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Liraglutida 1,2 mg vs semaglutida 1,0 mg em diabetes tipo 2: o que mostrou o SUSTAIN-10

SUSTAIN-10 (n=577): semaglutida 1,0 mg/sem reduziu HbA1c 1,7% vs 1,0% com liraglutida 1,2 mg/dia (Δ=-0,69%, p<0,0001) e peso 5,8 vs 1,9 kg, com mais descontinuação por GI.

PorAmanda MatsudaPublicado09 de junho de 2026Leitura~5 min
Ilustração editorial pephealth — Liraglutida 1,2 mg vs semaglutida 1,0 mg em diabetes tipo 2: o que mostrou o SUSTAIN-10

TL;DR

SUSTAIN-10 (Capehorn 2020, PMID 31539622) é o ensaio head-to-head mais citado entre semaglutida 1,0 mg semanal e liraglutida 1,2 mg diária em adultos com diabetes tipo 2 mal controlado com antidiabéticos orais. Em 30 semanas, n=577. Reduções: HbA1c -1,7% (sema) vs -1,0% (lira); peso -5,8 kg vs -1,9 kg; diferenças significativas a favor de semaglutida. Custo: mais descontinuação por sintomas gastrointestinais no braço semaglutida (11,4% vs 6,6%). O ensaio comparou as doses prescritas mais frequentemente na Europa — não as doses máximas aprovadas. Resultado: para controle glicêmico e peso, semaglutida 1,0 mg superou liraglutida 1,2 mg; a escolha clínica continua envolvendo tolerância, custo, posologia e comorbidades.

Por que o ensaio foi feito

Liraglutida (Victoza, Novo Nordisk) chegou ao mercado em 2010 como GLP-1RA diário injetável. Semaglutida (Ozempic, mesma empresa) chegou em 2017 como GLP-1RA semanal — vantagem de adesão evidente, mas a pergunta clínica permaneceu: a molécula semanal entrega controle glicêmico e perda de peso pelo menos equivalentes à diária?

SUSTAIN-10 foi desenhado especificamente para essa comparação direta, usando doses representativas da prática europeia: liraglutida 1,2 mg/dia (dose intermediária mais prescrita em DM2 na Europa) vs semaglutida 1,0 mg/sem (dose máxima aprovada para DM2 antes da extensão para 2,0 mg em 2022).

Desenho do estudo

População: 577 adultos, HbA1c 7,0-11,0%, em uso de 1-3 antidiabéticos orais (metformina, sulfonilureia, inibidor SGLT2).

Intervenção:

  • Braço A: semaglutida subcutânea 1,0 mg uma vez por semana (após titulação 0,25 → 0,5 → 1,0 mg em 8 semanas)
  • Braço B: liraglutida subcutânea 1,2 mg uma vez por dia (após titulação 0,6 → 1,2 mg em 1 semana)

Duração: 30 semanas de tratamento + 5 semanas de follow-up.

Desenho: fase 3b, randomizado 1:1, aberto (não cego — limitação aceita dado que dispositivos e frequências de injeção são diferentes), multicêntrico em 11 países europeus, supervisionado pela patrocinadora (Novo Nordisk).

Desfechos primários: alteração em HbA1c e peso da linha de base até 30 semanas.

Resultados — controle glicêmico

Linha de base: HbA1c 8,2%.

  • Semaglutida 1,0 mg: redução de 1,7%
  • Liraglutida 1,2 mg: redução de 1,0%
  • Diferença estimada: -0,69% (IC 95% -0,82 a -0,56; p<0,0001)

Em termos clínicos, isso significa: em paciente partindo de HbA1c 8,2%, semaglutida atinge cerca de 6,5%, liraglutida atinge cerca de 7,2%. Ambos representam controle aceitável, mas semaglutida cruza o limiar de 7,0% (alvo terapêutico comum em DM2) com mais frequência.

Proporção atingindo HbA1c <7,0%: 80% sema vs 62% lira.

Resultados — peso

Linha de base: 96,9 kg.

  • Semaglutida 1,0 mg: -5,8 kg
  • Liraglutida 1,2 mg: -1,9 kg
  • Diferença estimada: -3,83 kg (IC 95% -4,57 a -3,09; p<0,0001)

Proporção com perda ≥5%: 56% sema vs 18% lira. Proporção com perda ≥10%: 18% sema vs 4% lira.

A vantagem de peso é clinicamente importante porque DM2 e obesidade compartilham eixo fisiopatológico — perda de peso significativa reduz necessidade de medicamento e melhora desfechos cardiovasculares.

Custo: tolerância gastrointestinal

Eventos gastrointestinais (náusea, vômito, diarreia, constipação) ocorreram em:

  • 43,9% braço semaglutida
  • 38,3% braço liraglutida

Descontinuação por evento adverso (predominantemente GI):

  • 11,4% sema
  • 6,6% lira

Esse trade-off é importante. Aproximadamente 1 em 9 pacientes em semaglutida 1,0 mg abandonou o tratamento por intolerância — mais que 1 em 15 em liraglutida 1,2 mg. Em prática clínica, isso significa que a vantagem de eficácia média da semaglutida não chega ao paciente que descontinua. Titulação cuidadosa, ajuste de dose intermediária (0,5 mg como manutenção em casos selecionados) e orientação nutricional anti-náusea são estratégias de mitigação.

O que SUSTAIN-10 não respondeu

1. Comparação com doses máximas. Liraglutida em DM2 pode chegar a 1,8 mg; semaglutida desde 2022 chega a 2,0 mg. SUSTAIN-10 fixou doses intermediárias representativas, não máximas.

2. Desfechos cardiovasculares. Estudo de 30 semanas, com peso e HbA1c como desfechos. Cardiovascular major adverse events (MACE) foi estudado em LEADER (liraglutida, Marso 2016) e SUSTAIN-6 (semaglutida). Ambos os produtos mostraram redução de MACE; SUSTAIN-10 não compara cardiovasculares head-to-head.

3. Pacientes em obesidade sem diabetes. SUSTAIN-10 incluiu apenas DM2. Para obesidade, comparações análogas seriam Saxenda (liraglutida 3,0 mg) vs Wegovy (semaglutida 2,4 mg) — estudo STEP 8 (Rubino 2022) abordou parte dessa pergunta.

4. Custo-efetividade. Em formulários de saúde, decisão depende não só de eficácia mas de preço, cobertura, posologia preferida. SUSTAIN-10 é um insumo clínico, não decisor isolado.

Como interpretar para o paciente

Cenário 1 — DM2 em uso de metformina, HbA1c 8,5%, IMC 32, preferência por semanal: semaglutida 1,0 mg/sem é razoável. Expectativa: redução ~1,5-1,7% HbA1c, ~5-6 kg em 30 semanas, ~12% de chance de descontinuação por sintomas GI.

Cenário 2 — DM2 em uso de metformina, HbA1c 8,5%, IMC 32, em uso prévio de liraglutida 1,2 mg com tolerância adequada e controle subótimo: aumentar liraglutida para 1,8 mg (dose máxima) é uma opção; trocar para semaglutida é outra. Decisão depende de adesão ao diário, custo e preferência.

Cenário 3 — DM2, IMC 28, HbA1c 7,3%, em uso de metformina, com histórico de intolerância gastrointestinal: liraglutida 1,2 mg pode ser melhor primeira escolha por curva de titulação mais lenta e meia-vida mais curta (suspende em 24h se necessário). Subir para 1,8 mg apenas se tolerância adequada.

Comparação com a era pós-SUSTAIN-10

SUSTAIN-10 (publicado 2020) ainda é referência para a comparação entre as duas moléculas, mas o cenário evoluiu:

  • Semaglutida 2,0 mg (DM2) — disponível desde 2022, adiciona ~0,2-0,3% de redução de HbA1c sobre 1,0 mg.
  • Tirzepatida (Mounjaro) — agonista duplo GIP/GLP-1, superou semaglutida 1 mg em SURPASS-2 (Frías 2021, PMID 34170647) com HbA1c -2,30% (15 mg) vs -1,86% (sema 1 mg).
  • Semaglutida 2,4 mg (Wegovy, obesidade) — perfil de peso e segurança em obesidade sem diabetes detalhado em STEP-1 (Wilding 2021).

Em 2026, a comparação clínica relevante muitas vezes não é mais lira 1,2 vs sema 1,0 — é sema 1,0/2,0 vs tirzepatida em DM2, ou sema 2,4 vs tirzepatida (Zepbound) em obesidade.

O que isso significa na prática

SUSTAIN-10 estabeleceu que, nas doses representativas da prática europeia, semaglutida 1,0 mg semanal supera liraglutida 1,2 mg diária em redução de HbA1c (cerca de 0,7 ponto percentual) e peso (cerca de 4 kg) em 30 semanas, com custo de mais sintomas gastrointestinais e mais descontinuação por intolerância (11,4% vs 6,6%). O ensaio não compara doses máximas, não avalia desfechos cardiovasculares head-to-head, e não substitui decisão clínica individual. Para o paciente que tolera, semaglutida tende a entregar mais controle metabólico; para quem não tolera, liraglutida em dose máxima ou outras classes (inibidor SGLT2, tirzepatida) são alternativas legítimas.

Para aprofundar

Perguntas frequentes

SUSTAIN-10 comparou as doses máximas dos dois medicamentos?
+
Não. SUSTAIN-10 escolheu doses de uso clínico mais frequente em DM2 na Europa: semaglutida 1,0 mg semanal (dose máxima aprovada para diabetes na época) vs liraglutida 1,2 mg diária (dose intermediária do espectro 0,6-1,8 mg). Liraglutida 1,8 mg, dose máxima aprovada para diabetes, não foi comparada. Para obesidade, liraglutida usa 3,0 mg (Saxenda) e semaglutida usa 2,4 mg (Wegovy) — comparação diferente.
Esses resultados se aplicam a Ozempic 0,5 mg ou 2,0 mg?
+
Parcialmente. SUSTAIN-10 testou 1,0 mg. Doses inferiores (0,25 mg, 0,5 mg) produzem reduções de HbA1c e peso menores; dose superior (2,0 mg, aprovada após SUSTAIN-10) produz reduções maiores. Ensaios separados (SUSTAIN FORTE, NCT03989232) compararam 2,0 mg vs 1,0 mg e mostraram benefício adicional modesto.
Por que semaglutida teve mais descontinuação por sintomas gastrointestinais?
+
Em SUSTAIN-10, eventos gastrointestinais ocorreram em 43,9% do braço semaglutida vs 38,3% do braço liraglutida; descontinuação por evento adverso foi 11,4% vs 6,6%. Possíveis explicações: titulação mais rápida no protocolo, dose 1,0 mg posológica maior em termos relativos para alguns pacientes, e meia-vida prolongada de semaglutida (cerca de 7 dias) que mantém exposição estável.
Esse estudo justifica trocar liraglutida por semaglutida em todos os pacientes?
+
Não automaticamente. A decisão depende de: tolerância gastrointestinal atual, custo e cobertura, preferência por aplicação diária vs semanal, comorbidades (em pacientes com risco cardiovascular alto, ambos têm desfechos: LEADER para lira, SUSTAIN-6 para sema). Conversa clínica individualizada é o padrão — SUSTAIN-10 é um insumo, não algoritmo.
SUSTAIN-10 é aplicável ao Brasil?
+
O ensaio foi conduzido em centros europeus, mas a fisiopatologia do DM2 e a resposta aos GLP-1 são razoavelmente conservadas entre populações. ANVISA aprova ambas as moléculas com bula consistente com os dados europeus. Custo e disponibilidade no SUS variam — em 2026, semaglutida (Ozempic) e liraglutida (Victoza, Saxenda) têm registro ANVISA, mas o SUS não distribui rotineiramente; planos de saúde cobrem em algumas situações.

Estudos citados

3 referências
  1. 01
    Capehorn MS, Catarig AM, Furberg JK, Janez A, Price HC, Tadayon S, et al.. Efficacy and safety of once-weekly semaglutide 1.0mg vs once-daily liraglutide 1.2mg as add-on to 1-3 oral antidiabetic drugs in subjects with type 2 diabetes (SUSTAIN 10) · Diabetes & Metabolism, 2020 · Ensaio fase 3b, randomizado, aberto, multicêntrico — 577 adultos com DM2 em 1-3 antidiabéticos orais

    Comparação head-to-head sema 1,0 mg/sem vs lira 1,2 mg/dia em 30 semanas. Diferença HbA1c -0,69% (IC -0,82 a -0,56). Diferença peso -3,83 kg. Descontinuação por evento adverso 11,4% sema vs 6,6% lira.

  2. 02
    Frías JP, Davies MJ, Rosenstock J, Pérez Manghi FC, Fernández Landó L, Bergman BK, et al.. Tirzepatide versus Semaglutide Once Weekly in Patients with Type 2 Diabetes · New England Journal of Medicine, 2021 · Ensaio fase 3 randomizado, 1879 adultos com DM2 — SURPASS-2

    Contextualiza a comparação entre GLP-1 análogos: sema 1 mg reduziu HbA1c 1,86%; tirzepatida 15 mg reduziu 2,30%. Útil para situar SUSTAIN-10 no cenário 2021-2024.

  3. 03
    Capehorn MS. SUSTAIN 10: Efficacy and Safety of Semaglutide 1.0 mg Once Weekly versus Liraglutide 1.2 mg Once Daily · European Medical Journal — Diabetes, 2019 · Resumo de congresso EASD 2019

    Apresentação original dos resultados de SUSTAIN-10 antes da publicação completa em 2020.

    revisão

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