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Estudo em foco·Ciência básica

SURPASS-2: o head-to-head que colocou tirzepatida acima da semaglutida

O SURPASS-2 (Frías 2021, NEJM, n=1879) comparou tirzepatida com semaglutida 1 mg em diabetes tipo 2: HbA1c −2,30% (15 mg) vs −1,86%, e peso até −5,5 kg a mais. O raro confronto direto entre as duas moléculas.

PorAmanda MatsudaPublicado02 de agosto de 2026Leitura~4 min

TL;DR

O SURPASS-2 (Frías et al, NEJM 2021, PMID 34170647) fez algo raro: comparou tirzepatida e semaglutida cara a cara, no mesmo ensaio. Foram 1.879 adultos com diabetes tipo 2 em metformina, randomizados para tirzepatida 5, 10 ou 15 mg ou semaglutida 1 mg, por 40 semanas. A redução de HbA1c foi −2,01% / −2,24% / −2,30% nas doses de tirzepatida contra −1,86% na semaglutida — a tirzepatida foi não inferior e superior em todas as doses (5 mg p=0,02; 10 e 15 mg p<0,001). No peso, a diferença a favor da tirzepatida chegou a −5,5 kg (15 mg vs semaglutida, p<0,001). Foi o confronto direto que colocou a tirzepatida acima da semaglutida em diabetes tipo 2 — dentro dos limites do que o ensaio de fato mediu.

Por que o SURPASS-2 é diferente dos outros

Comparar dois medicamentos a partir de estudos separados é traiçoeiro: populações, durações e desenhos mudam, e o "vencedor" pode ser artefato da comparação indireta. O SURPASS-2 evita isso ao randomizar as pessoas para as duas moléculas dentro do mesmo ensaio, com a mesma população e o mesmo período. É um head-to-head direto — a evidência mais limpa que existe para dizer que um fármaco superou o outro naquele contexto.

O contexto aqui é específico: diabetes tipo 2 em uso de metformina, comparando a tirzepatida com a semaglutida na dose de 1 mg (a dose de controle glicêmico). Ler o resultado fora desse contexto — por exemplo, extrapolando para a semaglutida 2,4 mg de controle de peso — é uma distorção.

O desenho

O SURPASS-2 foi um ensaio fase 3 randomizado, aberto (open-label), de grupos paralelos, com 40 semanas de duração. Randomizou 1.879 adultos com diabetes tipo 2 inadequadamente controlados com metformina, em quatro braços:

BraçoO que é
Tirzepatida 5 mgMenor dose testada
Tirzepatida 10 mgDose intermediária
Tirzepatida 15 mgMaior dose testada
Semaglutida 1 mgComparador ativo (dose de controle glicêmico)

O desfecho primário foi a mudança na HbA1c em 40 semanas. Por ser aberto, o estudo tem a limitação de não ter cegamento — algo a considerar na leitura, ainda que os desfechos (HbA1c, peso) sejam objetivos e medidos laboratorialmente.

Os números verificados

Na HbA1c, partindo do controle inadequado com metformina, a redução em 40 semanas foi:

  • Tirzepatida 5 mg: −2,01 pontos percentuais
  • Tirzepatida 10 mg: −2,24 pontos percentuais
  • Tirzepatida 15 mg: −2,30 pontos percentuais
  • Semaglutida 1 mg: −1,86 pontos percentuais

A tirzepatida foi não inferior e superior à semaglutida em todas as doses — p=0,02 na de 5 mg e p<0,001 nas de 10 e 15 mg.

No peso corporal, o ensaio reporta a diferença de tratamento entre tirzepatida e semaglutida (ou seja, o quanto a mais a tirzepatida reduziu):

  • 5 mg vs semaglutida: −1,9 kg
  • 10 mg vs semaglutida: −3,6 kg
  • 15 mg vs semaglutida: −5,5 kg

Todas com p<0,001. A vantagem sobre o peso cresce com a dose.

Não inferioridade ≠ superioridade ≠ diferença grande

Vale separar três conceitos que costumam se embaralhar:

  • Não inferioridade significa "não é pior que" dentro de uma margem pré-definida. É a pergunta mínima.
  • Superioridade significa "é melhor que" de forma estatisticamente demonstrada. O SURPASS-2 atingiu as duas para a tirzepatida.
  • Relevância clínica é outra coisa: mesmo uma diferença real e significativa pode ser pequena ou grande na vida da pessoa, dependendo das metas e do custo em efeitos adversos.

O SURPASS-2 estabelece que a tirzepatida foi estatisticamente superior à semaglutida 1 mg em HbA1c e peso. Traduzir isso em "vale a pena para você" é uma decisão clínica, individualizada, que pondera magnitude, tolerância e contexto.

O que o SURPASS-2 não mede

O SURPASS-2 é um ensaio de controle glicêmico e metabólico. Seu desfecho é HbA1c, não eventos cardiovasculares. Ele não demonstra redução de infarto, AVC ou morte cardiovascular — para isso existem ensaios de desfecho dedicados a cada molécula. Baixar HbA1c e peso são desfechos intermediários; presumir benefício cardiovascular a partir deles é o erro clássico de leitura. E, por ser aberto, o ensaio carrega a limitação do não cegamento.

O que isso significa na prática

O SURPASS-2 é a evidência direta mais forte de que, em diabetes tipo 2 sob metformina, a tirzepatida superou a semaglutida 1 mg em HbA1c (até −2,30% vs −1,86%) e em peso (diferença de até −5,5 kg a favor da tirzepatida), com significância estatística em todas as doses. O que o ensaio não autoriza: comparar com a semaglutida 2,4 mg (dose de obesidade), transformar médias de ensaio em promessa individual, ou tratar o resultado metabólico como se fosse desfecho cardiovascular. A escolha entre as moléculas, a dose e a expectativa realista são decisão clínica e individualizada, com prescrição médica.

Para aprofundar

<!-- dedup: grep -irl "surpass" content/ retornou SURPASS-3 (vs insulina degludeca), SURPASS-4 e tirzepatida-vs-semaglutida (panorama). Ângulo aqui é distinto: SURPASS-2 é o head-to-head DIRETO tirzepatida vs semaglutida 1 mg. Sem colisão de slug. -->

Perguntas frequentes

O que o SURPASS-2 comparou?
+
O SURPASS-2 (Frías 2021, NEJM, n=1879) foi um dos raros ensaios que comparou diretamente as duas moléculas: tirzepatida semanal (5, 10 e 15 mg) contra semaglutida 1 mg semanal, ambas adicionadas à metformina, em adultos com diabetes tipo 2. Foi um ensaio fase 3 aberto (open-label) de 40 semanas. A maioria dos estudos compara cada fármaco com placebo ou insulina; o SURPASS-2 pôs tirzepatida e semaglutida frente a frente, o que torna a comparação mais direta do que cruzar resultados de estudos separados.
Quanto cada uma baixou a HbA1c no SURPASS-2?
+
Em 40 semanas, a redução de HbA1c foi de −2,01% na tirzepatida 5 mg, −2,24% na de 10 mg e −2,30% na de 15 mg, contra −1,86% na semaglutida 1 mg. A tirzepatida foi não inferior e também superior à semaglutida em todas as três doses (p=0,02 para 5 mg; p<0,001 para 10 e 15 mg). Ou seja, mesmo a menor dose de tirzepatida baixou a HbA1c um pouco mais que a semaglutida 1 mg naquele desenho.
E a perda de peso, foi diferente?
+
Sim, e a favor da tirzepatida. A diferença de peso entre os grupos (tirzepatida menos semaglutida) foi de −1,9 kg na dose de 5 mg, −3,6 kg na de 10 mg e −5,5 kg na de 15 mg, todas com p<0,001. Isso significa que, além de baixar mais a HbA1c, a tirzepatida produziu mais perda de peso que a semaglutida 1 mg nesse ensaio. A magnitude cresce com a dose.
Por que a semaglutida foi testada só na dose de 1 mg?
+
No SURPASS-2, o comparador foi a semaglutida 1 mg semanal, que é a dose de controle glicêmico aprovada para diabetes tipo 2 na formulação usada. É importante não confundir: a semaglutida 2,4 mg (dose de controle de peso, estudada no programa STEP) é diferente e não foi o comparador aqui. Portanto o SURPASS-2 compara tirzepatida com a semaglutida na dose de diabetes, não na dose de obesidade — comparar com a 2,4 mg seria outra pergunta.
Superioridade estatística significa que a diferença é grande na prática?
+
Não automaticamente. O SURPASS-2 mostrou que a tirzepatida foi estatisticamente superior à semaglutida 1 mg em HbA1c e peso. Mas superioridade estatística responde à pergunta 'a diferença é real?', não 'a diferença é grande o suficiente para importar para você?'. A relevância clínica de alguns pontos percentuais ou quilos depende do contexto individual, das metas de tratamento e da tolerância a efeitos adversos. A leitura correta é de magnitude média em ensaio, não de promessa individual.
O SURPASS-2 mediu benefício cardiovascular?
+
Não. O SURPASS-2 teve desfecho primário de mudança na HbA1c — controle glicêmico e metabólico. Não foi desenhado para medir infarto, AVC ou morte cardiovascular. Baixar HbA1c e peso são desfechos intermediários e não equivalem automaticamente a redução de eventos cardiovasculares. A evidência cardiovascular de cada molécula vem de ensaios dedicados. Misturar desfecho metabólico com desfecho cardiovascular é um erro comum de leitura.

Estudos citados

1 referência
  1. 01
    Frías JP, Davies MJ, Rosenstock J, Pérez Manghi FC, Fernández Landó L, Bergman BK, Liu B, Cui X, Brown K.. Tirzepatide versus Semaglutide Once Weekly in Patients with Type 2 Diabetes · New England Journal of Medicine, 2021 · Ensaio fase 3 randomizado, aberto (open-label), de grupos paralelos — 1.879 adultos com diabetes tipo 2 em uso de metformina, tirzepatida 5/10/15 mg semanal vs semaglutida 1 mg semanal por 40 semanas (SURPASS-2)

    Reduções de HbA1c em 40 semanas: −2,01% (5 mg), −2,24% (10 mg), −2,30% (15 mg) vs −1,86% na semaglutida 1 mg. Tirzepatida foi não inferior e superior à semaglutida em todas as doses (5 mg p=0,02; 10 e 15 mg p<0,001). Peso: diferença de tratamento a favor da tirzepatida de −1,9 kg (5 mg), −3,6 kg (10 mg) e −5,5 kg (15 mg) vs semaglutida (p<0,001 para todas).

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