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Explicação·Ciência básica

Mazdutida: o que é (coagonista GLP-1/glucagon)

Coagonista GLP-1/glucagon (IBI362) derivado da oxintomodulina, em desenvolvimento na China (GLORY/DREAMS). O que se sabe hoje: mecanismo, dados de fase 2 e por que ainda é investigacional no Brasil.

PorAmanda MatsudaPublicado26 de julho de 2026Leitura~4 min

TL;DR

Mazdutida (também grafada mazdutide; códigos IBI362 / LY3305677) é um peptídeo coagonista dos receptores de GLP-1 e de glucagon, derivado da oxintomodulina e aplicado por via subcutânea semanal. O braço GLP-1 traz saciedade e controle glicêmico; o braço glucagon adiciona gasto energético e efeito sobre o metabolismo hepático de lipídios. O desenvolvimento clínico avança sobretudo na China (programas de fase 3 GLORY e DREAMS). A evidência publicada em revista indexada inclui um ensaio de fase 2 em diabetes tipo 2 (Zhang 2024, Diabetes Care, [PMID 37943529](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37943529/), n=250): em 20 semanas, a HbA1c caiu 1,41 a 1,67 ponto e a perda de peso chegou a 7,1%, dose-dependente. Mazdutida não tem registro na ANVISA e permanece investigacional no Brasil.

O que é a mazdutida

Mazdutida é um coagonista — um único peptídeo que ativa dois receptores ao mesmo tempo: o de GLP-1 e o de glucagon. Ela é estruturalmente derivada da oxintomodulina, um hormônio intestinal que, naturalmente, também atua sobre esses dois receptores. A modificação que a torna candidata a medicamento é o desenho para aplicação semanal.

A lógica de somar GLP-1 e glucagon num só peptídeo é a de complementar mecanismos, e é a mesma família conceitual de outros coagonistas GLP-1/glucagon, como a survodutida.

Como age no corpo

Mazdutida ativa dois receptores com efeitos que se somam:

  • Braço GLP-1. Estimula secreção de insulina dependente de glicose, reduz glucagon pós-prandial, retarda o esvaziamento gástrico e promove saciedade — os efeitos típicos da classe GLP-1.
  • Braço glucagon. Adiciona um componente de aumento do gasto energético e de efeito sobre o metabolismo hepático, incluindo mobilização de lipídios no fígado. É o que distingue um coagonista de um agonista puro de GLP-1.
  • Efeito combinado. A hipótese é que a soma dos dois braços amplie a perda de peso e traga benefício metabólico adicional, sobretudo hepático.

O braço glucagon também explica por que o perfil de segurança de um coagonista precisa de caracterização própria — por exemplo, quanto a frequência cardíaca e parâmetros metabólicos. As doses usadas no ensaio de fase 2 (3, 4,5 e 6 mg semanais) são de protocolo de pesquisa; não há esquema aprovado por bula no Brasil, e nada aqui é orientação de dose.

O que se sabe da fase 2

A evidência publicada em revista indexada de referência é o ensaio de fase 2 em diabetes tipo 2 de Zhang e colaboradores.

Zhang 2024 ([PMID 37943529](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37943529/), Diabetes Care). Ensaio de fase 2 duplo-cego, controlado por placebo e por comparador ativo (dulaglutida), com 250 pacientes chineses com diabetes tipo 2 randomizados em cinco braços: mazdutida 3 mg (n=51), 4,5 mg (n=49), 6 mg (n=49), dulaglutida (n=50) e placebo (n=51), por 20 semanas. O desfecho primário foi a variação da HbA1c.

Resultados em 20 semanas: as reduções médias de HbA1c com a mazdutida variaram de −1,41% a −1,67%, e a variação percentual do peso foi dose-dependente, chegando a −7,1% na dose mais alta. Os eventos gastrointestinais (náusea, vômito, diarreia) foram os mais frequentes, consistentes com o braço GLP-1.

A leitura honesta: é um ensaio de fase 2, de curto prazo (20 semanas) e em população chinesa. Mostra sinal consistente de eficácia glicêmica e ponderal, mas não é um ensaio de desfecho de longo prazo. Os resultados de fase 3 (GLORY e DREAMS) devem ser interpretados à medida que forem publicados e revisados.

O que ainda não se sabe

  • Os resultados definitivos de fase 3 (GLORY/DREAMS), que ainda devem ser lidos à medida que forem publicados e revisados.
  • Segurança de longo prazo e desfechos cardiovasculares do coagonista.
  • Como o perfil de eficácia e segurança se comporta fora da população chinesa, incluindo pacientes brasileiros.

Status no Brasil

A mazdutida não tem registro na ANVISA e não possui indicação aprovada no Brasil. Como molécula investigacional, qualquer uso seria sob protocolo de pesquisa. Este conteúdo descreve dados de ensaios, não uma bula vigente, e não constitui recomendação de uso. A pephealth não recomenda nem desaconselha a mazdutida — a função deste texto é descrever, com transparência, o que existe na literatura indexada.

Para aprofundar

<!-- DEDUP: grep -irl "mazdutida" content/drafts retornou a ficha /peptideos/mazdutida (2026-07-09-app-cobertura), o comparativo incretinas-nova-geracao e menções em survodutide/farmacopeia. Não há post de INTENÇÃO DE BUSCA "mazdutida o que é". Esta peça responde à query com resposta direta no topo e LINKA a ficha, sem repetir o escopo dela. PMID 37943529 (Zhang 2024, Diabetes Care) já verificado e citado na ficha do repo. -->

Perguntas frequentes

O que é a mazdutida?
+
A mazdutida (também grafada mazdutide; códigos IBI362 e LY3305677) é um peptídeo coagonista que ativa dois receptores ao mesmo tempo: o de GLP-1 e o de glucagon. Ela deriva da oxintomodulina, um hormônio intestinal que naturalmente atua nesses dois receptores. A ideia é somar a saciedade e o controle glicêmico do braço GLP-1 ao aumento de gasto energético do braço glucagon. O desenvolvimento clínico avança sobretudo na China e a molécula não tem registro na ANVISA.
A mazdutida é um GLP-1 como a semaglutida?
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Não exatamente. A semaglutida é um agonista puro do receptor de GLP-1. A mazdutida é um coagonista: ativa o receptor de GLP-1 e também o de glucagon. O braço glucagon adiciona um componente de gasto energético e de efeito sobre o metabolismo hepático que o agonista puro não tem — o racional para, em tese, ampliar a perda de peso e beneficiar o fígado gorduroso. Na prática, a semaglutida já tem registro e ampla evidência de fase 3, enquanto a mazdutida permanece investigacional.
Em que fase de desenvolvimento a mazdutida está?
+
A evidência publicada em revista indexada inclui um ensaio de fase 2 em pacientes chineses com diabetes tipo 2 (Zhang 2024, Diabetes Care, n=250). O desenvolvimento clínico de fase 3 avança nos programas GLORY e DREAMS, conduzidos sobretudo na China. Os resultados de fase 3 devem ser lidos à medida que forem publicados e revisados — sem antecipar conclusões a partir da fase 2.
Quanto a mazdutida reduziu a glicemia e o peso na fase 2?
+
No ensaio de fase 2 (Zhang 2024, Diabetes Care, n=250), em 20 semanas, as reduções médias de HbA1c variaram de 1,41 a 1,67 ponto percentual com a mazdutida, e a perda de peso foi dose-dependente, chegando a cerca de 7,1% na dose mais alta. São dados de fase 2, de curto prazo e em população chinesa; não são um número a extrapolar para qualquer pessoa nem uma indicação de uso.
A mazdutida é aprovada no Brasil?
+
Não. A mazdutida não tem registro na ANVISA e não possui indicação aprovada no Brasil. Seu desenvolvimento clínico avança principalmente na China. Qualquer menção a doses ou eficácia neste conteúdo se refere a dados de ensaios (fase 2), não a uma bula vigente. Não há apresentação comercial registrada no país, e o texto é descritivo, sem recomendação de uso.
Por que a mazdutida está sendo desenvolvida na China?
+
A mazdutida é um exemplo de que boa parte da inovação metabólica hoje corre fora do eixo EUA/Europa. Seus programas de fase 3 (GLORY e DREAMS) e a evidência de fase 2 publicada foram conduzidos sobretudo em população chinesa. Isso é relevante para ler os resultados com cuidado: parte do que se sabe vem dessa população específica, e como o perfil se comporta em brasileiros ainda não está estabelecido.

Estudos citados

1 referência
  1. 01
    Zhang B, Cheng Z, Chen J, Zhang X, Liu D, Jiang H, Ma G, Wang X, Gan S, Sun J, et al.. Efficacy and Safety of Mazdutide in Chinese Patients With Type 2 Diabetes: A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Phase 2 Trial · Diabetes Care, 2024 · RCT de fase 2 duplo-cego, controlado por placebo e por comparador ativo (dulaglutida) — mazdutida subcutânea semanal 3 mg, 4,5 mg ou 6 mg em pacientes chineses com diabetes tipo 2; 20 semanasn = 250

    As reduções médias de HbA1c da linha de base à semana 20 variaram de −1,41% a −1,67% com mazdutida; a variação percentual do peso foi dose-dependente, chegando a −7,1%. Evidência de fase 2, curto prazo (20 semanas), população chinesa.

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