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Estudo em foco·Ciência básica

Retatrutida no diabetes tipo 2: o triagonista na fase 2

A fase 2 da retatrutida no diabetes tipo 2 (Rosenstock 2023, Lancet, n=281): HbA1c −2,02% e peso −16,9% na dose de 12 mg vs dulaglutida e placebo em 36 semanas. Complementa a fase 2 de obesidade — mas ainda é fase 2.

PorAmanda MatsudaPublicado28 de agosto de 2026Leitura~5 min

TL;DR

O ensaio de fase 2 da retatrutida em diabetes tipo 2 (Rosenstock et al, Lancet 2023, PMID 37385280) testou o triagonista GLP-1/GIP/glucagon em 281 adultos, por 36 semanas, em quatro doses (0,5, 4, 8 e 12 mg), contra placebo e contra um comparador ativo, a dulaglutida 1,5 mg. Na HbA1c (desfecho primário, em 24 semanas), a redução foi de −2,02% na dose de 12 mg, contra −1,41% da dulaglutida e −0,01% do placebo. No peso (36 semanas), a variação chegou a −16,94% na dose de 12 mg, contra −2,02% da dulaglutida e −3,00% do placebo. É um sinal forte do triagonista também no diabetes — mas continua sendo fase 2.

Por que olhar esta fase 2 separada da de obesidade

A retatrutida já tinha uma fase 2 de destaque: a de obesidade (Jastreboff 2023, NEJM), com perda de até −24,2% na dose de 12 mg. Aquele ensaio recrutou pessoas sem diabetes e mediu peso contra placebo. Este é outro estudo: recrutou pessoas com diabetes tipo 2, teve a HbA1c como desfecho primário e — detalhe importante — incluiu um comparador ativo, a dulaglutida. São perguntas diferentes, respondidas por ensaios diferentes. Lê-los como se fossem o mesmo estudo leva a conclusões erradas.

O interesse aqui é ver o triagonista no terreno onde a resposta de peso costuma ser mais modesta — o diabetes — e onde há um controle glicêmico a demonstrar, não só emagrecimento.

O desenho

Foi um ensaio fase 2 randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e por comparador ativo, de grupos paralelos, com 36 semanas de duração, em 281 adultos com diabetes tipo 2 (275 nas análises de eficácia). Os participantes foram distribuídos entre placebo, dulaglutida 1,5 mg e quatro doses de retatrutida — 0,5 mg, 4 mg, 8 mg e 12 mg —, com escalonamento gradual até a dose-alvo. O desfecho primário foi a mudança na HbA1c em 24 semanas; o peso foi avaliado em 36 semanas.

Dois pontos de desenho importam. Primeiro, a presença da dulaglutida como referência clínica — um agonista de GLP-1 já consagrado, não apenas placebo. Segundo, o ensaio testou algumas doses com esquemas de escalonamento diferentes; para clareza, os números abaixo usam os braços de escalonamento correspondentes a cada dose-alvo.

Os números verificados

HbA1c em 24 semanas (variação da linha de base):

BraçoVariação de HbA1c
Placebo−0,01%
Dulaglutida 1,5 mg−1,41%
Retatrutida 0,5 mg−0,43%
Retatrutida 4 mg−1,39%
Retatrutida 8 mg−1,99%
Retatrutida 12 mg−2,02%

As doses de 4, 8 e 12 mg foram superiores ao placebo (p<0,0001). E as de 8 mg e 12 mg foram superiores também à dulaglutida (p=0,0019 e p=0,0002). A dose de 0,5 mg não se separou do placebo de forma significativa.

Peso em 36 semanas (variação percentual):

BraçoVariação de peso
Placebo−3,00%
Dulaglutida 1,5 mg−2,02%
Retatrutida 0,5 mg−3,19%
Retatrutida 4 mg−7,92%
Retatrutida 8 mg−16,81%
Retatrutida 12 mg−16,94%

O padrão dose-resposta é claro nos dois desfechos: mais dose, mais efeito, até um platô entre 8 mg e 12 mg. E chama atenção que a perda de peso das doses altas — perto de −17% — apareça numa população com diabetes, onde emagrecer costuma ser mais difícil.

Por que o triagonista rende no diabetes

A retatrutida ativa três receptores: GLP-1, GIP e glucagon. Os dois primeiros são os mesmos alvos da tirzepatida e atuam sobretudo em apetite, saciedade e secreção de insulina dependente de glicose — a base do controle glicêmico e da perda de peso. O terceiro, o glucagon, associa-se a aumento do gasto energético e a efeitos hepáticos sobre o metabolismo. A hipótese é que somar esse braço amplifique tanto o emagrecimento quanto o efeito metabólico.

Os números desta fase 2 são coerentes com essa hipótese: HbA1c de até −2,02% e peso de até −16,94% nas doses altas. Mas há um limite de leitura importante — comparar a retatrutida com a tirzepatida ou a semaglutida usando ensaios diferentes é comparação indireta, com populações e desenhos distintos. Aqui, a única comparação direta é com a dulaglutida, dentro do mesmo estudo, e mesmo essa é de fase 2.

A cautela de fase 2

Este é o ponto que separa entusiasmo de leitura responsável. Fase 2 não é fase 3. O estudo recrutou 281 pessoas selecionadas, por 36 semanas; a fase 3 testa a molécula em milhares, por mais tempo, sob condições mais próximas do mundo real, e é o que sustenta o registro. É comum — e esperado — que a magnitude observada na fase 2 se atenue quando o ensaio é ampliado.

Além disso, esta fase 2:

  • Não demonstra desfechos cardiovasculares (infarto, AVC, morte) — não foi desenhada para isso;
  • Não estabelece segurança de longo prazo além de 36 semanas;
  • Não confirma que os números aprovados, se houver aprovação, serão estes.

A retatrutida seguiu para o programa de fase 3 (TRIUMPH), que inclui braços em diabetes e em obesidade. Até que esses resultados saiam e sejam avaliados pelas agências, o que temos é um sinal promissor pendente de confirmação.

O que isso significa na prática

Esta fase 2 mostra que a retatrutida, o triagonista GLP-1/GIP/glucagon, produziu no diabetes tipo 2 redução de HbA1c de até −2,02% e de peso de até −16,94% em 36 semanas, superando a dulaglutida nas doses de 8 e 12 mg. Combinada com a fase 2 de obesidade, reforça o potencial da molécula nos dois cenários. O que o ensaio não autoriza: tratar os números como definitivos, extrapolá-los para desfechos cardiovasculares, ou lê-los como promessa individual. A retatrutida não está aprovada; a confirmação depende da fase 3, e qualquer decisão clínica futura será individualizada e dependente de prescrição médica.

Para aprofundar

<!-- DEDUP: existe retatrutida-fase-2-obesidade (fase 2 de OBESIDADE, Jastreboff 2023 NEJM, PMID 37366315, desfecho de peso vs placebo). ESTA peça é a fase 2 de DIABETES TIPO 2 (Rosenstock 2023, Lancet, PMID 37385280), desfecho primário de HbA1c e comparador ativo dulaglutida — ensaio, população e desfecho distintos. Também distinta de triumph-4-retatrutida (fase 3), retatrutida (ficha), retatrutida-protocolo-titulacao e retatrutida-brasil-status. PMID verificado via WebFetch do abstract no PubMed; o PMID candidato 37385278 era OASIS 1 (semaglutida oral) e foi descartado. -->

Perguntas frequentes

Quanto a retatrutida baixou a HbA1c no diabetes tipo 2 na fase 2?
+
No ensaio de fase 2 em diabetes tipo 2 (Rosenstock 2023, Lancet, n=281), a redução de HbA1c em 24 semanas foi de −0,43% (dose de 0,5 mg), −1,39% (4 mg), −1,99% (8 mg) e −2,02% (12 mg), contra −0,01% no placebo e −1,41% na dulaglutida 1,5 mg. As doses de 8 mg e 12 mg foram superiores tanto ao placebo (p<0,0001) quanto à dulaglutida (p=0,0019 e p=0,0002). Os números são específicos desse ensaio, dessas doses e dessa população, e essa é uma fase 2.
E o peso? Quanto a retatrutida fez perder no DM2?
+
Em 36 semanas, a variação de peso foi de −3,19% (0,5 mg), −7,92% (4 mg), −16,81% (8 mg) e −16,94% (12 mg) com a retatrutida, contra −3,00% no placebo e −2,02% na dulaglutida 1,5 mg. Ou seja, nas doses maiores a perda de peso foi expressiva mesmo numa população com diabetes tipo 2, onde emagrecer costuma ser mais difícil. Ainda assim, é uma média de ensaio de fase 2 — não uma promessa individual nem um número final de registro.
Qual a diferença entre esta fase 2 e a fase 2 de obesidade da retatrutida?
+
São dois ensaios distintos. A fase 2 de obesidade (Jastreboff 2023, NEJM) recrutou adultos com obesidade sem diabetes e teve a perda de peso como foco, chegando a −24,2% na dose de 12 mg em 48 semanas, contra placebo. Este ensaio (Rosenstock 2023, Lancet) recrutou adultos com diabetes tipo 2, teve a HbA1c como desfecho primário e incluiu um comparador ativo, a dulaglutida 1,5 mg. São populações, desfechos e durações diferentes — por isso os números de peso não são diretamente comparáveis entre os dois.
A retatrutida foi comparada com outro GLP-1 nesse estudo?
+
Sim. Diferentemente da fase 2 de obesidade, que era controlada só por placebo, esta fase 2 em diabetes incluiu um braço de dulaglutida 1,5 mg — um agonista de GLP-1 já estabelecido — como comparador ativo, além do placebo. Isso dá uma referência clínica: as doses de 8 e 12 mg de retatrutida reduziram mais a HbA1c do que a dulaglutida. Ainda assim, é a comparação dentro de um único ensaio de fase 2, não a prova definitiva de superioridade que só a fase 3 pode sustentar.
A retatrutida já está aprovada para diabetes?
+
Não. A retatrutida (LY3437943) está em desenvolvimento clínico e não tem registro na ANVISA, FDA ou EMA para diabetes nem para obesidade. Este ensaio de fase 2 estabelece sinal de eficácia e segurança em algumas centenas de pessoas; a confirmação depende dos ensaios de fase 3 (o programa TRIUMPH), que testam a molécula em milhares de participantes e sustentam o pedido de registro. Enquanto isso não se conclui, não há aprovação e não existe indicação clínica estabelecida.
Esse ensaio mostrou benefício cardiovascular?
+
Não. O ensaio de fase 2 teve como desfecho primário a mudança na HbA1c, com peso e segurança como desfechos adicionais — não foi desenhado para medir infarto, AVC ou morte cardiovascular. Reduzir HbA1c e peso são desfechos intermediários; não equivalem automaticamente a redução de eventos cardiovasculares. Concluir benefício cardiovascular a partir deste estudo seria um erro de leitura. Esse tipo de desfecho exige ensaios próprios, que não faziam parte da fase 2.

Estudos citados

1 referência
  1. 01
    Rosenstock J, Frias J, Jastreboff AM, Du Y, Lou J, Gurbuz S, Thomas MK, Hartman ML, Haupt A, Milicevic Z, Coskun T.. Retatrutide, a GIP, GLP-1 and glucagon receptor agonist, for people with type 2 diabetes: a randomised, double-blind, placebo and active-controlled, parallel-group, phase 2 trial conducted in the USA · The Lancet, 2023 · Ensaio fase 2 randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e por comparador ativo (dulaglutida 1,5 mg), de grupos paralelos — 281 adultos com diabetes tipo 2, retatrutida em quatro doses (0,5, 4, 8 e 12 mg) por 36 semanas, com desfecho primário de HbA1c em 24 semanas

    HbA1c em 24 semanas (variação da linha de base): placebo −0,01%, dulaglutida 1,5 mg −1,41%, retatrutida −0,43% (0,5 mg), −1,39% (4 mg), −1,99% (8 mg) e −2,02% (12 mg). Retatrutida 8 e 12 mg superiores à dulaglutida (p=0,0019 e p=0,0002); 4/8/12 mg superiores ao placebo (p<0,0001). Peso em 36 semanas: placebo −3,00%, dulaglutida −2,02%, retatrutida −3,19% (0,5 mg), −7,92% (4 mg), −16,81% (8 mg) e −16,94% (12 mg). Retatrutida é agonista triplo dos receptores de GLP-1, GIP e glucagon (LY3437943).

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