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Estudo em foco·Ciência básica

SURPASS-1: o que a tirzepatida faz sozinha, sem outro antidiabético

O SURPASS-1 (Rosenstock 2021, Lancet, n=478) testou tirzepatida em monoterapia — sem outro antidiabético — em diabetes tipo 2: HbA1c caiu até −2,07% vs +0,04% no placebo em 40 semanas, com 7 a 9,5 kg de perda.

PorAmanda MatsudaPublicado03 de agosto de 2026Leitura~3 min

TL;DR

O SURPASS-1 (Rosenstock et al, Lancet 2021, PMID 34186022) testou a tirzepatida em monoterapia — sem metformina nem outro antidiabético de base — em 478 adultos com diabetes tipo 2, por 40 semanas. A HbA1c caiu −1,87% (5 mg), −1,89% (10 mg) e −2,07% (15 mg), contra +0,04% no placebo. A perda de peso foi de 7,0 a 9,5 kg, dose-dependente. E, nos braços de tirzepatida, não houve hipoglicemia clinicamente significativa (<54 mg/dL) nem grave. O valor do ensaio está no desenho: ele mostra o que a tirzepatida faz sozinha, sem outros fármacos ajudando.

Por que olhar um ensaio de monoterapia

A maioria dos estudos de diabetes tipo 2 adiciona o fármaco novo sobre um tratamento já em curso — quase sempre metformina. Isso é realista clinicamente, mas atrapalha uma pergunta específica: quanto do efeito é da molécula nova, e quanto é da base?

O SURPASS-1 responde justamente a isso. Ele recrutou pessoas com diabetes tipo 2 que não estavam usando outro antidiabético e testou a tirzepatida isolada. O resultado, portanto, é atribuível à tirzepatida sem confusão com outros medicamentos. É a foto mais limpa da eficácia isolada da molécula.

O desenho

O SURPASS-1 foi um ensaio fase 3 randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, com 40 semanas de duração. Randomizou 478 adultos com diabetes tipo 2 em monoterapia, distribuídos em quatro braços:

BraçoO que é
Tirzepatida 5 mgMenor dose testada
Tirzepatida 10 mgDose intermediária
Tirzepatida 15 mgMaior dose testada
PlaceboComparador

O desfecho primário foi a mudança na HbA1c (hemoglobina glicada) em 40 semanas. Peso corporal e segurança — incluindo hipoglicemia — foram desfechos secundários.

Os números verificados

Na HbA1c, a redução foi consistente e dose-dependente:

BraçoMudança na HbA1c em 40 semanas
Tirzepatida 5 mg−1,87% (−20 mmol/mol)
Tirzepatida 10 mg−1,89% (−21 mmol/mol)
Tirzepatida 15 mg−2,07% (−23 mmol/mol)
Placebo+0,04%

Enquanto o placebo praticamente não mudou (na verdade subiu levemente), os três braços de tirzepatida reduziram a HbA1c entre cerca de 1,9 e 2,1 pontos percentuais a mais que o placebo. A perda de peso acompanhou, variando de 7,0 a 9,5 kg conforme a dose.

A leitura sobre hipoglicemia

Um ponto que chama atenção: nos braços de tirzepatida, o ensaio não reportou hipoglicemia clinicamente significativa (glicose <54 mg/dL) nem hipoglicemia grave. Isso faz sentido no contexto de monoterapia — sem sulfonilureias ou insulina, que são os fármacos mais associados a hipoglicemia, o risco é naturalmente menor.

A leitura honesta: esse achado vale para este cenário. Combinada com outros medicamentos, ou em pessoas com perfis diferentes, a tirzepatida pode ter um comportamento distinto quanto a hipoglicemia. O ensaio descreve o que ocorreu em monoterapia, não uma garantia universal.

O que o SURPASS-1 não mede

O SURPASS-1 é um ensaio de controle glicêmico. Seu desfecho é a HbA1c, não eventos cardiovasculares. Ele não demonstra redução de infarto, AVC ou morte cardiovascular — para isso existem ensaios de desfecho cardiovascular desenhados especificamente. Também é um estudo de 40 semanas: não fala sobre efeitos de muitos anos nem sobre manutenção do resultado a longo prazo. Cada tipo de ensaio responde a uma pergunta, e o SURPASS-1 responde à da eficácia glicêmica isolada.

O que isso significa na prática

O SURPASS-1 mostra que, sozinha, sem outro antidiabético de base, a tirzepatida produziu queda de HbA1c de −1,87% a −2,07% em 40 semanas em diabetes tipo 2, com perda de 7 a 9,5 kg e sem hipoglicemia significativa nos braços do fármaco. É uma medida limpa da eficácia isolada da molécula. O que o ensaio não autoriza: extrapolar esses números para qualquer esquema de tratamento, prometer resultado individual a partir de médias de ensaio, ou tratar controle glicêmico como se fosse desfecho cardiovascular. A indicação, a dose e o esquema — monoterapia ou combinação — são decisão clínica e individualizada, com prescrição médica.

Para aprofundar

<!-- dedup: verificado grep em content/drafts. Existem surpass-3-tirzepatida (SURPASS-3, tirzepatida vs insulina degludeca) e surmount-3/4 (obesidade). Nenhum cobre SURPASS-1 / monoterapia. Ângulo aqui: eficácia ISOLADA da tirzepatida sem antidiabético de base. Sem colisão de slug. -->

Perguntas frequentes

O que foi testado no SURPASS-1?
+
O SURPASS-1 (Rosenstock 2021, Lancet, n=478) testou a tirzepatida como monoterapia em adultos com diabetes tipo 2, ou seja, sem metformina nem outro medicamento antidiabético de fundo. Foram comparadas três doses semanais — 5 mg, 10 mg e 15 mg — contra placebo, ao longo de 40 semanas. O diferencial do ensaio é isolar o efeito da tirzepatida sozinha, sem outros fármacos contribuindo para o resultado.
Quanto a tirzepatida reduziu a HbA1c no SURPASS-1?
+
Em 40 semanas, a HbA1c caiu −1,87% com 5 mg, −1,89% com 10 mg e −2,07% com 15 mg, contra +0,04% no placebo (que subiu levemente). A diferença em relação ao placebo ficou em torno de −1,9 a −2,1 pontos percentuais, dependendo da dose. São números específicos desse ensaio, dessas doses e dessa população em monoterapia — não uma promessa de resposta individual.
Houve perda de peso no SURPASS-1?
+
Sim. A perda de peso foi dose-dependente, variando de 7,0 a 9,5 kg entre os braços de tirzepatida ao longo das 40 semanas. Vale lembrar que o SURPASS-1 é um ensaio de controle glicêmico em diabetes tipo 2 — o peso é um desfecho secundário, e a magnitude depende da dose, da população e do contexto do estudo.
A tirzepatida causou hipoglicemia no SURPASS-1?
+
Segundo o relato do ensaio, não houve hipoglicemia clinicamente significativa (glicose <54 mg/dL) nem hipoglicemia grave nos braços de tirzepatida. Isso é coerente com o fato de o estudo ter sido feito em monoterapia, sem fármacos como sulfonilureias ou insulina, que aumentam o risco de hipoglicemia. Em outros contextos, com outros medicamentos associados, o risco pode ser diferente — a avaliação é clínica.
Por que testar tirzepatida sem outros antidiabéticos importa?
+
Boa parte dos ensaios de diabetes adiciona o novo fármaco sobre uma base já existente (metformina, por exemplo), o que torna difícil separar o quanto cada componente contribui. Ao usar monoterapia, o SURPASS-1 mede a eficácia isolada da tirzepatida. Isso ajuda a entender a molécula nos seus próprios termos, mas não define como ela deve ser prescrita — a escolha de esquema é sempre clínica e individualizada.
O SURPASS-1 mostrou benefício cardiovascular?
+
Não. O SURPASS-1 é um ensaio de controle glicêmico, com desfecho primário de mudança na HbA1c — não foi desenhado para medir eventos cardiovasculares como infarto, AVC ou morte cardiovascular. Concluir sobre proteção cardiovascular a partir dele é um erro comum de leitura; esse tipo de pergunta exige ensaios de desfecho específicos.

Estudos citados

1 referência
  1. 01
    Rosenstock J, Wysham C, Frías JP, Kaneko S, Lee CJ, Fernández Landó L, et al.. Efficacy and safety of a novel dual GIP and GLP-1 receptor agonist tirzepatide in patients with type 2 diabetes (SURPASS-1): a double-blind, randomised, phase 3 trial · The Lancet, 2021 · Ensaio fase 3 randomizado, duplo-cego, controlado por placebo — 478 adultos com diabetes tipo 2 em monoterapia (sem outro antidiabético de base), 40 semanas (SURPASS-1)

    Tirzepatida em monoterapia reduziu a HbA1c em −1,87% (5 mg), −1,89% (10 mg) e −2,07% (15 mg) vs +0,04% no placebo em 40 semanas; perda de peso de 7,0 a 9,5 kg dose-dependente; sem hipoglicemia clinicamente significativa (<54 mg/dL) ou grave nos braços de tirzepatida.

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