Gastrina, secretina e motilina: o trio digestivo que fundou a endocrinologia
Três hormônios do trato digestivo: a gastrina comanda o ácido do estômago, a secretina foi o primeiro hormônio descoberto (1902) — a palavra 'hormônio' nasceu dela — e a motilina explica o estômago roncando de fome.
Quick answer. Gastrina, secretina e motilina são três hormônios peptídicos do trato digestivo, cada um com um ofício: a gastrina liga o ácido do estômago quando a comida chega; a secretina manda o pâncreas neutralizar esse ácido no duodeno; a motilina comanda as ondas de limpeza do jejum — as mesmas que fazem o estômago "roncar". O trio também carrega a certidão de nascimento de uma ciência: a secretina foi o primeiro hormônio descoberto (Bayliss e Starling, 1902), e foi para descrevê-la que a palavra "hormônio" foi cunhada. Esta página explica os três e conta essa história — sem nenhuma pretensão de guia clínico.
Antes de 1902: um corpo comandado só por nervos
No fim do século XIX, a fisiologia acreditava que toda coordenação entre órgãos era nervosa. O pâncreas secretava suco quando a comida chegava ao intestino? Reflexo nervoso, dizia o consenso — incluindo Ivan Pavlov, a maior autoridade da época em digestão.
Em 1902, William Bayliss e Ernest Starling fizeram o experimento que derrubou essa certeza: isolaram uma alça de intestino de todos os seus nervos, aplicaram ácido na mucosa — e o pâncreas secretou mesmo assim. Depois, extraíram a substância da mucosa intestinal, injetaram na veia, e o pâncreas respondeu de novo. A comunicação era química, pelo sangue. Eles chamaram a substância de secretina; em 1905, Starling propôs o termo geral hormônio (do grego hormao, "eu excito") para os mensageiros dessa classe. A endocrinologia — a ciência de insulina, tireoide, GH e GLP-1 — nasceu de um peptídeo digestivo.
Gastrina: a dona do ácido
A gastrina é produzida pelas células G do antro do estômago. Quando a refeição chega — proteína na mucosa, estômago distendido, pH subindo — a gastrina cai no sangue e estimula as células parietais a secretar ácido clorídrico, tanto diretamente quanto via histamina. O ácido que ela liga é o que inicia a digestão de proteínas e esteriliza o que foi engolido.
O sistema tem termostato: quando o pH cai demais, a somatostatina local freia as células G. E tem um modo de falha ilustrativo — no gastrinoma (síndrome de Zollinger-Ellison), um tumor secreta gastrina sem freio, e o resultado são úlceras graves e recorrentes. Detalhe prático da medicina atual: os inibidores de bomba de prótons, ao suprimir o ácido, elevam a gastrina de rebote — o termostato tentando religar o que o medicamento desligou.
Secretina: o antiácido do duodeno
O quimo que sai do estômago é ácido demais para o intestino — e para as enzimas pancreáticas, que só funcionam em pH mais alto. A resposta é a secretina: as células S do duodeno a liberam quando o pH local cai, e ela ordena ao pâncreas um jato de suco rico em bicarbonato. De quebra, reduz a produção de ácido lá atrás, no estômago.
É um circuito de engenharia limpa: o próprio ácido dispara o sinal que o neutraliza. Hoje a secretina sintética sobrevive na clínica como ferramenta de diagnóstico — testes de função pancreática e investigação de gastrinoma — mais do que como tratamento.
Motilina: a faxineira do jejum
Entre as refeições, o trato digestivo não fica parado: a cada 90 a 120 minutos, ondas de contração varrem do estômago ao intestino, empurrando restos, secreções e bactérias adiante. É o complexo motor migratório — e seu maestro é a motilina, liberada em pulsos por células do duodeno justamente no jejum. O "ronco" do estômago vazio (borborigmo) é, em boa parte, o som dessa faxina — o que explica por que ele coincide com a fome, embora o hormônio da fome propriamente dito seja outro (a grelina, que tem parentesco com a motilina e peça própria a caminho).
A curiosidade farmacológica: a eritromicina, antibiótico dos anos 1950, ativa por acaso o receptor de motilina. É por isso que causa cólicas como efeito colateral — e por isso já foi usada, fora da bula, como procinético para esvaziamento gástrico lento.
Por que esse trio importa hoje
Os três não viraram medicamentos de uso diário, mas fundaram o mapa que a medicina dos peptídeos usa até hoje: a ideia de que o intestino é um órgão endócrino — talvez o maior do corpo. GLP-1, GIP, CCK, grelina: toda a geração atual de hormônios e fármacos incretínicos desce em linha direta da descoberta de 1902. Quem entende gastrina, secretina e motilina entende o esqueleto do sistema em que os medicamentos modernos operam.
Para aprofundar
- O hormônio incretínico mais famoso — Ficha do GLP-1
- O segundo incretínico — GIP: o segundo hormônio incretínico
- Peptídeo vs hormônio — Peptídeo e hormônio são a mesma coisa?
- A base de tudo — O que é um peptídeo?
<!-- DEDUP: nenhum slug gastrina/secretina/motilina no acervo (525 slugs auditados). Peça única da lente 3 cobrindo o TRIO + história da endocrinologia (Bayliss & Starling 1902, Starling cunha "hormônio" 1905 — fatos históricos consolidados, sem PMID aplicável). Grelina citada só como ponte (grelina-hormonio-da-fome é pauta separada da lente 3 — não aprofundada aqui). GLP-1/GIP roteados para peças existentes (verificadas). Sem citations: fisiologia e história de livro-texto, redigidas conservadoras (ciclos de ~90–120 min, "em boa parte" para borborigmo). -->
Perguntas frequentes
- O que é a gastrina? +
- Gastrina é o hormônio peptídico que comanda o ácido do estômago. Produzida pelas células G do antro gástrico quando a comida chega (e quando o pH sobe), ela estimula as células parietais a secretar ácido clorídrico — diretamente e via liberação de histamina. O sistema tem freio embutido: quando o estômago fica ácido demais, a somatostatina inibe a gastrina. O exemplo clássico de gastrina fora de controle é a síndrome de Zollinger-Ellison, causada por um tumor secretor de gastrina (gastrinoma), com úlceras graves e recorrentes.
- Por que a secretina é considerada o primeiro hormônio da história? +
- Em 1902, os fisiologistas ingleses William Bayliss e Ernest Starling mostraram que o duodeno, ao receber o conteúdo ácido do estômago, libera no sangue uma substância que faz o pâncreas secretar bicarbonato — mesmo com todos os nervos cortados. Era a prova de que órgãos podiam se comunicar por mensageiros químicos no sangue, não só por nervos. Eles batizaram a substância de secretina; poucos anos depois, Starling cunhou a palavra 'hormônio' (do grego hormao, 'eu excito') para essa nova classe de mensageiros. A endocrinologia nasceu de um hormônio digestivo.
- O que a secretina faz no corpo? +
- A secretina é o antiácido natural do duodeno. Quando o quimo ácido sai do estômago e chega ao intestino, as células S duodenais liberam secretina, que manda o pâncreas secretar suco rico em bicarbonato — neutralizando o ácido e criando o pH que as enzimas digestivas precisam para funcionar. Ela também reduz a produção de ácido no estômago, completando o ciclo de proteção. É um circuito de precisão: o próprio ácido dispara o sinal que o neutraliza.
- O que é a motilina e o que ela tem a ver com o estômago roncando? +
- Motilina é o hormônio da faxina digestiva. Durante o jejum, células do duodeno a liberam em ciclos de aproximadamente 90 a 120 minutos, disparando ondas de contração que varrem o estômago e o intestino — o chamado complexo motor migratório, que empurra restos e bactérias adiante. O ronco do estômago vazio (borborigmo) é em boa parte o som dessas ondas. A motilina não é exatamente 'o hormônio da fome' (esse papel é mais da grelina), mas seus ciclos coincidem com a sensação de estômago vazio.
- Existe algum medicamento ligado a esses três hormônios? +
- De formas indiretas e curiosas. A eritromicina, um antibiótico clássico, é também agonista do receptor de motilina — por isso causa cólica e diarreia como efeito colateral e já foi usada, fora da indicação original, como procinético para acelerar o esvaziamento gástrico. A secretina sintética é usada como ferramenta diagnóstica em testes de função pancreática e na investigação de gastrinoma. E a gastrina é alvo indireto de todo tratamento antiácido: inibidores de bomba de prótons elevam a gastrina de rebote, um efeito monitorado na prática. Nenhum dos três virou 'remédio de uso diário' em si.
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