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Explicação·Ciência básica

Insulina: o primeiro peptídeo terapêutico da história

Em 1922, um extrato pancreático purificado mudou o curso do diabetes tipo 1. A insulina — 51 aminoácidos em duas cadeias — inaugurou a era dos peptídeos terapêuticos e, décadas depois, a da biotecnologia.

PorAmanda MatsudaPublicado10 de agosto de 2026Leitura~6 min

Quick answer

A insulina foi o primeiro peptídeo usado como medicamento — e o evento que fundou a categoria à qual este site inteiro se dedica. Isolada em 1921-1922 por Frederick Banting e Charles Best no laboratório de John Macleod, em Toronto, e purificada por James Collip, ela transformou o diabetes tipo 1 de doença rapidamente fatal em condição tratável — velocidade reconhecida pelo Nobel de 1923, concedido menos de dois anos após os primeiros pacientes tratados. Quimicamente, a insulina é um peptídeo de 51 aminoácidos em duas cadeias (A e B) unidas por pontes dissulfeto. Sua trajetória — extração de pâncreas animal, primeira proteína sequenciada (Sanger, Nobel de 1958), primeiro medicamento de biotecnologia (insulina humana recombinante, início dos anos 1980) — é, em miniatura, a história de como os peptídeos viraram fármacos. Dos GLP-1 à teriparatida, todo peptídeo terapêutico moderno desce dessa linhagem.

Antes da insulina: um diagnóstico sem saída

Até 1922, o diabetes tipo 1 era uma sentença. Sem insulina endógena, o corpo não incorpora glicose: a criança diagnosticada emagrecia até a caquexia e morria, em geral em meses, de cetoacidose. O único "tratamento" disponível era a dieta de fome — restrições calóricas brutais que prolongavam a vida em pouco tempo ao custo de inanição.

A ciência já sabia onde procurar. Desde o fim do século XIX, experimentos com remoção do pâncreas em cães mostravam que o órgão continha algo que controlava a glicose, e as "ilhotas" descritas por Paul Langerhans eram as suspeitas. O problema era prático: extrair esse algo sem que as enzimas digestivas do próprio pâncreas o destruíssem no processo. Décadas de tentativas falharam exatamente aí — um detalhe irônico, hoje sabemos, porque a insulina é um peptídeo, e peptídeos são o alvo preferido de enzimas digestivas. É a mesma razão pela qual a insulina até hoje é injetada, não engolida — tema do acervo em peptídeos injetáveis vs orais.

1921-1923: do laboratório ao Nobel em dois anos

O desenho experimental que destravou o problema veio do cirurgião Frederick Banting: ligar o ducto pancreático para atrofiar o tecido produtor de enzimas, preservando as ilhotas — e então extrair delas o princípio ativo. No verão de 1921, no laboratório de John Macleod na Universidade de Toronto, Banting e o estudante Charles Best obtiveram extratos que baixavam a glicemia de cães diabéticos.

O salto para humanos exigiu um quarto personagem: o bioquímico James Collip, que purificou o extrato a ponto de torná-lo utilizável. No início de 1922, os primeiros pacientes — o mais célebre, um adolescente em estado terminal — responderam de forma que a medicina raramente testemunhou: glicemia caindo, cetose revertendo, peso retornando. A colaboração com a indústria escalou a produção por extração de pâncreas bovino e suíno ainda no mesmo ano, e o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1923 foi para Banting e Macleod — que o dividiram, por iniciativa própria, com Best e Collip. Banting segue sendo o laureado mais jovem da categoria, e o intervalo descoberta-prêmio, um dos mais curtos da história.

Um gesto menos citado e igualmente fundador: os descobridores cederam a patente à universidade por um valor simbólico, sob o argumento de que a insulina pertencia ao mundo.

Por que a insulina é um peptídeo

A insulina é uma cadeia dupla de aminoácidos: cadeia A com 21, cadeia B com 30 — 51 no total, unidas por duas pontes dissulfeto entre cadeias (e uma terceira interna à cadeia A). Ela nasce como uma molécula precursora única, a proinsulina, que é dobrada e depois clivada: o segmento do meio (peptídeo C) é removido, e as duas pontas, já ligadas pelas pontes dissulfeto, tornam-se a insulina madura.

Esse tamanho a coloca na fronteira entre "peptídeo grande" e "proteína pequena" — as duas descrições existem na literatura. Funcionalmente, porém, ela define a categoria: um hormônio peptídico que age ligando-se a um receptor de membrana e disparando uma cascata intracelular, exatamente o modelo de ação dos peptídeos terapêuticos que vieram depois. E carrega as marcas da classe: degradada no trato digestivo (daí a via injetável), meia-vida curta, estrutura tridimensional essencial à função — os temas gerais de farmacocinética de peptídeos.

A insulina também virou o organismo-modelo da ciência de proteínas. Foi a primeira proteína a ter a sequência completa de aminoácidos determinada — trabalho de Frederick Sanger que provou que proteínas têm sequência química definida e rendeu o Nobel de Química de 1958 — e, mais tarde, uma das primeiras a ser sintetizada quimicamente.

Da extração animal à recombinante

Por cerca de seis décadas, toda a insulina do mundo veio de matadouro: pâncreas bovino e suíno processados em escala industrial. Funcionava — as sequências animais diferem pouco da humana (a suína, em um único aminoácido) —, mas com limites reais: pureza variável nas primeiras décadas, respostas imunológicas em parte dos usuários e uma cadeia produtiva dependente da pecuária.

A virada veio com o DNA recombinante. No fim dos anos 1970, o gene da insulina humana foi expresso em micro-organismos; no início dos anos 1980, a insulina humana recombinante chegou ao mercado como o primeiro medicamento de biotecnologia aprovado no mundo. Pela primeira vez, um hormônio humano era produzido com sequência idêntica à endógena, em fermentadores, com pureza e escala industriais.

O passo seguinte inverteu a lógica: se dá para produzir a sequência humana exata, dá para editá-la de propósito. Nasceram os análogos de insulina — moléculas com trocas pontuais de aminoácidos que aceleram (lispro, asparte) ou retardam (glargina, degludeca) a absorção. Essa engenharia é assunto do post irmão: análogos de insulina — o que a engenharia mudou.

O que a insulina inaugurou

Olhando de 2026, a insulina abriu três caminhos que estruturam a farmacologia moderna:

  • A classe dos peptídeos terapêuticos. Repor ou imitar um hormônio peptídico com a molécula purificada — a lógica que hoje aparece dos análogos de GLP-1 (a linhagem de Ozempic) à teriparatida na osteoporose.
  • A biotecnologia farmacêutica. O primeiro biofármaco recombinante foi uma insulina; toda a indústria de proteínas terapêuticas — hormônios, anticorpos, enzimas — escalou sobre essa prova de conceito.
  • Um padrão regulatório e ético. Da patente cedida por um valor simbólico à padronização de potência e pureza, a insulina forçou a criação das ferramentas com que ainda hoje se avalia qualquer peptídeo: identidade, pureza, potência, imunogenicidade — réguas que separam medicamento registrado de frasco sem lastro, como o acervo discute em peptídeos "bioidênticos".

Um século depois, o diabetes tipo 1 continua exigindo insulina todos os dias — a descoberta não curou a doença, tornou-a administrável. Mas a categoria que ela fundou não parou de crescer: cada peptídeo aprovado desde então percorre, comprimida, a mesma trilha que a insulina abriu entre 1921 e 1923.

Para aprofundar

<!-- DEDUP: não existe peça histórica sobre insulina no acervo (grep "insulina" retorna posts de GLP-1/contexto e a pauta "insulina-como-hormonio" foi FUNDIDA nesta peça pelo plano peptideos-360, Lente 2). Ângulo: história + por que é peptídeo + o que inaugurou. NÃO cobre análogos em detalhe (peça irmã analogos-de-insulina-glargina-degludeca, mesma leva) nem peptídeo C/proinsulina como exame (pauta futura peptideo-c-o-que-e-exame). Citações: URLs institucionais NobelPrize.org (1923 medicina, 1958 química) — sem PMIDs para não arriscar citação histórica não verificada; datas restritas a fatos consagrados (1921-1923, Nobel 1923, Sanger 1958, recombinante início dos anos 1980). -->

Perguntas frequentes

Por que a insulina é considerada um peptídeo?
+
Porque é uma cadeia definida de aminoácidos — na verdade, duas: a cadeia A, com 21 aminoácidos, e a cadeia B, com 30, unidas por pontes dissulfeto, somando 51. A insulina fica na fronteira de tamanho entre 'peptídeo grande' e 'proteína pequena', e as duas descrições aparecem na literatura. Para a história da farmacologia, o que importa é a categoria funcional: foi o primeiro hormônio peptídico transformado em medicamento — e por isso é tratada como o primeiro peptídeo terapêutico.
Quem descobriu a insulina?
+
O núcleo da descoberta foi o trabalho de Frederick Banting e Charles Best no laboratório de John Macleod, na Universidade de Toronto, a partir do verão de 1921 — com a purificação decisiva feita pelo bioquímico James Collip, que tornou o extrato seguro para uso humano. Os primeiros pacientes foram tratados no início de 1922. O Nobel de 1923 foi para Banting e Macleod; Banting dividiu sua parte do prêmio com Best, e Macleod com Collip — um reconhecimento de que a descoberta foi um trabalho de quatro.
Como a insulina era produzida antes da engenharia genética?
+
Por extração de pâncreas de bois e porcos, em escala industrial, durante cerca de seis décadas. As insulinas bovina e suína diferem da humana em poucos aminoácidos (a suína, em apenas um) e funcionavam, mas exigiam purificação constante e podiam gerar respostas imunológicas. No início dos anos 1980, a insulina humana produzida por DNA recombinante em micro-organismos chegou ao mercado — o primeiro medicamento de biotecnologia aprovado no mundo — com sequência idêntica à humana e produção independente de matadouros.
A insulina usada hoje é igual à de 1922?
+
A molécula-alvo é a mesma — insulina humana de 51 aminoácidos —, mas o produto mudou completamente. O extrato de 1922 era impuro e de potência variável; hoje a insulina é produzida por biotecnologia com pureza farmacopeica, e boa parte do que se usa são análogos: insulinas com pequenas edições de sequência que aceleram ou retardam a absorção (lispro, asparte, glargina, degludeca). A lógica desses análogos está explicada no post irmão sobre engenharia das insulinas modernas.
O que a insulina inaugurou além do tratamento do diabetes?
+
Três linhagens inteiras da medicina moderna. Primeiro, a classe dos peptídeos e hormônios terapêuticos — a ideia de repor um hormônio deficiente com o próprio hormônio purificado. Segundo, a ciência de proteínas: a insulina foi a primeira proteína sequenciada (Sanger, Nobel de 1958), uma das primeiras a ter estrutura tridimensional resolvida e a primeira sintetizada e depois produzida por DNA recombinante como medicamento. Terceiro, a indústria de biotecnologia: o primeiro biofármaco aprovado foi justamente a insulina humana recombinante, no início dos anos 1980.

Estudos citados

2 referências
  1. 01
    Nobel Prize Outreach. The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1923 — Frederick G. Banting and John Macleod · NobelPrize.org, 1923 · Registro histórico institucional do prêmio pela descoberta da insulina

    Banting e Macleod receberam o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1923 'pela descoberta da insulina' — um dos intervalos mais curtos da história entre descoberta (1921-1922) e premiação. Banting dividiu sua parte do prêmio com Charles Best; Macleod, com James Collip.

    revisão
  2. 02
    Nobel Prize Outreach. The Nobel Prize in Chemistry 1958 — Frederick Sanger · NobelPrize.org, 1958 · Registro histórico institucional do prêmio pelo sequenciamento da insulina

    Sanger recebeu o Nobel de Química de 1958 por determinar a estrutura de proteínas, especialmente a da insulina — a primeira proteína a ter sua sequência completa de aminoácidos determinada, prova de que proteínas têm sequência definida.

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