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Estudo em foco·Ciência básica

SURMOUNT-3: tirzepatida depois que a dieta já funcionou

O SURMOUNT-3 (Wadden 2023, Nature Medicine, n=579) só randomizou quem já tinha perdido ≥5% com 12 semanas de estilo de vida. Depois disso, a tirzepatida somou −18,4% enquanto o placebo reganhou +2,5% em 72 semanas.

PorAmanda MatsudaPublicado19 de julho de 2026Leitura~4 min

TL;DR

O SURMOUNT-3 (Wadden et al, Nature Medicine 2023, PMID 37840095) fez uma pergunta que os outros ensaios de tirzepatida não fizeram: o que muda quando o remédio começa depois que a dieta já funcionou? Todos os 579 participantes passaram primeiro por 12 semanas de estilo de vida intensivo, e só foram sorteados os que já tinham perdido pelo menos 5% do peso. A partir daí, randomizados 1:1 para tirzepatida (dose máxima tolerada, 10 ou 15 mg/semana) ou placebo, por 72 semanas. O resultado, contado a partir da randomização — ou seja, além do ≥5% já perdido: −18,4% com tirzepatida vs +2,5% no placebo (diferença de 20,8 pontos percentuais). E 87,5% dos que usaram tirzepatida atingiram perda adicional ≥5%, contra 16,5% no placebo. O placebo reganhou peso — e é esse contraste que dá sentido ao número.

A pergunta que o SURMOUNT-3 responde

A maioria dos ensaios de perda de peso começa do zero: recruta a pessoa, sorteia remédio ou placebo, mede a partir dali. O SURMOUNT-3 inverteu a ordem para simular uma situação clínica real — o paciente que já tentou (e conseguiu) perder peso com estilo de vida, e agora considera acrescentar um medicamento.

Por isso o desenho tem duas fases. Primeiro, todos entram numa fase aberta de 12 semanas de estilo de vida intensivo (dieta, atividade, acompanhamento). Só quem cruza o limiar de ≥5% de perda avança para a segunda fase — o sorteio propriamente dito. Isso significa que a linha de base do ensaio randomizado é uma pessoa que já emagreceu. Todo número medido a partir daí é adicional.

O desenho

O SURMOUNT-3 foi um ensaio fase 3 randomizado (1:1), duplo-cego, controlado por placebo, com 72 semanas na fase randomizada e 579 adultos com sobrepeso ou obesidade — todos já com ≥5% de perda na fase prévia de estilo de vida.

FaseO que aconteceu
Estilo de vida (12 sem)Todos os participantes; só avançou quem perdeu ≥5%
Randomização (72 sem)Tirzepatida dose máxima tolerada (10 ou 15 mg/sem) vs placebo

Os dois desfechos primários foram medidos a partir da randomização: a variação percentual adicional de peso até a semana 72 e a proporção que atingiu perda adicional ≥5%. Ambos foram atingidos.

Os números verificados

A partir da randomização, a tirzepatida na dose máxima tolerada produziu variação de peso de −18,4% em 72 semanas. O placebo teve +2,5% — isto é, reganhou peso a partir do ponto já reduzido. A diferença entre os grupos foi de 20,8 pontos percentuais.

Na proporção que atingiu perda clinicamente relevante adicional, o contraste é ainda mais nítido: 87,5% dos que usaram tirzepatida perderam pelo menos 5% a mais, contra 16,5% no placebo.

Por que o placebo reganhou — e por que isso importa

O +2,5% do grupo placebo não é um detalhe: é o eixo da interpretação. Como o marco zero foi a randomização (depois do sucesso inicial com estilo de vida), o grupo placebo representa o que acontece com quem para de intensificar e tenta só manter. E o que aconteceu foi um reganho parcial — o padrão conhecido de que manter o peso perdido apenas com hábito é biologicamente difícil.

É contra esse pano de fundo que o −18,4% ganha significado. Não é só "a tirzepatida faz perder 18%"; é "a tirzepatida continua reduzindo o peso num terreno onde a tendência natural é reganhar". O contraste real do ensaio — a diferença de 20,8 pontos entre um grupo que perde muito e outro que reganha — é maior do que o número isolado de qualquer braço.

O que o SURMOUNT-3 não mede

É um ensaio de peso. Seus desfechos primários são variação percentual de peso e proporção atingindo ≥5% de perda adicional. Ele não demonstra redução de infarto, AVC ou morte cardiovascular — para isso existem ensaios de desfecho cardiovascular específicos. Também não diz que o −18,4% ocorre em quem nunca conseguiu perder peso com estilo de vida: a população foi selecionada justamente por já ter perdido ≥5%. Extrapolar o número para fora dessa seleção distorce o que o ensaio mostrou.

O que isso significa na prática

O SURMOUNT-3 mostra que, em pessoas que haviam perdido ≥5% do peso com estilo de vida, acrescentar tirzepatida produziu perda adicional média de −18,4% em 72 semanas, enquanto o placebo reganhou +2,5% — uma diferença de cerca de 21 pontos percentuais, com 87,5% cruzando o limiar de ≥5% adicional. A leitura honesta: o medicamento soma ao resultado do estilo de vida, e ajuda a conter o reganho que costuma vir depois. O que o ensaio não autoriza: tratar o −18,4% como perda total (é adicional), extrapolar para quem não respondeu ao estilo de vida, prometer resultado individual a partir de médias, ou confundir desfecho de peso com desfecho cardiovascular. A indicação, a dose e a expectativa realista são decisão clínica e individualizada, com prescrição médica.

Para aprofundar

<!-- dedup: grep -irl "surmount\|tirzepatida" content/drafts — SURMOUNT-3 (lifestyle lead-in) ainda não coberto; ângulo "perda adicional sobre estilo de vida" é inédito. -->

Perguntas frequentes

O que o SURMOUNT-3 mediu de diferente dos outros estudos de tirzepatida?
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O SURMOUNT-3 (Wadden 2023, Nature Medicine, n=579) inverteu a ordem: primeiro todos os participantes passaram por 12 semanas de estilo de vida intensivo e só entraram no sorteio quem já tinha perdido pelo menos 5% do peso. A partir daí, a randomização comparou tirzepatida (dose máxima tolerada, 10 ou 15 mg/semana) com placebo por 72 semanas. Então o número principal — −18,4% com tirzepatida vs +2,5% com placebo — é uma perda adicional, medida em cima de quem já tinha emagrecido. Isso responde a uma pergunta clínica específica: o que acontece quando o remédio começa depois que a dieta já funcionou.
Quanto de peso a tirzepatida fez perder no SURMOUNT-3?
+
Contando só a partir da randomização (depois do ≥5% já perdido na fase de estilo de vida), a tirzepatida na dose máxima tolerada produziu variação de peso de −18,4% em 72 semanas, contra +2,5% no grupo placebo — uma diferença de 20,8 pontos percentuais. E 87,5% de quem usou tirzepatida atingiu uma perda adicional de pelo menos 5%, contra 16,5% no placebo. Os números são específicos desse ensaio, dessa dose e dessa população que já vinha perdendo peso.
Por que o grupo placebo GANHOU peso no SURMOUNT-3?
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Porque o marco zero do estudo foi a randomização, que aconteceu depois de 12 semanas de estilo de vida bem-sucedido. A partir desse ponto de peso já reduzido, o grupo placebo — que mantinha apenas a orientação de estilo de vida — apresentou variação de +2,5%, ou seja, um reganho parcial. Isso ilustra um padrão conhecido: manter o peso perdido só com estilo de vida é difícil, e a tendência natural é reganhar parte. O +2,5% do placebo não é falha do estudo; é o contraste que dá sentido ao −18,4% da tirzepatida.
A perda de −18,4% inclui o que já tinha sido perdido com a dieta?
+
Não. O −18,4% é uma variação adicional, medida a partir da randomização — que já ocorreu depois de a pessoa ter perdido pelo menos 5% nas 12 semanas de estilo de vida. Então a perda total desde o início do programa é ainda maior que 18,4%, porque soma as duas fases. O desenho separa propositalmente as duas etapas para responder quanto o medicamento acrescenta sobre um resultado de estilo de vida já obtido.
O SURMOUNT-3 mostrou benefício cardiovascular da tirzepatida?
+
Não. O SURMOUNT-3 foi um ensaio de perda de peso, com desfechos primários de variação percentual de peso e proporção atingindo ≥5% de perda adicional — não foi desenhado para medir infarto, AVC ou morte cardiovascular. Desfecho de peso não é desfecho cardiovascular, e misturar os dois é um erro comum de leitura. A avaliação cardiovascular da tirzepatida corre em outros ensaios específicos.
Esses números valem para qualquer pessoa que quer emagrecer?
+
Não automaticamente. O SURMOUNT-3 recrutou uma população selecionada: pessoas com sobrepeso ou obesidade que já tinham demonstrado capacidade de perder ≥5% do peso com estilo de vida antes de entrar no sorteio. Isso já filtra quem responde bem a mudanças de hábito. Fora desse contexto, com escalonamento de dose e acompanhamento estruturado de ensaio, a resposta individual varia. A média do ensaio é referência de magnitude, não promessa individual — a indicação, a dose e a expectativa realista são decisão clínica, com prescrição médica.

Estudos citados

1 referência
  1. 01
    Wadden TA, Chao AM, Machineni S, Kushner R, Ard J, Srivastava G, Halpern B, Zhang S, Chen J, Bunck MC, Ahmad NN, Forrester T.. Tirzepatide after intensive lifestyle intervention in adults with overweight or obesity: the SURMOUNT-3 phase 3 trial · Nature Medicine, 2023 · Ensaio fase 3 randomizado (1:1), duplo-cego, controlado por placebo — 579 adultos com sobrepeso ou obesidade que já haviam perdido ≥5% do peso em 12 semanas de estilo de vida intensivo antes da randomização; tirzepatida na dose máxima tolerada (10 ou 15 mg/semana) vs placebo, 72 semanas

    A partir da randomização (ou seja, além do ≥5% já perdido na fase de estilo de vida), a tirzepatida produziu variação adicional de peso de −18,4% vs +2,5% no placebo (diferença de −20,8 pontos percentuais). 87,5% dos que usaram tirzepatida atingiram perda adicional ≥5% vs 16,5% no placebo. Ambos os desfechos primários foram atingidos.

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