio/2026, Noopept **não tem registro ANVISA** como medicamento. Não há produto industrializado contendo Noopept registrado no Brasil sob qualquer indicação. Não tem **CADIFA** (Carta de Adequação do Dossiê de IFA) estabelecida sob RDC 359/2020. Não atende critérios da Nota Técnica nº 200/2025 da ANVISA para manipulação magistral de peptídeos — que opera sobre moléculas com cadeia regulatória estabelecida. **Manipulação magistral de Noopept não é endossada pela ANVISA**. Importação por pessoa física é regulada pela **RDC 28/2011** da ANVISA, que permite importação de medicamento sob prescrição médica em quantidade compatível com tratamento individual, sob orientação médica formal — critérios que material vendido em plataformas digitais como 'suplemento nootrópico' tipicamente não atende. Importação fora desses critérios configura **infração sanitária**. Material com claims de 'memória aprimorada', 'foco cognitivo' ou 'nootrópico russo' vendido em redes sociais para consumidor brasileiro opera fora do regime regulatório vigente.
Qual o status regulatório nos Estados Unidos, União Europeia e Rússia?
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**Federação Russa**: Noopept (Ноопепт®) tem **registro como medicamento prescrito** no Ministério da Saúde da Federação Russa desde 2004. Comercializado pela Lekko/Pharmstandard em comprimidos orais de 10 mg e em solução nasal 0,1%/0,2%. Indicações registradas incluem transtornos cognitivos leves de etiologia vascular (pós-AVC), traumática (pós-TCE) e relacionada à idade. Em alguns países da Comunidade dos Estados Independentes (ex-União Soviética), tem status regulatório análogo. **Estados Unidos**: o FDA **não aprovou** Noopept como medicamento e **não reconhece como GRAS** (Generally Recognized As Safe) para uso em suplemento alimentar. A molécula não pode ser comercializada legalmente como medicamento nem como suplemento alimentar nos Estados Unidos. Apesar disso, comercialização em mercado paralelo norte-americano sob designação 'nootrópico' é documentada — Cohen e colegas em 2021 (Neurol Clin Pract, PMID 34484896) caracterizou presença de Noopept e outros nootrópicos russos em suplementos cognitivos vendidos em mercado norte-americano. **União Europeia**: a EMA **não aprovou** Noopept como medicamento. Status como suplemento alimentar varia por país-membro; na maioria, comercialização como suplemento alimentar não está estabelecida em padrão regulatório consolidado.
Qual a relação entre Noopept e piracetam?
+
Noopept foi desenvolvido especificamente como **análogo peptídico do piracetam** — racetam clássico desenvolvido em 1964 pela UCB Pharma (Bélgica) e amplamente usado como nootrópico na Europa Oriental e em parte da Europa Ocidental. A relação é histórica e racional de design. **Diferenças estruturais e farmacológicas**: piracetam é molécula pirrolidona (não-peptídica) com nome químico 2-(2-oxopyrrolidin-1-yl)acetamide; Noopept é dipeptídeo Pro-Gly modificado com fenilacetil e éster etílico. **Diferenças de dose**: piracetam é usado em humanos em doses de 1,6 a 4,8 g/dia (em adultos); Noopept é usado em 10 a 30 mg/dia — magnitude ordens de magnitude menor, possibilitada pela maior potência farmacológica do dipeptídeo. **Diferenças de mecanismo molecular**: piracetam tem mecanismo proposto via modulação de transmissão glutamatérgica (modulação de receptores AMPA), modulação colinérgica e melhora de fluxo de membrana neuronal; Noopept tem, adicionalmente, mecanismo de pró-droga liberadora de cicloprolilglicina endógena — característica distintiva em relação à maioria dos racetams clássicos. **Diferenças regulatórias**: piracetam é registrado em vários países europeus (Bélgica, França, Hungria, Polônia, Rússia) sob indicações neurológicas; Noopept tem registro apenas na Federação Russa e em parte da Comunidade dos Estados Independentes. **Nenhum dos dois** tem registro ANVISA, FDA ou EMA como medicamento.
A literatura clínica humana de Noopept é robusta?
+
A literatura clínica humana de Noopept é predominantemente **proveniente da Rússia e União Soviética**, com características metodológicas e padrões regulatórios distintos dos ocidentais contemporâneos. Estudos representativos incluem comparações abertas com piracetam em pacientes com transtorno cognitivo leve de etiologia vascular pós-AVC (por exemplo, Neznamov e Teleshova 2009, em Neurosci Behav Physiol), estudos em transtornos cognitivos relacionados à idade e estudos em transtornos pós-traumáticos. Os estudos são em sua maioria **conduzidos por grupos russos**, **publicados em journals russos** (com algumas exceções de publicação em journals internacionais indexados como o trabalho de Ostrovskaya 2007 em J Psychopharmacol, PMID 17828286, com co-autoria internacional), e **suportam o registro regulatório russo**. **Não há, em maio/2026, RCT humano fase 3 ocidental publicado** de Noopept como intervenção isolada com endpoint primário regulatório padrão. A ausência de programa de desenvolvimento clínico ocidental, em 20+ anos desde o registro russo, é fator que agências reguladoras (FDA, EMA, ANVISA) consideram em avaliação de qualidade de evidência. O regime regulatório russo opera sob padrões próprios; a translação dessa base de evidência para aprovação em padrões ocidentais requereria programa adicional de desenvolvimento que não materializou.
O que significa encontrar Noopept em suplementos comerciais sem rótulo?
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Cohen e colegas em 2021 (Neurology: Clinical Practice, PMID 34484896) publicaram análise analítica que documentou **presença de cinco fármacos não aprovados em produtos comercializados como suplementos cognitivos em mercado norte-americano** — incluindo Noopept (omberacetam), aniracetam, oxiracetam, fenibut e picamilon. O trabalho é representativo de uma característica documentada do mercado de 'nootrópicos': produtos vendidos como suplementos alimentares 'naturais', sem prescrição médica, podem **conter substâncias farmacologicamente ativas não declaradas em rótulo**, com implicações clínicas e regulatórias relevantes. **Implicações para o consumidor**: (1) exposição não declarada a fármaco com perfil de tolerabilidade não estabelecido em padrão regulatório ocidental; (2) potencial para interações farmacológicas não previstas com outros medicamentos em uso (especialmente fármacos de ação central — antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos); (3) risco regulatório em atletas competitivos sob teste antidopagem, dado que Noopept pode ou não constar em listas WADA específicas e que produto sem declaração precisa de composição é fonte conhecida de contaminação cruzada com substâncias proibidas; (4) ausência de rastreabilidade de cadeia de fabricação, lote, validade e cadeia fria. A pephealth recomenda **cautela rigorosa** com qualquer produto vendido como 'nootrópico' ou 'suplemento cognitivo' sem registro ANVISA — a probabilidade de exposição não declarada a fármacos não aprovados é documentada em literatura analítica.

Estudos citados

6 referências
  1. 01
    Ostrovskaya RU, Gruden MA, Bobkova NA, Sewell RDE, Gudasheva TA, Samokhin AN, Seredinin SB, Noppe W, Sherstnev VV, Morozova-Roche LA. The nootropic and neuroprotective proline-containing dipeptide noopept restores spatial memory and increases immunoreactivity to amyloid in an Alzheimer's disease model · Journal of Psychopharmacology, 2007 · Estudo pré-clínico em camundongos NMRI submetidos a bulbectomia olfatória (modelo tipo doença de Alzheimer)n = 0

    Publicado em Journal of Psychopharmacology 2007. Trabalho do Instituto de Pesquisa de Farmacologia V.V. Zakusov (Federação Russa) em colaboração com pesquisadores da Universidade de Cardiff (Reino Unido), Universidade de Umeå (Suécia) e Universidade de Coimbra (Portugal) — uma das poucas publicações de Noopept em journal ocidental indexado com co-autoria internacional. Documenta que Noopept restaura memória espacial em modelo murino de bulbectomia olfatória (modelo que reproduz fenótipo tipo Alzheimer) e modula imunorreatividade sérica a estruturas Aβ amiloides — sugere mecanismo de neuroproteção que combina facilitação de função sináptica e modulação imune anti-amiloide. Trabalho central para a hipótese de Noopept como nootrópico com potencial em condições com componente neurodegenerativo.

    pré-clínicoDOI
  2. 02
    Ostrovskaya RU, Gudasheva TA, Zaplina AP, Vahitova JuV, Salimgareeva MH, Jamidanov RS, Seredinin SB. Noopept stimulates the expression of NGF and BDNF in rat hippocampus · Bulletin of Experimental Biology and Medicine, 2008 · Estudo pré-clínico em ratos submetidos a tratamento crônico oral com Noopept, com avaliação de expressão de NGF e BDNF em hipocampon = 0

    Publicado em Bull Exp Biol Med vol 146, pp 334-337 (setembro/2008). Trabalho do grupo Ostrovskaya/Gudasheva (Instituto Zakusov, Moscou) que caracteriza mecanismo molecular: tratamento crônico com Noopept oral aumenta expressão de NGF e BDNF em hipocampo de ratos — fatores neurotróficos centrais em plasticidade sináptica, neurogênese adulta e neuroproteção. Suporte mecanístico para os efeitos cognitivos e neuroprotetores observados em modelos comportamentais.

    pré-clínicoPMID 19240853DOI
  3. 03
    Ostrovskaya RU, Gudasheva TA, Voronina TA, Seredenin SB. Proline-containing dipeptide GVS-111 retains nootropic activity after oral administration · Eksperimental'naia i Klinicheskaia Farmakologiia, 2002 · Estudos pré-clínicos em roedores em modelos comportamentais de aprendizado e memórian = 0

    Publicado em Eksp Klin Farmakol em 2002. Trabalho do grupo Ostrovskaya/Gudasheva. Caracteriza atividade nootrópica de Noopept (então identificado como GVS-111) em administração oral em roedores — confirma biodisponibilidade oral e atividade central. Trabalho seminal para a transição de GVS-111 (código de desenvolvimento) para Noopept (nome comercial russo) e para indicação clínica em humanos.

    pré-clínicoPMID 11782792
  4. 04
    Gudasheva TA, Konstantinopolsky MA, Ostrovskaya RU, Seredenin SB. Molecular Mechanism Underlying the Action of Substituted Pro-Gly Dipeptide Noopept · Acta Naturae, 2016 · Revisão narrativa de mecanismo molecularn = 0

    Publicado em Acta Naturae vol 8, pp 50-61 (janeiro-março/2016). Revisão narrativa do grupo desenvolvedor (Instituto Zakusov, Moscou) que consolida 20+ anos de pesquisa em mecanismo de Noopept. Apresenta hipótese de Noopept como pró-droga peptídica que libera cicloprolilglicina (cyclo-PG) endógena no SNC — mecanismo distintivo em relação a piracetam e outros racetams. Documento útil para entender a perspectiva científica do grupo desenvolvedor. Importante distinguir: revisão narrativa de programa de pesquisa próprio, com viés esperado de autor.

    revisão
  5. 05
    Cohen PA, Zakharevich I, Gerona R. Five Unapproved Drugs Found in Cognitive Enhancement Supplements · Neurology: Clinical Practice, 2021 · Análise analítica de produtos comercializados como suplementos cognitivos em mercado norte-americanon = 0

    Publicado em Neurology Clinical Practice vol 11, pp 471-477 (dezembro/2021). Trabalho de Pieter Cohen (Harvard Medical School) — pesquisador reconhecido em integridade de suplementos alimentares. Análise analítica documentou presença de cinco fármacos não aprovados em produtos comercializados como suplementos cognitivos em mercado norte-americano: omberacetam (Noopept), aniracetam, oxiracetam, fenibut e picamilon. Importante para entender risco regulatório do mercado de 'nootrópicos' vendidos sem prescrição: produto vendido como 'suplemento natural' pode conter substância farmacologicamente ativa não declarada em rótulo, com implicações para segurança do consumidor, interações farmacológicas não previstas e contexto antidoping em atletas.

    observacionalDOI
  6. 06
    Agência Nacional de Vigilância Sanitária. ANVISA — RDC 359/2020 (CADIFA), RDC 28/2011 (importação por pessoa física) e Nota Técnica nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA · Diário Oficial da União, 2025 · Atos normativos regulatóriosn = 0

    Noopept não tem registro ANVISA como medicamento. Não tem CADIFA estabelecida sob RDC 359/2020. Não atende critérios da NT 200/2025 para manipulação magistral de peptídeos. Importação por pessoa física é regulada pela RDC 28/2011 — requer prescrição médica, quantidade compatível com tratamento individual e orientação médica formal. Material vendido em plataformas digitais como 'suplemento nootrópico' opera fora desses critérios e configura infração sanitária.

    regulatório

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